Henrique IV (parte I) - William Shakespeare
Ridendo Castigat Mores



  Henrique IV (parte I)
  William Shakespeare

  Edio
  Ridendo Castigat Mores

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  Fonte Digital
  www.jahr.org

  Copyright:
  Autor: William Shakespeare
  Traduo: Carlos A. Nunes
  Edio eletrnica: Ed. Ridendo Castigat Mores
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  NDICE
  PERSONAGENS
  ATO I
     Cena I
     Cena II
     Cena III
  ATO II
     Cena I
     Cena II
     Cena III
     Cena IV
  ATO III
     Cena I
     Cena II
     Cena III
  ATO IV
     Cena I
     Cena II
     Cena III
     Cena IV
  ATO V
     Cena I
     Cena II
     Cena III
     Cena IV
     Cena V



  HENRIQUE IV
  PARTE I

  WILLIAM SHAKESPEARE



  PERSONAGENS
  REI HENRIQUE IV.
  HENRIQUE, Prncipe de Gales, filho do rei
  JOO DE LENCASTRE, filho do rei.
  CONDE DE WESTMORELAND.
  Sir WALTER BLUNT.
  TOMS PERCY, Conde de Worcester.
  HENRIQUE PERCY, Conde de Northumberland.
  HENRIQUE PERCY, chamado Hotspur, seu filho.
  EDMUNDO MORTIMER, Conde de March.
  RICARDO SCROOP, Arcebispo de York.
  ARQUIBALDO, Conde de Douglas.
  OWEN GLENDOWER.
  Sir RICARDO VERNON.
  Sir JOHN FALSTAFF.
  Sir MICAEL, amigo do Arcebispo de York.
  POINS.
  GADSHILL.
  PETO.
  BARDOLFO.
  LADY PERCY, mulher de Hotspur e irm de Mortimer.
  LADY MORTIMER, filha de Glendower e mulher de Mortimer.
  MISTRESS QUICKLY, estalajadeira da taberna "Cabea de javali", em Eastcheap.
  Nobres, oficiais, xerife, taberneiro, criados, dois carreteiros, viajantes e 
  gente de servio.



  ATO I
  CENA I
  Londres. Palcio. Entram o Rei Henrique, Westmoreland e outros.
   
       REI HENRIQUE - Muito embora ainda plido e abalado pelas preocupaes, 
  achamos tempo para deixar que a Paz aterrorada e arquejante nos fale em termos 
  curtos de outras lutas em plagas bem remotas. As fauces ressecadas deste solo 
  no mais os lbios tingiro com o sangue dos prprios filhos, nem a guerra os 
  campos cortar com trincheiras ou as flores esmagar com os cascos inimigos. 
  Os olhos incendiados, quais meteoros em turvo cu, s de uma natureza todos 
  eles, de uma nica substncia, at h pouco travados em contendas internas e 
  hecatombes fratricidas, marcharo ora em filas harmoniosas por um mesmo 
  caminho, sem mais luta contra amigos, aliados e parentes. A guerra, como faca 
  em bainha velha, no mais o dono h de ferir. Por isso. amigos, at ao tmulo 
  de Cristo - de quem soldados somos, obrigados a lutar sob a cruz sempre 
  bendita - levaremos guerreiros da Inglaterra, de braos conformados na 
  me-ptria para os pagos vencer dos campos sacros onde os ps abenoados 
  assentaram, e onde, h quatorze sculos, na amarga cruz, para nosso bem, foram 
  cravados. Essa resoluo data de um ano; intil ser, pois, dizer que iremos; 
  no viemos discuti-la neste instante. Dizei-nos, caro primo Westmoreland, o 
  que esta noite fez nosso Conselho em prol de to grandiosa e cara empresa.
       WESTMORELAND - Meu soberano, a pressa foi pesada devidamente e as verbas 
  aprovadas ainda esta noite; mas atravessou-se-nos um correio de Gales, 
  carregado de notcias, das quais a pior dizia respeito ao nobre Mortimer, que 
  gente de Herefordshire havia conduzido contra o insurrecto e rstico 
  Glendower, e que nas mos caiu desse galense. Pereceram mil homens de suas 
  tropas, cujos corpos com tal brutalidade, com to bestial furor foram tratados 
  pelas galenses, que no  possvel, sem rubor, falar nisso ou repeti-lo.
       REI HENRIQUE - Parece que a notcia desse fato frustra a viagem ideada  
  Terra Santa.
       WESTMORELAND - Sim, gracioso senhor, ao lado de outras, pois notcias 
  mais cruas e importunas do norte nos chegaram, que referem como ali se chocou, 
  no dia exato da Santa Cruz, o moo Henrique Percy, o valoroso Hotspur, contra 
  Arquibaldo, o escocs sempre bravo e sempre esperto, em Holmedon, onde uma 
  hora bem triste eles passaram, a julgar pelos trons da artilharia e ainda 
  outros indcios. O emissrio que a notcia nos trouxe, cavalgara no momento 
  mais rduo da refrega, sem saber com certeza o resultado.
       REI HENRIQUE - Eis que acaba de apear-se do cavalo um amigo querido e 
  diligente, Sir Walter Blunt, que vem todo coberto de manchas, apanhadas no 
  caminho entre Holmedon e nossa augusta sede, e que novas mui gratas nos 
  refere: derrotado a estas horas se acha o Conde de Douglas; dez mil homens 
  escoceses, vinte e dois cavaleiros, viu Sir Walter no prprio sangue tintos, 
  pelos plainos de Holmedon; prisioneiros fez Hotspur Mordake, o herdeiro do 
  vencido Douglas, Duque de Fife, e os Duques de Angus, Murray, de Athol e de 
  Menteith. Em verdade, um despojo muito honroso, no vos parece, hem, primo, um 
  belo prmio?
       WESTMORELAND - De fato,  uma conquista destinada a encher de orgulho um 
  prncipe.
       REI HENRIQUE - Fazes-me triste e, mais, pecar me fazes, pois tenho inveja 
  ao pai abenoado, Lorde Northumberland, por ter tal filho, tema constante da 
  honra, a mais esbelta rvore da floresta, o delicado favorito e, ainda, o 
  orgulho da Fortuna, ao passo que eu, sua glria contemplando, vejo o vcio e a 
  desonra na pessoa do meu jovem Henrique. Oh! se possvel fosse provar que um 
  gnio bulioso trocara nossos filhos, dando o nome de Percy ao meu e ao seu 
  Plantageneta, meu fora o seu Henrique e o dele meu. Mas esqueamos isso. Que 
  pensais, primo, da altanaria desse jovem Percy? Intenta ficar, para uso 
  prprio, com os prisioneiros todos capturados nessa aventura, e manda-me 
  recado de que Mordake s, Duque de Fife, me reserva.
       WESTMORELAND -  o que o tio lhe ensina; Worcester sempre em tudo  vosso 
  desafeto, donde vem envaidar-se Percy e a jovem crista levantar contra Vossa 
  Dignidade.
       REI HENRIQUE - Mas intimei-o a vir prestar-me contas, motivo de deixarmos 
  por um tempo nosso santo propsito da viagem at Jerusalm. Primo, na prxima 
  quarta-feira o Conselho reuniremos em Windsor; informai todos os lordes, mas 
  voltai para ns com toda a pressa, que ainda falta dizer e fazer muito mais do 
  que me permite a indignao.
       WESTMORELAND - Pois no, meu soberano!
       (Saem.)



  CENA II
  Palcio. Um quarto dos aposentos do prncipe. Entram o prncipe e Falstaff.
   
       FALSTAFF - Ento, Hal! Que horas so, rapaz?
       PRNCIPE - Embruteceste de tal modo,  fora de beber xerez, de 
  desabotoar-te depois da ceia e de dormir  tarde sobre os bancos, que te 
  esquece perguntar o que, realmente, mais importa saberes. Que diabo tens tu 
  que ver com o tempo? A menos que as horas sejam copos de xerez; os minutos, 
  capes; os relgios, lnguas de alcoviteiras; o quadrante, escudo de bordel, e 
  o prprio sol abenoado, fogosa e bela rameira vestida com tafet flamejante, 
  no vejo razo para fazeres perguntas suprfluas, como essa relativa s horas.
       FALSTAFF - Deste no vinte, Hal, no h que ver, porque ns outros, os 
  tomadores de bolsas, nos guiamos pela lima e as sete estrelas, no por Febo, 
  "o belo cavaleiro errante". Uma coisa te peo, meu querido, quando fores rei - 
  conserve Deus tua graa - majestade, queria dizer, porque o certo  que isso 
  de graa nunca ters nenhuma.
       PRNCIPE - Como! Nenhuma?
       FALSTAFF - Palavra! Nem mesmo a suficiente para servir de prlogo a um 
  ovo com manteiga.
       PRNCIPE - Bem; e que mais? Arredonda logo o discurso.
       FALSTAFF - J chego l, meu caro: quando fores rei, no permitas que ns 
  outros, os cavaleiros da Ordem da Noite sejamos denominados ladres da beleza 
  do dia; que nos dem o nome de guardas florestais de Diana, gentis-homens da 
  sombra, favoritos da lua, e que nos considerem gente de bom governo, visto 
  sermos governados da mesma maneira que o mar, por nossa nobre e casta senhora, 
  a lua, sob cuja proteo roubamos.
       PRNCIPE - Dizes bem e com propriedade, porque a fortuna dos que ns 
  chamamos homens de bem deve ter fluxo e refluxo como o mar, uma vez que  
  governada pela lua. E a prova, aqui a temos: uma bolsa de ouro, resolutamente 
  roubada na noite de sexta-feira e mais dissolutamente esvaziada na tera, 
  adquirida com o dito de "Larga!" e gasta com os gritos de "Traga-me!" agora, 
  com a mar baixa, no p da escada, para depois, com a cheia, tocar no alto da 
  forca.
       FALSTAFF - Por Deus, tens razo, rapaz; mas dize-me uma coisa: a 
  hoteleira da taberna no  uma criatura deliciosa?
       PRNCIPE - Tanto quanto o mel de Hibla, meu velho fanfarro. E no  
  verdade tambm que um colete de bfalo  pea que dura muito tempo?
       FALSTAFF - Que ests a dizer, maluco? Outra vez com sarcasmos e 
  sutilezas? Que diabo tenho eu que ver com um colete de bfalo?
       PRNCIPE - E que me importa a mim a hoteleira da taberna?
       FALSTAFF - Como no? Muitas e muitas vezes a tens chamado para pagar-lhe 
  a conta.
       PRNCIPE - E j te chamei alguma vez para que pagasses a tua parte?
       FALSTAFF - No, justia seja feita; l, sempre pagaste tudo.
       PRNCIPE - E em outros lugares, tambm, uma vez que disponha de 
  numerrio; e, quando falta o dinheiro, recorro ao crdito.
       FALSTAFF -  fato; e de tal modo usas dele, se no fosse presumir-se que 
  s o herdeiro presuntivo... Mas dize-me uma coisa, delicioso pndego, quando 
  fores rei, ficar de p alguma forca na Inglaterra? E ser a resoluo 
  maltratada como hoje em dia, pelo freio enferrujado dessa antiqualha que se 
  chama lei? No enforques nenhum ladro, quando fores rei.
       PRNCIPE - No; tu o fars.
       FALSTAFF - Verdade? Oh boniteza! Por Deus, vou dar um juiz admirvel.
       PRNCIPE - Comeas julgando mal; o que eu quis dizer  que tu prprio 
  enforcars os ladres, tornando-te, assim, excelente carrasco.
       FALSTAFF - Muito bem, Hal; de certo modo isso vai com o meu temperamento, 
  tanto como ficar de espera na ante-sala do palcio, asseguro-te.
       PRNCIPE - Para obter proventos?
       FALSTAFF - Sim, para obter roupas, porque, como sabes, o guarda-roupa dos 
  carrascos sempre est bem provido. Com a breca! Encontro-me hoje to 
  melanclico quanto um gato velho ou um urso com mordaa.
       PRNCIPE - Ou como um leo decadente ou o alade de um namorado.
       FALSTAFF - Ou como o ronco de uma gaita-de-foles de Lincolnshire.
       PRNCIPE - E que dizes de uma lebre ou da melancolia do charco de 
  Moor-ditch?
       FALSTAFF - Sempre te vales das comparaes mais desagradveis, sendo, 
  como de fato o s, o mais comparativo, maroto e delicioso principezinho que j 
  se viu. Mas, meu caro Hal, por favor no me fales mais dessas vaidades. Por 
  Deus, desejaria que eu e tu soubssemos onde se pode comprar proviso de bons 
  nomes. Um velho lorde do Conselho me admoestou em pblico, recentemente, por 
  vossa causa, senhor, mas no lhe dei ateno alguma; falou muito 
  assisadamente, mas no olhei para o seu lado; no entanto, falou assisadamente, 
  e no meio da rua, tudo isso.
       PRNCIPE - Fizeste bem, que a sabedoria grita pelas ruas, mas ningum lhe 
  d ouvidos.
       FALSTAFF - Fazes sempre citaes execrveis; s capaz de corromper um 
  santo. Tu me tens prejudicado muitssimo, Hal; Deus te perdoe. Antes de 
  conhecer-te, Hal, ignorava tudo; e agora, para dizer toda a verdade, valho 
  pouco mais que um pecador. Preciso deixar esta vida, e hei de deix-la. Por 
  Deus, se o no fizer, no passarei de um rematado velhaco; no quero ir para o 
  inferno por causa de nenhum filho de rei da Cristandade.
       PRNCIPE - Onde roubaremos uma bolsa amanh, Jack?
       FALSTAFF - Cspite! Onde quiseres, rapaz: adiro ao bando; se eu recuar, 
  podes chamar-me de vilo e zombar de mim quanto quiseres.
       PRNCIPE - Estou vendo que te encontras, realmente, no caminho da 
  regenerao: passas da prece para o roubo.
       (Entra Poins, a distncia.)
       FALSTAFF - Que queres, Hal? E vocao. No se pode censurar ningum, por 
  trabalhar de acordo com a vocao. Poins! Vamos ficar sabendo neste instante 
  se Gadshill tem alguma coisa em perspectiva. Oh, se os homens tivessem de 
  salvar-se pelo merecimento, que buraco no inferno ser bastante quente para 
  este? E o mais onipotente dos velhacos que j gritaram "Alto l!" para um 
  homem de bem.
       PRNCIPE - Bom dia, Ned.
       POINS - Bom dia, caro Hal. Que diz Monsieur Remorso? que diz Sir John 
  Vinho-com-acar? Jack, como te arranjaste com o diabo a respeito de tua alma, 
  que lhe vendeste na ltima sexta-feira santa por um copo de madeira e uma 
  perna fria de capo?
       PRNCIPE - Sir John cumprir a palavra e o diabo obter a parte que lhe 
  toca na barganha. Sir John jamais desmentiu nenhum provrbio; h de dar ao 
  diabo o que  do diabo.
       POINS - Ento te condenars por cumprires a palavra dada ao diabo.
       PRNCIPE - De outra sorte se condenaria, tambm, por t-lo enganado.
       POINS - Muito bem, rapazes; amanh bem cedo, pelas quatro horas, em 
  Gadshill. Haver peregrinos para Canturia com ricas oferendas e comerciantes 
  para Londres com bolsas recheadas. Arranjei mscaras para todos; cavalos, j 
  os possus. Gadshill fica esta noite em Rochester; a ceia de amanh em 
  Eastcheap j est encomendada; ser to fcil fazer a coisa como dormir. Se me 
  acompanhardes, encher-vos-ei de coroas as bolsas; se no o quiserdes, ficai em 
  casa e enforcai-vos.
       FALSTAFF - Escuta, Eduardo: se eu ficar em casa e no te acompanhar, 
  mandarei enforcar-te por teres ido.
       POINS - Ento vais mesmo, costeleta?
       FALSTAFF - E tu, Hal, no aderes ao bando?
       PRNCIPE - Eu, ladro? salteador? Por minha f, que no.
       FALSTAFF - Em ti no se encontra nem honestidade, nem coragem, nem 
  esprito de camaradagem. Demonstrars no provires de sangue real, se no te 
  atreveres a um assalto por dez xelins.
       PRNCIPE - Bem, seja; farei uma loucura, pelo menos uma vez na vida.
       FALSTAFF - Isso  que  falar com acerto.
       PRNCIPE - No; no vou; ficarei em casa, venha o que vier.
       FALSTAFF - Por Deus, tornar-me-ei traidor, quando fores rei.
       PRNCIPE - E a mim, que importa?
       POINS - Sir John, por obsquio, deixai-me s com o prncipe. Hei de 
  apresentar-lhe tais razes em prol dessa aventura, que ele no deixar de 
  tomar parte nela.
       FALSTAFF - Bem; Deus te conceda o esprito da persuaso e a ele ouvidos 
  de aproveitar, para que as tuas palavras o abalem e ele acredite no que lhe 
  disseres e, desse modo, um prncipe verdadeiro se transforme, por passatempo, 
  em um falso salteador. Os pobres abusos desta poca necessitam de amparo. 
  Adeus, encontrar-me-s em Eastcheap.
       PRNCIPE - Adeus, primavera retardada; adeus, vero de Todos-os-Santos.
       (Sai Falstaff.)
       POINS - E agora, meu querido prncipe de acar, vinde conosco amanh; 
  tenho uma brincadeira engatilhada, que no posso levar a cabo sozinho. 
  Falstaff, Bardolfo, Peto e Gadshill roubaro essa gente que j temos em mira; 
  nem vs nem eu estaremos l; mas, se depois de se haverem desapossado da 
  presa, no lhe pusermos a mo em cima, podeis separar-me dos ombros a cabea.
       PRNCIPE - E como nos livrarmos deles  sada?
       POINS Muito fcil: partiremos antes ou depois deles e marcaremos lugar de 
  encontro, a que no havemos de comparecer. Desse modo, eles se aventuraro 
  sozinhos  empresa; unia vez levada esta a efeito, cairemos em cima deles.
       PRNCIPE - Bem; mas podero reconhecer-nos pelos cavalos, ou pela roupa. 
  ou por qualquer outra particularidade.
       POINS - Ora! No vero os cavalos, porque os esconderei no bosque; as 
  mscaras, trocaremos logo que nos separamos deles; alm do mais, arranjei 
  capas de bocaxim para vestirmos por cima da roupa.
       PRNCIPE - Mas ainda assim, receio que no possamos com eles.
       POINS - Qual! Considero dois deles os mais alentados de quantos poltres 
  j se puseram em fuga; quanto ao terceiro, se lutar mais do que for razovel, 
  abjuro do ofcio das armas. O chiste de tudo isso est na mentirada que esse 
  velho panudo h de contar-nos quando nos reunirmos para a ceia: como se ter 
  batido com trinta pelo menos; quantas paradas tenha feito, os golpes que haja 
  recebido, os perigos por que tenha passado. O auge da brincadeira consistir, 
  precisamente, em lhe darmos o desmentido.
       PRNCIPE No h dvida, irei contigo; prepara o que se fizer necessrio, 
  que amanh  noite nos encontraremos em Eastcheap, para cear. Adeus.
       POINS - Passe bem, meu prncipe.
       (Sai.)
       PRNCIPE - Eu vos conheo, e quero, por um tempo, prestar-me ao vosso 
  humor vadio e infrene. Com isso, imitarei o sol radioso que consente que 
  nuvens desprezveis, ante o mundo, a beleza lhe atenuem, porque, quando lhe 
  apraz ser ele prprio, faa o anelo crescer a admirao, ao cortar ele as 
  brumas e vapores que pareciam prestes a asfixi-lo. Se o ano todo s fosse de 
  feriados, como o trabalho, o esporte entediaria; mas, porque no freqentes, 
  so bem-vindos. Os acidentes raros sempre agradam. Assim, mal eu me dispa 
  desta vida desregrada que levo, e me disponha a pagar at mesmo o que no 
  devo, serei tanto melhor do que prometo, quanto mais enganar a expectativa do 
  mundo inteiro. Como metal brilhante em fundo escuro, h de minha reforma sobre 
  os erros resplandecer, mostrando-se mais bela de ver e mais atraente, que a 
  virtude cujo brilho nenhum contraste exalta. Serei assim, pelo erro 
  convertido, quando todos me derem por perdido.
       (Sai.)



  CENA III
  Londres. Outra sala no palcio. Entram o Rei Henrique, Northumberland, 
  Worcester, Hotspur, Sir Walter Blunt e outros.
   
       REI HENRIQUE - Bem temperado e frio est meu sangue, incapaz de agitar-se 
  a essas vilezas, certo o notastes, para assim pisardes em minha pacincia. Mas 
  afiano-vos que vou ser doravante o que fui sempre: poderoso e temido, no 
  untuoso como o leo e de macieza de penugem, o que me fez perder o alto 
  respeito que aos grandes sempre os grandes tributaram.
       WORCESTER - No merece, senhor, a nossa casa que o poder a flagele desse 
  modo, justamente o poder que a nossos braos tanto deve.
       NORTHUMBERLAND - Senhor!
       REI HENRIQUE - Retira-te, Worcester, que em teus olhos os meus j vem 
  perigo e rebelio. Senhor, vossa presena  por demais audaz e peremptria; 
  no deve suportar a majestade carrancas atrevidas de um vassalo. Tendes 
  licena de sair; se acaso necessitar de vossos altos prstimos ou conselhos, 
  de novo hei de chamar-vos.
       (Sai Worcester.)
       eis falando...
       NORTHUMBERLAND - Sim, meu soberano, sobre esses prisioneiros reclamados 
  por Vossa Majestade e que Harry Percy, aqui presente, em Holmedon fizera. 
  Conforme diz, no foram recusados tal como a Vossa Alteza o noticiaram. A 
  inveja, porventura, ou acaso, engano foram causa desse erro, no meu filho.
       HOTSPUR - Meu soberano, no vos neguei nada; ocorre-me, porm, que, finda 
  a luta, quando, sedento, esfomeado, exausto, por causa do furor com que 
  lutara, apoiado me achava em minha espada, chegou-se-me um senhor mui bem 
  vestido, to guapo quanto um noivo, a barba feita como campo de sega aps a 
  festa. Parecia um modista perfumado; trazia uma caixinha entre o dedo ndice e 
  o polegar, que s vezes encostava no nariz, ora dele o retirava, at que este, 
  irritado com a insistncia, se pusesse a espirrar. Ria e palrava, e ao 
  passarem soldados com cadveres, chamou-lhes grosseires, mal-educados, porque 
  punham um corpo feio e sujo entre o vento e sua alta Senhoria. Interrogou-me 
  usando s de termos raros e efeminados, reclamando-me, entre outras coisas 
  mais, os prisioneiros para Vossa Grandeza. Nesse instante, com a dor das 
  feridas que esfriavam, j farto de aturar o bonifrate, por demais irritado e 
  sem pacincia, respondi qualquer coisa: que os teria... que no lhos dava... 
  Louco me deixava v-lo assim to casquilho e perfumado, a falar tal qual uma 
  camareira, de tiros de canho, tambor e golpes - Deus lhe perdoei - sobre 
  asseverar-me que para as contuses internas nada no mundo se compara ao 
  espermacete, e que era grande lstima, em verdade, que o vilo do salitre 
  fosse extrado das entranhas da terra inofensiva, para a tantos vares grandes 
  e belos destruir covardemente, acrescentando que sem esses canhes to 
  desprezveis com certeza soldado ele seria. A esse to descosido palavrrio 
  respondi, como disse, vagamente. No consintais, vos peo, que seus ditos 
  venham meter-se entre o meu grande amor e vossa alta e acatada Majestade.
       BLUNT - Dadas as circunstncias, bom senhor, de tudo o que Harry Percy h 
  relatado, semelhante pessoa, em tal momento, no local indicado, em suma, 
  quanto nos contou, pode bem ser enterrado para no mais surgir, nem, de algum 
  modo, prejudic-lo, visto retratar-se de quanto porventura houvesse dito.
       REI HENRIQUE - O fato  que s entrega os prisioneiros com a expressa 
  condio de resgatarmos  nossa prpria custa o seu cunhado, Mortimer, esse 
  idiota, que traiu, por minha alma, a sabendas, quantas vidas levara a combater 
  contra o maldito feiticeiro Glendower, cuja filha, segundo ouvi dizer, acaba o 
  Conde de March de esposar. Esvaziaremos nossos cofres por causa de um traidor? 
  Compraremos traio? Transigiremos com poltres que a si mesmo se perderam? 
  No; que morra de fome nas montanhas estreis; no terei mais como amiga a 
  pessoa que vier pedir-me um pni para com ele pagar todo o resgate deste 
  rebelde Mortimer.
       HOTSPUR - Mortimer, um rebelde! Ele no vos deixou, meu soberano, seno 
  pela inconstncia da fortuna. Para prov-lo, basta uma s lngua de todas as 
  feridas, que tm boca, e que ele recebeu galhardamente quando da pugna 
  singular nas ribas juncosas do Severne prazenteiro, em que a melhor poro de 
  uma hora, em duelo, gastou ele, trocando, mo por mo, ousadias com o nclito 
  Glendower. Trs vezes descansaram, trs beberam, sob acordo, do rpido 
  Severne, que, com medo de seus sangrentos vultos, tratando de ocultar a crespa 
  fronte pelos trmulos juncos se esgueirava, em sua margem cavada, retingidas 
  com o sangue dos valentes inimigos. Nunca a traio mesquinha e repugnante 
  manchou sua prpria obra com feridas to mortais, nem possvel fora ao nobre 
  Mortimer receber tantas e todas de bom grado. Que cessem, pois, as vozes 
  caluniosas que o acusam de traio.
       REI HENRIQUE - Mentes a favor dele, Percy, mentes; ele nunca lutou contra 
  Glendower, afiano-te. Melhor lhe fora ver-se a ss com o diabo, do que ter 
  Owen Glendower por inimigo. No te envergonhas? Que daqui por diante no vos 
  oua falar mais nesse Mortimer. Mandai-me os prisioneiros logo e logo, ou, 
  como agora, haveis de ouvir-me, certo, coisas que vos sero desagradveis. 
  Lorde Northumberland, tendes licena para vos retirardes, juntamente com vosso 
  filho. Mas enviai-me logo todos os prisioneiros; do contrrio, ainda ouvireis 
  algo sobre o assunto.
       (Saem o Rei Henrique, Blunt e a comitiva.)
       HOTSPUR - Recusara-os, ainda que os pedisse o diabo com rugidos. Vou 
  atrs dele para dizer-lho; desabafo o peito, muito embora com risco da cabea.
       NORTHUMBERLAND - Que  isso? Tanta clera? Acalmai-vos; eis vosso tio.
       (Volta Worcester.)
       HOTSPUR - Falarei de Mortimer! Com a breca, hei de falar! Que se condene 
  minha alma, se com ele eu no me unir. Por ele esgotarei todas as veias, gota 
  a gota, a pingar na areia o sangue, contanto que levante o pobre Mortimer  
  altura desse ingrato soberano, o torpe, o gangrenoso Bolingbroke.
       NORTHUMBERLAND - O rei deixou vosso sobrinho louco.
       WORCESTER - Quem deu causa a esse fogo em minha ausncia?
       HOTSPUR - Vede! Quer que lhe entregue os prisioneiros! E ao falar-lhe de 
  novo no resgate do irmo de minha esposa, ficou plido, ao rosto me lanando o 
  olhar da Morte, a tremer, s de ouvir falar em Mortimer.
       WORCESTER - No o censuro. No foi, acaso, Mortimer considerado o 
  herdeiro mais direto pelo extinto monarca?
       NORTHUMBERLAND - Sim; eu mesmo lhe ouvi a proclamao. Passou-se o fato 
  quando esse infeliz rei - Deus lhe perdoe os pecados! - seguiu para a campanha 
  da Irlanda, donde veio bruscamente para ser destronado e executado.
       WORCESTER - E, pela morte dele, a grande boca do mundo nos vomita infmia 
  e injria.
       HOTSPUR - Devagar! Por favor: o Rei Ricardo proclamou meu irmo Edmundo 
  Mortimer herdeiro da coroa?
       NORTHUMBERLAND - Eu prprio o ouvi.
       HOTSPUR - Ento ao rei seu primo eu no censuro por querer que ele morra 
  nas montanhas estreis. Mas concebe-se que vs, que a coroa pusestes na cabea 
  desse homem sem memria, e que por ele carregais o labu de um assassnio 
  deprimente; concebe-se que todos suporteis maldies que vos rebaixam ao papel 
  secundrio de sequazes, de carrascos, de cordas e de escadas? Mas perdoai-me 
  por ter descido tanto no af de revelar-vos em que nvel vos encontrais sob 
  esse rei astuto. Dir-se- em nossos dias - que vergonha! - falaro disso as 
  crnicas futuras, que homens de tal nobreza e poderio se empenharam em causa 
  to injusta como vs ambos - Deus que vos perdoei - fizestes, arrancando a 
  suave rosa - Ricardo - e, aps, plantando em lugar dela este espinho, este 
  cancro Bolingbroke. E se dir, para maior vergonha, que fostes enganados e 
  alijados por quem to grande oprbrio padecestes? No; vossa honra banida pode 
  agora ser resgatada;  tempo de subirdes novamente no juzo so do mundo, de 
  vos vingardes do humilhante escrnio desse rei orgulhoso que s pensa, noite e 
  dia, em pagar o que vos deve fazendo-vos sofrer sangrenta morte. Por isso eu 
  digo...
       WORCESTER - Calma, primo! Basta! Ora um livro secreto vou folhear-vos e 
  ler ao vosso perspicaz desgosto coisas to perigosas quo profundas, to 
  pejadas de riscos e de audcia quanta a que se requer para torrente rugidora 
  vencer sobre uma lana vacilante em pinguela improvisada.
       HOTSPUR - Quem despencar, boa noite! Ou nada, ou some. Se o perigo 
  mandardes de este a oeste, desde que a honra de norte a sul o encontre, que se 
  avenham! O sangue  mais ativo na caada de um leo do que na simples corrida 
  de uma lebre.
       NORTHUMBERLAND - A s imaginao de um grande feito f-lo transpor as 
  raias da pacincia.
       HOTSPUR - Pelo cu! Penso ser coisa de nada saltar  lua plida para a 
  honra brilhante dai tirar, ou no mais fundo descer do abismo, onde jamais a 
  sonda chegar consegue, e, assim, pelos cabelos arrast-la, uma vez que toda a 
  glria do feito o salvador a alcanar venha. Jamais hei de aceitar a glria a 
  meias.
       WORCESTER - V um mundo de imagens, sem a forma perceber, que importava 
  fosse vista. Primo, dai-me ateno por um momento.
       HOTSPUR - Apresento desculpas.
       WORCESTER - Esses nobres escoceses, os vossos prisioneiros...
       HOTSPUR - Todos so meus! Por Deus, esse monarca no h de obter nenhum 
  dos escoceses, embora a salvao de um s lhe viesse. No os ter! Por esta 
  mo, so meus.
       WORCESTER - Exaltai-vos por nada, sem prestardes ateno aos meus ditos. 
  Guardareis os prisioneiros.
       HOTSPUR - Sim, nem se discute! Disse que no resgataria Mortimer; 
  proibiu-me  lngua de falar em Mortimer; mas hei de ach-lo quando entregue 
  ao sono, e no ouvido gritar-lhe: Acorda! Mortimer! Mais: Hei de ensinar a um 
  papagaio o nome de Mortimer e dar-lho de presente, com o fim de exacerbar-lhe 
  sempre a clera.
       WORCESTER - Ouvi-me, primo; uma palavra, ao menos.
       HOTSPUR - Renuncio a qualquer preocupao, exceto a de irritar o 
  Bolingbroke e o Prncipe de Gales, o arruaceiro. Se eu no soubesse que seu 
  pai no o ama e que folgara, at, com algum desastre, com um jarro de cerveja 
  o envenenara.
       WORCESTER - Adeus, parente; voltarei a falar-vos, quando vir que j 
  estais disposto a ouvir-me.
       NORTHUMBERLAND - Que abelha te picou, ou que impaciente loucura te 
  domina, que assim ficas tal qual uma mulher, sem dar ouvidos a nenhuma outra 
  lngua alm da tua?
       HOTSPUR - E que me sinto flagelado, todo cortado de chicote e em 
  verdadeiro formigueiro, quando ouo o nome apenas desse politiqueiro 
  Bolingbroke. No tempo de Ricardo - qual o nome do lugar? Que o carregue, 
  ento, o diabo! - Fica em Gloucestershire, onde morava seu tio, o duque louco, 
  o Duque de York, onde eu dobrei os joelhos diante desse rei dos sorrisos pela 
  vez primeiras sim, esse Bolingbroke, quando viestes de Ravenspurgh com ele.
       NORTHUMBERLAND - No castelo de Berkeley.
       HOTSPUR - Justamente! Quantos salamaleques esse galgo me dispensou ali! 
  "Querido primo!" e "Gentil Harry Percy!" e "Quando a sua fortuna, ainda 
  infantil, se tornar grande..." Vo para o inferno os primos dessa laia! Deus 
  me perdoe. E agora, tio, vamos ouvir a vossa histria; terminei.
       WORCESTER - Se acaso o no fizestes, sem nenhuma cerimnia, contai tudo 
  de novo.
       HOTSPUR - No, terminei; palavra!
       WORCESTER - Voltemos, pois aos vossos prisioneiros: cedei-os sem resgate 
  e usai o filho de Douglas como vosso agente para ganhar os escoceses. Por 
  diversas razes que por escrito hei de mostrar-vos, ser coisa bem fcil, 
  asseguro-vos.
       (Para Northumberland.)
       Vs, milorde, enquanto vosso filho pela Esccia estiver operando, deveis 
  coar-vos no nimo desse nobre e venerado sacerdote, o arcebispo...
       HOTSPUR - De York, no?
       WORCESTER - Certo. Ele ainda se ressente do traspasso do irmo, em 
  Bristol, Lorde Scroop. No falo por simples conjeturas, nem de coisas que 
  presumo factveis, mas de quanto foi ruminado, resolvido e escrito, e que 
  apenas espera ver o rosto da ocasio, a fim de realizar-se.
       HOTSPUR - J o farejo. Por Deus! Vai ser magnfico!
       NORTHUMBERLAND - Sempre soltas os ces antes de haveres a caa levantado.
       HOTSPUR - Como assim?  impossvel melhor plano. E depois: o poder de 
  York e da Esccia a Mortimer se juntam, no?
       WORCESTER -  isso.
       HOTSPUR - Realmente, tudo est bem combinado.
       WORCESTER - Razo no despicienda nos apressa: salvar nossas cabeas, 
  colocando-nos na cabea de tropas; pois embora nos comportemos todos com 
  modstia, o rei h de julgar-se sempre em dvida conosco, por pensar que no 
  estamos satisfeitos, at que encontre o ensejo de ajustar contas. Vistes todos 
  como principia a afastar-nos de sua graa.
       HOTSPUR -  assim, de fato; importa, pois, vingarmo-nos.
       WORCESTER - Adeus, primo; fiquemos nesta altura; por carta eu vos guiarei 
  no ulterior curso. Quando a hora for chegada - e h de ser breve - saberei at 
  Mortimer esgueirar-me e Glendower. Ento vs, Lorde de Douglas e nossas foras 
  l nos reuniremos sem dano algum, que a tudo hei de prover, para que em nossos 
  braos resistentes sustentemos o peso da Fortuna que por ora parece vacilante.
       NORTHUMBERLAND - Adeus, mano; confio no nosso xito.
       HOTSPUR - Adeus, tio; que as horas sejam curtas at que os campos de 
  batalha, e golpes, e gemidos conosco rejubilem.
       (Saem.)



  ATO II
  CENA I
  Rochester. Ptio de uma taberna. Entra um carreteiro com uma lanterna na mo.
   
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Ol! Quero ser enforcado, se j no forem quatro 
  horas da manh. O carro l do alto j se encontra por cima da nova chamin, e 
  at agora o nosso cavalo ainda no foi atrelado. Ol, palafreneiro!
       PALAFRENEIRO (dentro) - Um momento!
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Por favor, Tom, bate a sela de Cut e enche um pouco 
  mais as almofadas; o pobre animal est com o lombo que d pena.
       (Entra outro carreteiro.)
       SEGUNDO CARRETEIRO - As ervilhas e as favas daqui so to midas como o 
  capeta; no h coisa melhor para fazer que os pobres animais fiquem com 
  vermes. Esta casa ficou uma desordem depois da morte do palafreneiro Robim.
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Bom amigo aquele! No teve um momento de alegria 
  desde a alta da aveia; foi o que o matou.
       SEGUNDO CARRETEIRO - Em toda a estrada de Londres no se encontra casa 
  mais infame do que esta, por causa das pulgas. Estou picado que nem uma tenca.
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Uma tenca? Pela Santa Missa! Nenhum rei de toda a 
  Cristandade foi mais picado do que eu, desde que o galo comeou a cantar.
       SEGUNDO CARRETEIRO - E isso; nunca pem urinol para a gente; servimo-nos 
  da prpria chamin, o que, em matria de pulgas, transforma o quarto em 
  verdadeiro viveiro de cadozes.
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Palafreneiro, eh! vem para a forca, demnio!
       SEGUNDO CARRETEIRO - Tenho de levar at Charing Cross um presunto e duas 
  razes de gengibre.
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Com todos os demnios! Os perus do meu cesto esto 
  quase mortos de fome. Palafreneiro! Que um raio te parta! No tens olhos na 
  cara? Ests surdo? Quero ser o maior velhaco, se abrir-te a cabea no for to 
  gostoso como beber um trago. Vem para a forca! No tens conscincia?
       (Entra Gadshill.)
       GADSHILL - Bom dia, rapaz; que horas so?
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Penso que j so duas horas.
       GADSHILL - Empresta-me, por obsquio, a tua lanterna, para ir ver na 
  cocheira o meu cavalo.
       PRIMEIRO CARRETEIRO - Mais devagar, meu velho! Conheo uma pilhria que 
  vale por duas dessas.
       GADSHILL - Empresta-me a tua, por obsquio.
       SEGUNDO CARRETEIRO - Como  o negcio? Empresta-me a lanterna? Para o 
  diabo! Primeiro hei de ver-te enforcado.
       GADSHILL - Senhor carreteiro, a que horas esperais chegar a Londres?
       SEGUNDO CARRETEIRO - A tempo de ir para a cama com um candeeiro, 
  asseguro-te. Vizinho Mugs, vamos acordar aqueles senhores; desejam ir em nossa 
  companhia porque levam muita carga.
       (Saem os carreteiros.)
       GADSHILL - Servente!
       SERVENTE (dentro) - Ligeiro como um batedor de carteira!
       GADSHILL - O que eqivale a: ligeiro como um servente, porque a diferena 
  que h entre ti e um batedor de carteira  a mesma que existe entre a 
  indicao e a execuo. s tu que preparas o golpe.
       (Entra o servente.)
       SERVENTE - Bom dia, mestre Gadshill. As coisas continuam no mesmo p de 
  que vos falei ontem. Acha-se aqui um rendeiro das selvas de Kent, que traz 
  consigo trezentos marcos de ouro. Ouvi-o ontem  noite, por ocasio da ceia, 
  quando falava nisso a um dos de sua companhia, uma espcie de auditor, que 
  traz tambm um mundo de volumes; s Deus sabe o que contm. J se levantaram; 
  pediram ovos com manteiga; vo partir logo.
       GADSHILL - Dou-te este pescoo, amigo, se eles no se encontrarem com os 
  irmos de So Nicolau.
       SERVENTE - De nada me serviria; deixa-o para o carrasco, porque bem sei 
  que s to devoto de So Nicolau quanto um indivduo sem f.
       GADSHILL - Por que me falares em carrasco? Se me pendurarem, completarei 
  um par de forcas adiposas; sim, se me enforcarem, o velho Sir John me far 
  companhia, e tu bem sabes que ele no est tico. Babau! H outros troianos 
  com que nem sonhas, que se dignam de emprestar alguma graa  profisso, por 
  simples amor ao desporto, e que se incumbiriam de arranjar as coisas, para seu 
  prprio crdito, no caso de querer algum bisbilhotar. Eu no me ligo com 
  vagabundos de p no cho, esses indivduos armados de grandes paus, que 
  assaltam por seis pences, nem com bigodudos aloucados, de rosto vermelho de 
  tanto chuparem cerveja, mas com senhorios e serenssimas, burgomestres e 
  tesoureiros, gente de responsabilidade, mais dispostos a bater do que a falar, 
  a falar do que a beber, a beber do que a rezar, isto , minto, que eles no 
  cessam de ajoelhar-se diante do seu santo, o errio pblico. Ajoelhar-se 
  diante dele, digo mal: montar nele, porque cavalgam livremente daqui para ali, 
  fazendo botas do errio pblico.
       SERVENTE - Como!? Do errio pblico eles fazem botas? E sero elas  
  prova de gua nas estradas ruins?
       GADSHILL - Perfeitamente; a prpria Justia se incumbiu de azeit-las. 
  Roubamos com tanta segurana como em um castelo  prova de fogo; possumos o 
  segredo da receita das sementes de feto, que nos permitem andar sem sermos 
  vistos.
       SERVENTE - Por minha f, penso que isso de no serdes vistos deveis mais 
   noite do que s sementes de feto.
       GADSHILL - Aperta aqui! Hs de ter a tua parte da presa, to certo como 
  eu ser homem de bem.
       SERVENTE - No, prefiro que a prometas por seres um ladro falsificado.
       GADSHILL - Ora deixa! Homo  o nome comum a todos os homens. Dize ao 
  palafreneiro que traga da estrebaria o meu cavalo. Adeus, imundo!
       (Saem.)



  CENA II
  Estrada de Gadshill. Entram o prncipe e Poins.
   
       POINS - Vamos! Ocultemo-nos! Escondi o cavalo de Falstaff e este est 
  ringindo como veludo engomado.
       PRNCIPE - Esconde-te.
       (Afastam-se.)
       (Entra Falstaff.)
       FALSTAFF - Poins! Que te enforquem! Poins!
       PRNCIPE (avanando) - Silncio, maroto enxundioso! Que gritaria  essa?
       FALSTAFF - Onde est Poins, Hal?
       PRNCIPE - Foi ao alto da colina; vou  sua procura.
       (Sai.)
       FALSTAFF - E preciso que eu seja amaldioado para roubar na companhia 
  desse ladro. O velhaco furtou-me o cavalo e o amarrou no sei onde. Se eu 
  andar mais o comprimento de quatro ps, fico sem flego. Deixa estar! No 
  duvido de que hei de ter uma boa morte, se escapar da forca por tirar a vida a 
  esse bigorrilhas. Faz vinte e dois anos que, hora por hora, eu juro livrar-me 
  da companhia desse biltre; at parece feitio. Quero ser enforcado, se esse 
  patife no me deu a beber qualquer mezinha para que lhe tenha amor. Poins! 
  Hal! Que a peste vos carregue! Bardolfo! Peto! Quero morrer de fome, se der 
  mais um passo para roubar. Se no for certo que  to boa ao beber e 
  tornar-me honrado, quero ser o mais chapado biltre que j mascou com um dente. 
  Oito jardas a p num terreno acidentado eqivalem para mim a setenta milhas, o 
  que esses viles de corao de pedra sabem muito bem. Que a peste leve os 
  ladres que no guardam verdade aos prprios companheiros. (Ouve-se um 
  assobio.) Huf! Que a peste vos carregue! Meu cavalo, bandidos! Dem-me o meu 
  cavalo e vo para a forca!
       PRNCIPE (avanando) - Fica quieto, salsicho! Deita-te a; cola o ouvido 
  ao solo e dize-me se percebes passos de viajantes.
       FALSTAFF - Tendes porventura alavancas para levantar-me, depois que eu 
  estiver deitado? Com os diabos! No carregarei mais a minha carne um s passo 
  adiante, por todas as moedas do tesouro de teu pai. Que peste vos levou a 
  pisar-me deste modo?
       PRNCIPE - Enganas-te; no ests pisado; ests peado.
       FALSTAFF - Meu bom prncipe Hal, ajuda-me a achar o cavalo, excelente 
  filho de rei.
       PRNCIPE - Sai da, velhaco! Porventura sou teu palafreneiro?
       FALSTAFF - Enforca-te em tua prpria liga de herdeiro presuntivo. Se eu 
  for preso, denunciar-vos-ei por causa disto. Quero ser envenenado com um copo 
  de vinho, se no vos puser a todos em versos, que farei cantar nas toadas mais 
  sujas. Quando a brincadeira chega a esse ponto, e ainda por cima, de p, no  
  comigo.
       GADSHILL - Alto l!
       FALSTAFF - E o que eu tenho a fazer, quer queira, quer no.
       POINS (avanando) - Oh!  o nosso perdigueiro! Conheci-o pela voz.
       (Entram Bardolfo e Peto.)
       BARDOLFO - Que novidade h?
       GADSHILL - Disfarai-vos! Ponde as mscaras! O dinheiro do rei vem 
  descendo o morro; vai para o tesouro real.
       FALSTAFF - Mentes, velhaco; vai para a taberna real.
       GADSHILL - H o suficiente para elevar a todos ns.
       FALSTAFF - At  forca.
       PRNCIPE - Senhores, vs quatro os enfrentareis no desfiladeiro. Ned 
  Poins e eu iremos mais devagar; se eles vos escaparem cairo em nossas mos.
       PETO - Quantos so ao todo?
       GADSHILL - Oito ou dez.
       FALSTAFF - Salta! No podero roubar-nos?
       PRNCIPE - Como! Covarde, Sir John Pana?
       FALSTAFF - Em verdade, no digo que eu seja vosso av Joo de Gaunt; mas 
  covarde, Hal, isto  que no.
       PRNCIPE -  o que vamos ver agora.
       POINS - Amigo Jack, teu cavalo est atrs da cerca; quando precisares 
  dele, ser fcil ach-lo. Adeus e agenta firme!
       FALSTAFF - Se pudesse mo-lo de pancada, embora me enforcassem por isso!
       PRNCIPE ( parte para Poins) - Ned, onde esto os nossos disfarces?
       POINS - Aqui ao lado. Escondei-vos.
       (Saem o prncipe e Poins.)
       FALSTAFF - E agora, mestres, quem tiver mais sorte pegar o melhor 
  quinho. Que todos se esforcem.
       (Entram viajantes.)
       PRIMEIRO VIAJANTE - Vamos, vizinho; o menino descer a colina com os 
  cavalos; andemos um pouco para esticar as pernas.
       LADRES - Alto l!
       VIAJANTES - Valha-nos Jesus!
       FALSTAFF - Pau neles! Ao cho com todos! Cortai o pescoo a esses 
  biltres! Ah, gusanos miserveis! comedores de toucinho! Tm inveja de ns, por 
  sermos moos! Ao cho com todos! Depenemo-los!
       VIAJANTES - Oh! Estamos arruinados para todo o sempre; ns e toda a nossa 
  famlia.
       FALSTAFF - Enforcai-vos, birbantes barrigudos! Qual arruinados, panudos 
  de uma figa! Quisera que se encontrasse aqui toda a vossa fortuna. Vamos, 
  cevados, toca a andar! Que estais dizendo? Ns, os moos, tambm precisamos 
  viver. Sois grandes jurados, no  verdade? Pois vamos jurar-vos desta vez.
       (Despojam-nos, amarram-nos e saem.)
       (Voltam o prncipe e Poins.)
       PRNCIPE - Os ladres amarraram os homens de bem; se pudssemos, agora, 
  roubar aos ladres e voltar alegres para Londres, teramos assunto para uma 
  semana, gargalhadas para um ms e uma boa pilhria para sempre.
       POINS - Escondei-vos; ei-los que chegam.
       (Voltam os ladres.)
       FALSTAFF - Agora, amigos, vamos repartir o bocado, e tratemos de montar 
  antes que nasa o dia. Se o prncipe e Poins no forem dois poltres de marca, 
  j no h seriedade no mundo. H tanta coragem nesse Poins quanta num pato 
  silvestre.
       PRNCIPE - A bolsa ou a vida!
       POINS - Viles!
       (Enquanto se achavam dividindo a presa, o prncipe e Poins caem sobre 
  eles; correm todos; Falstaff, depois de trocar um ou dois golpes, foge com os 
  outros, deixando todo o esplio.)
       PRNCIPE - Fcil vitria! E agora, galopar! Dispersos os ladres, tal 
  medo os enche, que enfrentar a si mesmos no se atrevem. Cada um v no outro a 
  sombra de um polcia. Vamos, amigo Eduardo! Falstaff sua de morrer e o caminho 
  vai deixando que  s gordura. Se no fosse tudo para rirmos, teria pena, 
dele.
       POINS - E que urros o velhaco vai soltando!
       (Saem.)



  CENA III
  Warkworth. Um quarto no castelo. Entra Hotspur, lendo uma carta.
   
       HOTSPUR - "No que apenas a mim se refere, milorde, ficaria bastante 
  satisfeito se me encontrasse a, pelo amor que dedico a vossa casa." Ficaria 
  satisfeito e Ento, por que no vem? Pelo amor que dedica a nossa casa: revela 
  com isso que  mais afeioado a sua granja do que a nossa casa. Vejamos mais 
  um pouco: "A empresa que tentais  perigosa". Certo!  perigoso, tambm, tomar 
  um resfriado, dormir, beber; mas afiano-vos, milorde estpido, que  do 
  espinho do perigo que se colhe a flor da segurana. "A empresa que tentais  
  perigosa; os amigos que nomeastes, incertos; o prprio momento, inoportuno, e 
  o plano em si muito leve para o contrapeso de tamanha oposio." E assim? Pois 
  eu vos digo tambm que mentis e que no passais de um rstico sem coragem. Por 
  Deus! Nosso plano  to bom como os melhores; nossos amigos, verdadeiros e 
  constantes: bom plano, bons amigos e tima expectativa; plano excelente, 
  amigos fidelssimos. Que alma de gelo tem esse biltre! No entanto, milorde de 
  York aprova o plano e a marcha geral da ao. Com todos os demnios! se eu 
  pegasse agora esse vilo, abrir-lhe-ia o crnio com o leque da prpria esposa. 
  Ento, meu pai, meu tio e eu prprio no nos encontramos nisso? Lorde Edmundo 
  Mortimer, o Arcebispo de York e Owen Glendower? E os Douglas, ainda por cima? 
  No tenho em meu poder cartas deles todos, em que afirmam que viro em armas 
  unir-se a mim no dia 9 do prximo ms? Alguns, at, j no se encontram em 
  caminho? Que pago miservel! Renegado!  certeza que com a sinceridade do 
  medo e da pusilanimidade ele vai revelar ao rei todos os nossos projetos. Oh! 
  D vontade de picar-me em pedacinhos e de esbofetear-me, por haver metido esse 
  pote de coalhada em empreendimento de tal monta! Que se enforque! Que conte ao 
  rei! Estamos preparados; partirei ainda esta noite.
       (Entra Lady Percy.)
       Ento, Kate! Tenho que deixar-te dentro de duas horas.
       LADY PERCY - Por que te achas to s, querido esposo? Que fiz eu para 
  estar h uma quinzena exilada do leito do meu Harry? Conta-me, esposo amado, 
  qual a causa que de todo te priva do apetite, da alegria e do sono da 
  inocncia? Por que os olhos assim cravas na terra, e estremeces amide, quando 
  ficas sozinho? Por que o sangue rubicundo das faces te fugiu? Por que assim 
  trocas meu tesouro e o direito sobre ti, pela meditao de olhar sombrio e 
  essa melancolia amaldioada? Observando-te o sono to inquieto, ouvi-te 
  murmurar de lutas frreas e incitar teu cavalo irrefrevel com gritos de 
  "Coragem!" "Para a frente!" Falavas de sadas, retiradas, barracas e 
  trincheiras, paliadas, fortins e parapeitos, basiliscos, canhes e 
  colubrinas, de soldados sem vida, de resgates, e de quanto um combate ardente 
  integra. Tanto, dentro de ti, se achava em guerra teu esprito, e tanto te 
  agitava que o suor, em bagas, te banhava a fronte como bolhas em riacho 
  remexido. Estranhas contraes tu revelavas no rosto, talqualmente essas 
  pessoas que o flego detm, quando no ponto de sbita entrepresa. Que 
  pressgios so esses? Meu senhor tem algo em mente, que vai dizer-me; a menos 
  que no me ame.
       HOTSPUR - Ol!
       (Entra um criado.)
       O Guilherme partiu j com o pacote?
       CRIADO - H uma hora, senhor.
       HOTSPUR - Butler trouxe os cavalos do xerife?
       CRIADO - Acaba de chegar trazendo um deles.
       HOTSPUR - Qual deles? Por acaso o ruo cabano?
       CRIADO - Esse mesmo, senhor.
       HOTSPUR - Farei dele o meu trono. Vou mont-lo sem mais perda de tempo. 
  Oh, Esprance! Dize a Butler que o leve para o parque.
       (Sai o criado.)
       LADY PERCY - Atendei-me, senhor.
       HOTSPUR - Que dissestes, senhora?
       LADY PERCY - Que vos leva de minha companhia?
       HOTSPUR - Meu cavalo, querida, meu cavalo.
       LADY PERCY - Sai, macaco estouvado! Uma doninha revelara menos caprichos. 
  Em verdade, Harry, desejo saber o que vos traz to preocupado. Temo que meu 
  irmo Mortimer queira defender seus direitos e que auxlio buscasse em vs. Se 
  vos partis, realmente...
       HOTSPUR - A p, to longe, cansaria, amor.
       LADY PERCY - Vamos, meu periquito, respondei-me diretamente a quanto vos 
  pergunto. Juro, Harry, que o minguinho vou quebrar-te no caso de ocultares a 
  verdade.
       HOTSPUR - Adiante, cabecinha de vento. Amar-te? Nunca! No me interessas, 
  Kate. Achas que  hora de brincar com boneca e parolar? Precisamos agora de 
  narizes partidos e coroas amassadas, que passemos por boas. Meu cavalo, santo 
  Deus! Que disseste, Kate? Queres de mim alguma coisa?
       LADY PERCY - No me amais, no  certo? Pois que seja. E porque no me 
  amais, vou desprezar-me a mim prpria, tambm. Odiais-me,  certo? Dizei se 
  falais srio ou por brinquedo.
       HOTSPUR - No queres ver-me cavalgar, querida? Quando estiver montado, 
  hei de jurar-te que te amo at o infinito. Porm, Kate, escutai-me; no quero 
  mais ouvir-vos perguntar aonde eu vou, nem nada sobre semelhantes questes. 
  Vou aonde devo. Enfim, para concluir: ainda esta tarde. Sei que sois muito 
  prudente, mas no mais do que a esposa de Percy. Sois constante; contudo, sois 
  mulher. Quanto a segredos, ningum te vence em discrio; mas creio que no 
  revelars o que no sabes. A minha confiana, gentil Kate, vai at esse ponto.
       LADY PERCY - No mais longe?
       HOTSPUR - Nem uma polegada mais. Ouvi-me, porm, Kate: aonde eu for, 
  tambm ireis; hoje eu saio; amanh partireis vs. Contentais-vos com isso, 
  Kate?
       LADY PERCY - Sim, no h outro remdio.
       (Saem.)



  CENA IV
  Eastcheap. Um quarto na taberna "Cabea de javali". Entram o prncipe e Poins.
   
       PRNCIPE - Por favor, Ned, sai desse quarto engordurado e ajuda-me a rir 
  um pouco.
       POINS - Por onde tens andado, Hal?
       PRNCIPE - Com trs ou quatro lorpas, em meio de sessenta ou oitenta 
  barricas. Fiz soar a corda mais baixa da humildade. E certo, amigo, entrei 
  para a irmandade de trs caixeiros de taberna e posso cham-los pelos nomes de 
  batismo, Tom, Dick, Francis. Todos eles juram pela prpria salvao que embora 
  eu no passe de prncipe de Gales, j sou o rei da cortesia, e me afirmam no 
  rosto que eu no sou qualquer Jack cheio de empfia, como Falstaff, mas um 
  verdadeiro corntio, um bom menino, um rapaz de valor - palavra!  assim que 
  eles se referem  minha pessoa! - acrescentando que, quando eu for rei da 
  Inglaterra, assumirei o comando de todos os bons rapazes de Eastcheap. Beber  
  farta, na sua linguagem,  tingir de escarlate, e, quando respirais ao beber, 
  gritam "Hum!" incitando-vos a no parar at ao fim. Em suma, fiz tais 
  progressos em um quarto de hora, que por toda a vida me sinto capaz de beber 
  com qualquer caldeireiro em sua prpria lngua. Afiano-te, Ned, que perdeste 
  a oportunidade de ganhar muita honra, no me acompanhando em semelhante ao. 
  Mas, doce Ned, para adoar-te o nome dou-te estes dois vintns de acar com 
  que h pouco me presenteou um caixeiro de taberna que em toda a vida no falou 
  mais ingls do que "Oito xelins e seis pences" e "Sede bem-vindo!" com o 
  acrscimo estridente: "Neste momento, senhor! Vou buscar uma pinta de bastardo 
  na Meia-lua!" e algo pelo estilo. Agora, Ned, para passarmos o tempo at que 
  chegue Falstaff, vai para uma das peas contguas, enquanto eu pergunto ao 
  simplrio do caixeiro para que fim ele me deu o torro de acar. No deixes 
  de chamar "Francis!" para que ele no possa dizer mais do que "neste momento!" 
  Pe-te aqui ao lado, para eu mostrar-te como deve ser feito.
       POINS - Francis!
       PRNCIPE - Magistral.
       POINS - Francis!
       (Sai Poins.)
       (Entra Francis.)
       FRANCIS - Neste momento, senhor! Neste momento! Ralph, vai ver o que na 
  Rom esto querendo.
       PRNCIPE - Vem c, Francis.
       FRANCIS - Senhor!
       PRNCIPE - Francis, quanto tempo ainda ters de servir?
       FRANCIS - Por Deus, cinco anos e tanto como...
       POINS (dentro) - Francis!
       FRANCIS - Neste momento, senhor! Neste momento!
       PRNCIPE - Cinco anos? Por Nossa Senhora! prazo enorme para fazer tinir o 
  estanho. Mas, Francis, no ters tu a coragem suficiente para revelar-te 
  medroso diante desse contrato e mostrar-lhe um belo par de calcanhares, 
  fugindo dele?
       FRANCIS - Oh, senhor! Posso jurar sobre todos os livros da Inglaterra que 
  eu teria coragem bastante para...
       POINS (dentro) - Francis!
       FRANCIS - Neste momento, senhor!
       PRNCIPE - Que idade tens, Francis?
       FRANCIS - Deixai ver... No prximo So Miguel farei...
       POINS (dentro) - Francis!
       FRANCIS - Neste momento! Esperai um momento, milorde.
       PRNCIPE - Escuta, Francis; o acar que tu me deste custou-te um pni, 
  no  verdade?
       FRANCIS - Oh, senhor! Quisera que houvesse custado dois.
       PRNCIPE - Vou dar-te mil libras por ele; quando as quiseres,  s pedir, 
  e sero tuas.
       POINS (dentro) - Francis!
       FRANCIS - Neste momento! Neste momento!
       PRNCIPE - Neste momento, Francis? No, Francis, amanh, Francis; ou, 
  Francis, na quinta-feira; ou melhor, Francis, quando o quiseres. Mas, 
  Francis...
       FRANCIS - Milorde!
       PRNCIPE - Atrever-te-ias a roubar um sujeito de colete de couro, com 
  botes de cristal, de cabelos cortados rentes, com anel de gata, meias cor de 
  pulga, ligas de l, voz melosa, bolsa espanhola...
       FRANCIS - Oh, senhor! Que quereis dizer com isso, milorde?
       PRNCIPE - Ora bem; estou vendo que s bebeis do vosso bastardo escuro. 
  Toma cuidado, Francis; a tua camisa de linho branco pode sujar-se. Na 
  Berberia, senhor, no chegar a tanto.
       FRANCIS - Como, senhor?
       POINS (dentro) - Francis!
       PRNCIPE - Toca, moleque! No ests ouvindo que te chamam?
       (O prncipe e Poins chamam por Francis ao mesmo tempo; Francis fica 
  atrapalhado, sem saber para que lado corra.)
       (Entra o taberneiro.)
       TABERNEIRO - Como  que ficas parado, quando te chamam desse jeito? Corre 
  a servir os fregueses. (Sai Francis.) Milorde, o velho Sir John com mais uma 
  meia dzia de companheiros se encontra a fora. Devo faz-lo entrar?
       PRNCIPE - Que esperem um pouco; depois abre-lhes a porta. (Sai o 
  taberneiro.) Poins!
       POINS - Neste momento, neste momento, senhor!
       PRNCIPE - Escuta l: Falstaff e os demais ladres esto ai. Vamos 
  divertir-nos um pouco?
       POINS - Como grilos, rapaz. Mas contai-me como vos sastes na brincadeira 
  com o caixeiro. Qual foi o resultado?
       PRNCIPE - Sinto-me agora com todos os humores que se revelaram humores 
  desde os velhos dias do honesto Ado at a hora juvenil da meia-noite que 
  acaba de soar.
       (Francis atravessa o quarto, levando vinho.)
       Que horas so, Francis?
       FRANCIS - Neste momento, senhor! Neste momento!
       PRNCIPE -  inconcebvel que seja filho de mulher um sujeito como esse, 
  que conhece menor nmero de palavras do que um papagaio. Toda sua habilidade 
  consiste em subir e descer escadas; sua eloqncia, a nota dos fregueses. 
  Ainda no estou com a disposio de Percy, o Esporo quente do norte, o tal 
  que vos mata seis ou sete dzias de escoceses antes do almoo, lava as mos e 
  diz  mulher: "Que raio de vida ociosa! Necessito de movimento!" "Meu querido 
  Harry", diz ela, "quantos mataste hoje?" "Dem de beber ao meu ruo", diz ele; 
  e, uma hora depois: "Uns quatorze", responde; "uma ninharia!" Manda Falstaff 
  entrar. Vou fazer o papel de Percy e esse javali dos diabos, o de Lady 
  Mortimer, sua mulher. Rivo, como dizem os bbados. Chama a esse fardo de 
  toucinho, esse monte de sebo.
       (Entram Falstaff, Gadshill, Bardolfo, Peto e Francis.)
       FALSTAFF - Que a peste carregue com todos os covardes,  s o que eu 
  digo, e que a vingana os persiga.  isso; amm. Rapaz, traze-me um copo de 
  xerez. A continuar nesta vida, prefiro fiar meias, remend-las e at pis-las. 
  Que a peste leve os poltres. Vamos, maroto; d-me um copo de xerez. J no h 
  virtude neste mundo?
       (Bebe.)
       PRNCIPE - Nunca viste o Tit de corao bondoso beijar um prato de 
  manteiga e esta derreter-se sob as carcias do sol? Se j o viste, olha para 
  esse conjunto.
       FALSTAFF - Maroto, .este vinho contm cal. De velhaco s pode vir 
  velhacaria, apesar de que um poltro  pior do que um copo de xerez com cal. 
  Poltro infame! Segue teu caminho, velho Jack; morre quando te aprouver. Se o 
  herosmo, o verdadeiro herosmo, no desaparecer da face da terra, no passo 
  de um arenque seco. Na Inglaterra s h trs pessoas de bem que ainda no 
  foram enforcadas e uma delas  gorda e comea a envelhecer. Que Deus nos 
  ampare. Mundo infame,  s o que eu digo. Quisera ser tecelo, para cantar 
  salmos ou coisas do mesmo gnero. Uma vez mais, que a peste leve a todos os 
  poltres.
       PRNCIPE - Que  que ests resmungando, saco de l?
       FALSTAFF - Um filho de rei! Se eu no te expulsar de teu reino com uma 
  espada de pau, tocando na tua frente a todos os teus sditos como um bando de 
  gansos selvagens, no quero ter mais um s pelo no rosto. Vs, prncipe de 
  Gales?
       PRNCIPE - Mas, afinal, que  que houve, panudo de uma figa?
       FALSTAFF - Sois ou no covarde? Respondei a isso. E aquele Poins, tambm.
       POINS - Com todos os diabos, barrigudo! Se me chamais de covarde, coso-te 
  a punhaladas.
       FALSTAFF - Eu, chamar-te de covarde? Primeiro te verei no inferno, antes 
  de faz-lo. Mas  certo que eu daria mil libras para correr como tu. Tendes as 
  espduas direitas e no vos importais que vos vejam pelas costas. E a isso que 
  chamais escorar os amigos? Para o diabo com semelhantes escoras! Arranjem-me 
  quem me olhe de frente. Vamos! Um copo de xerez! Macaco me morda, se eu j 
  bebi hoje alguma vez.
       PRNCIPE - Oh, descarado! Ainda ests com os lbios midos do ltimo copo 
  de vinho!
       FALSTAFF -  a mesma coisa. (Bebe.) O que eu digo  que a peste leve a 
  todos os covardes.
       PRNCIPE - Mas, afinal, que aconteceu?
       FALSTAFF - Que aconteceu? Esta manh, quatro dos que aqui esto presentes 
  puseram a mo em cima de mil libras.
       PRNCIPE - Onde esto elas, Jack? Onde esto?
       FALSTAFF - Onde esto? Tomaram-nas de ns; uma centena contra quatro 
  infelizes.
       PRNCIPE - Como assim, homem! Uma centena?
       FALSTAFF - Quero ser o maior velhaco se no cruzei espadas com uma dzia 
  deles pelo espao de duas horas. Escapei por milagre; atravessaram-me oito 
  vezes o gibo e quatro os cales; meu escudo  s buracos; a espada parece 
  mais uma serra: ecce signum! Desde que sou homem, nunca briguei to bem. Que a 
  peste leve os poltres. Aqueles ali que o digam, e, se no contarem a verdade, 
  sem tirar nem pr,  que no passam de velhacos e de filhos das trevas.
       PRNCIPE - Falai, senhores: como se deu o caso?
       GADSHILL - Ns quatro camos sobre uns doze...
       FALSTAFF - Dezesseis, pelo menos, milorde.
       GADSHILL - ... e os amarramos.
       PETO - No; no foram amarrados.
       FALSTAFF - Como no, birbante! Foram todos amarrados, at ao ltimo, ou 
  eu no passo de um judeu, um judeu hebreu.
       GADSHILL - Quando nos achvamos na repartio do esplio, seis ou sete 
  indivduos de fresco caram sobre ns...
       FALSTAFF - ...e soltaram os prisioneiros, que logo se juntaram a eles.
       PRNCIPE - Que  isso? E lutastes contra eles todos?
       FALSTAFF - Todos? No sei o a que dais o nome de todos; mas se eu no 
  lutei com quarenta, quero ser um feixe de rabanetes, e se cinqenta e dois ou 
  cinqenta e trs no caram em cima do velho Jack, ento no sou criatura de 
  duas pernas.
       PRNCIPE - Queira Deus que no tenhas morto a alguns deles.
       FALSTAFF - J no adianta rezar. Empimentei a dois dos tais; dois, com 
  certeza, ficaram liquidados, dois patifes com roupa de bocaxim. Uma coisa eu 
  digo, Hal, se eu estiver mentindo, podes cuspir-me na cara e chamar-me de 
  cavalo. Conheces muito bem minha velha guarda: era assim que eu estava, a 
  espada desse jeito. Quatro velhacos de bocaxim caram sobre mim...
       PRNCIPE - Como quatro, se acabaste de dizer que eram dois?
       FALSTAFF - Quatro, Hal; eu disse quatro.
       POINS - Sim, sim; falou em quatro.
       FALSTAFF - Esses quatro me atacaram de frente; todos de uma vez. Mas eu 
  no me dei por achado e com o meu escudo aparei-lhes as sete pontas, assim!
       PRNCIPE - Sete! Mas neste momento no passavam de quatro!
       FALSTAFF - De bocaxim.
       POINS -  isso: quatro, vestidos de bocaxim.
       FALSTAFF - Sete! Pela empunhadura desta espada, ou eu no sou mais do que 
  um velhaco de marca.
       PRNCIPE - Deixa-o prosseguir, que ainda vai aparecer mais gente.
       FALSTAFF - Ests me ouvindo Hal?
       PRNCIPE - Sim, e tambm observando-te, Jack.
       FALSTAFF - Fazes muito bem, que a histria merece ser ouvida. Esses nove 
  de bocaxim de que te falei...
       PRNCIPE - J apareceram mais dois.
       FALSTAFF - ... uma vez saltados os botes...
       POINS - Caram-lhes as calas.
       FALSTAFF - ... comearam a ceder-me terreno; mas cosime aos tais, p com 
  p, mo por mo, e num abrir e fechar de olhos, liquidei sete dos onze.
       PRNCIPE - Que portento! Onze indivduos de bocaxim sados de dois!
       FALSTAFF - Mas nesse ponto o diabo trouxe trs bandidos com roupa de cor 
  verde de Kendal, que me atacaram pelas costas, obrigando-me a recuar; porque 
  fazia tamanha escurido, Hal, de no se enxergar a mo diante dos olhos.
       PRNCIPE - Essas mentiras so tais como o pai que as gerou: do tamanho de 
  um monte, visveis, palpveis. Lingia com miolo de barro, imbecil de cabea 
  encalombada, sujo, indecente, monte de sebo...
       FALSTAFF - Que  isso? Ests louco? A verdade  a verdade.
       PRNCIPE -  certo; mas como pudeste perceber que as vestes desses homens 
  eram de cor verde de Kendal, se a escurido era tamanha que no enxergavas a 
  mo? Vamos; d-nos a tua razo; que respondes a isso?
       POINS - Vamos; vossa razo, Jack; vossa razo!
       FALSTAFF - Como! Sob coao? Ainda que me pusessem na pol ou me 
  aplicassem todos os suplcios do mundo, coagido, no vos diria coisa alguma. 
  Apresentar razes sob coao! Ainda que elas fossem mais abundantes do que 
  amoras, obrigado, no apresentaria uma sequer. Eis a.
       PRNCIPE - No quero continuar por mais tempo como cmplice de semelhante 
  pecado; este poltro sangneo, este entorta-camas, este descadeira-cavalos, 
  este monto de carne...
       FALSTAFF - Sai da, faminto, pele de duende, lngua defumada de vaca, 
  vergalho de boi, bacalhau seco! Oh! quisera ter flego para dizer tudo com que 
  te pareces, bainha, vara de alfaiate, caixa de guardar arco, espadim 
  imprestvel...
       PRNCIPE - Muito bem; agora, respira um pouco, para recomeares, e quando 
  houveres esgotado todas as comparaes ignbeis, ouve-me por um instante.
       POINS - Toma nota, Jack.
       PRNCIPE - Ns dois vimos quando vs quatro castes sobre quatro 
  indivduos, os amarraram e se apoderaram de seus haveres. E agora ouve como te 
  reduzo a zero com uma histria muito simples. Logo depois, ns dois camos 
  sobre vs quatro, tendo bastado uma palavra para tomar-vos a presa, que se 
  acha conosco e que poder ser-vos mostrada aqui mesmo nesta casa. Quanto a ti, 
  Falstaff, jogaste as tripas ao ombro e te puseste a correr lestamente, 
  berrando por clemncia, no cessando de correr e de berrar como jamais ouvi a 
  nenhum bezerro. E preciso que sejas um mentiroso de marca para deixares a 
  espada naquele estado e depois vires dizer que foi em combate. Que artimanha, 
  que estratagema, que escapatria vais inventar agora para esconder-te de to 
  grande e manifesta vergonha?
       POINS - Vamos ver, Jack; que vais inventar agora?
       FALSTAFF - Por Deus! Eu vos reconheci to bem como quem vos fez. Agora, 
  caros mestres, ouvi-me:  crvel que eu pudesse matar o herdeiro da coroa? 
  rebelar-me contra o prncipe legtimo? Sabes perfeitamente, Hal, que eu sou 
  to valente quanto Hrcules. Mas observa o instinto: o leo no toca no 
  verdadeiro prncipe. O instinto  uma grande coisa: fui covarde por instinto. 
  Enquanto viver, hei de ter opinio mais elevada de mim mesmo e de ti: de mim, 
  como leo valente; de ti, como prncipe de verdade. Com a breca, rapazes, 
  alegra-me saber que o dinheiro est convosco. Estalajadeira, fecha as portas! 
  Velars hoje  noite, rezars amanh! Valentes rapazes, companheiros, coraes 
  de ouro, deixai-me dar-vos todos os ttulos da boa camaradagem. Toca a 
  divertir! Vamos improvisar uma comdia?
       PRNCIPE - Boa idia; tua fuga servir de argumento.
       FALSTAFF - Se me tens amizade, Hal, no me fales mais nisso.
       (Entra a estalajadeira.)
       ESTALAJADEIRA - Oh Jesus! milorde prncipe!
       PRNCIPE - A senhora hospedeira! Que tens a dizer-me?
       ESTALAJADEIRA -  que, milorde, se acha  porta um nobre da corte, que 
  deseja falar-vos; disse que vem a mandado de vosso pai.
       PRNCIPE - Pois d-lhe o suficiente para fazer dele um indivduo de coroa 
  e manda-o de volta para minha me.
       FALSTAFF - Que espcie de homem  ele?
       ESTALAJADEIRA - Um velho.
       FALSTAFF - Que faz a gravidade fora do leito  meia-noite? Queres que lhe 
  d a resposta?
       PRNCIPE - Sim, Jack.
       FALSTAFF - Deixa isso por minha conta, que o despacharei em dois tempos.
       (Sai.)
       PRNCIPE - Pois foi assim, senhores! Por Nossa Senhora! lutastes 
  valentemente; e vs, Peto; e vs, tambm, Bardolfo; sois lees, tambm, 
  correstes por instinto, por no quererdes tocar no prncipe... Ora, deixai de 
  conversa!
       BARDOLFO -  certo; eu s corri, quando vi os outros correrem.
       PRNCIPE - Mas, falando srio, dizei-me como foi que a espada de Falstaff 
  ficou to cheia de dentes.
       PETO - Foi ele mesmo que fez isso com a adaga, afirmando que havia de 
  jurar por quanta verdade h na Inglaterra que vos faria acreditar que fora em 
  combate. Depois, concitou-nos a fazer o mesmo.
       BARDOLFO - Sim, e mandou que esfregssemos grama no nariz at sair 
  sangue, para com ele mancharmos as vestes e podermos jurar que se tratava de 
  sangue de verdadeiros homens. Aconteceu comigo o que, havia sete anos, no se 
  dava: corei de ouvi-lo inventar tantas mentiras.
       PRNCIPE - Oh tratante! H dezoito anos foste apanhado, quando roubavas 
  um copo de xerez, e desde essa poca vives sempre corado ex tempore. Com esse 
  fogo e a espada ao lado, por que te puseste a correr? Que instinto te impeliu?
       BARDOLFO (mostrando o rosto) - Milorde, vedes estes meteoros? Percebeis 
  estas exalaes?
       PRNCIPE - Perfeitamente.
       BARDOLFO - Que pensais que significam?
       PRNCIPE - Fgado quente e bolsa fria.
       BARDOLFO - Bile, milorde; bile, para o bom entendedor.
       PRNCIPE - No  isso; para o bom entendedor significa forca.
       (Volta Falstaff.)
       A vem o magro Jack, o nosso esqueleto. Ento, meu doce boneco de 
  assoprar, h quanto tempo no enxergas os teus prprios joelhos?
       FALSTAFF - Os joelhos? Quando eu tinha a tua idade, Hal, era mais fino do 
  que uma garra de guia; poderia esgueirar-me pelo anel de um vereador. Que a 
  peste carregue suspiros e tristezas! E isso que faz a gente ficar que nem uma 
  bexiga estufada. Correm notcias miserveis. Quem esteve a foi Sir John 
  Bracy, a mandado de vosso pai; deveis apresentar-vos  corte pela manh. Esse 
  louco do norte, Percy, e o tal galense que deu uma sova em Amaimon, ps cornos 
  em Lcifer e obrigou o diabo a jurar-lhe vassalagem sobre a cruz de uma 
  alabarda galense... Como diabo lhe chamais?
       POINS - Owen Glendower.
       FALSTAFF - Owen, Owen, esse mesmo, e o seu genro Mortimer, e o velho 
  Northumberland, e o mais vivo escocs dos escoceses, Douglas, que sobe a 
  cavalo por uma encosta a pique...
       PRNCIPE - E a galope mata com um tiro de pistola um pardal em vo.
       FALSTAFF - Acertaste no alvo.
       PRNCIPE - Como ele nunca o fez quanto ao pardal.
       FALSTAFF - Sim, mas  um bandido de coragem; esse no h de fugir.
       PRNCIPE - E por que ento, desgraado, o elogias por correr to bem?
       FALSTAFF - A cavalo, meu cuco, que a p ele no dar um nico passo.
       PRNCIPE -  certo, Jack, por instinto.
       FALSTAFF - De acordo, por instinto. Mas, como ia dizendo, esse tambm 
  toma parte na coisa, e um tal Mordake, e mais um milheiro de gorros azuis. 
  Worcester fugiu esta noite; a barba de teu pai branqueou com a notcia. As 
  terras vo ficar ao preo de cavala podre.
       PRNCIPE - E se tivermos um junho quente e demorar muito essa pancadaria 
  civil, poderemos comprar virgindade como eles compram cravos para ferradura, 
  aos centos.
       FALSTAFF - Pela Santa Missa, rapaz,  isso mesmo! No h dvida, vamos 
  fazer timos negcios nesse ramo. Mas dize-me uma coisa, Hal, no sentes um 
  medo horrvel? Sendo tu o herdeiro presuntivo, no ir o mundo obrigar-te a 
  enfrentar trs inimigos do porte desse endemoninhado Douglas, esse louco Percy 
  e esse diabo Glendower? No sentes um medo horrvel? Teu sangue no congela?
       PRNCIPE - Nada absolutamente, asseguro-te; falta-me um pouco do teu 
  instinto.
       FALSTAFF - Bem; mas amanh vais ser repreendido de verdade, quando te 
  apresentares diante de teu pai. Se me tens amor, prepara uma resposta.
       PRNCIPE - Ento faze o papel de meu pai e examina-me sobre 
  particularidades de minha vida.
       FALSTAFF - Verdade? Com muito gosto. Esta cadeira vai servir-me de trono; 
  esta adaga de cetro e este coxim de coroa.
       PRNCIPE - Teu trono passar por uma cadeira furada, o cetro de ouro, por 
  uma adaga de chumbo e tua coroa preciosa e rica, por miservel tonsura.
       FALSTAFF - Pouco importa; se no te encontrares inteiramente destitudo 
  do fogo da Graa, vais ficar abalado. D-me um copo de xerez, para que meus 
  olhos fiquem vermelhos e parea que chorei, pois disponho-me a falar com afogo 
  e na veia do Rei Cambises.
       (Bebe.)
       PRNCIPE - Muito bem; eis aqui minha reverncia.
       FALSTAFF - E eis aqui meu discurso. Senhores nobres, ponde-vos de lado.
       ESTALAJADEIRA - Oh Jesus! Excelente passatempo, no h que ver.
       FALSTAFF - No choreis, doce rainha, que pouco adiantam agora esses 
  chorrilhos de lgrimas.
       ESTALAJADEIRA - Santo Deus! Como ele se compenetra do papel!
       FALSTAFF - Por Deus, senhores! Tirai daqui a minha triste rainha, que as 
  lgrimas lhe obstruem as comportas dos olhos.
       ESTALAJADEIRA - Interessante! Ele faz tal qual os cmicos indecentes que 
  eu j vi representar.
       FALSTAFF - Silncio, dona caneca! Fique quieta, senhora cachaa! Harry, 
  no me causam apenas admirao os lugares em que perdes o tempo, como a 
  espcie de gente de que te cercas. Porque embora a camomila cresa tanto mais 
  rapidamente quanto mais pisada for, a mocidade se consome na medida em que  
  devastada. Que s meu filho, convence-me em parte a palavra de tua me, em 
  parte minha opinio pessoal, mas, principalmente, um maldito sestro que 
  revelas nos olhos e essa maneira estpida de deixar cair o lbio inferior. 
  Sendo, pois, tu meu filho, bato no ponto: por que motivo, sendo tu meu filho, 
  chegas a ser apontado desse modo? Deve, acaso, o bendito filho dos cus andar 
  sem rumo pelos campos, a comer amoras? Eis uma pergunta que pode ser 
  formulada. Deve o filho da Inglaterra proceder como qualquer ladro e batedor 
  de carteiras? Eis uma pergunta que deve ser apresentada. Existe uma coisa, 
  Harry, de que j ouviste falar freqentes vezes, e a que muitas pessoas de 
  nossa terra do o nome de pez; esse pez, conforme o afirmam escritores 
  vetustos, costuma sujar: o mesmo se d com a companhia que freqentas. Porque, 
  Harry, neste momento eu no te falo sob a influncia da bebida, porm das 
  lgrimas; no por prazer, mas indignado; no simplesmente com palavras, mas 
  tambm com aflies. Contudo, h um homem virtuoso que eu j vi em tua 
  companhia, mas que no sei como se chama.
       PRNCIPE - A que espcie de homem se refere Vossa Majestade?
       FALSTAFF - A-la-f, um indivduo corpulento, de presena majestosa, 
  semblante alegre, olhar prazenteiro e ademanes nobres, que poder ter 
  cinqenta anos ou talvez mesmo j se abeire dos sessenta. Sim, agora me 
  recordo: chama-se Falstaff. Se esse indivduo for inclinado  devassido,  
  que me iludiu redondamente, porque leio, Harry, virtude nos seus olhos. Se se 
  conhece a rvore pelo fruto, como o fruto pela rvore, declaro 
  peremptoriamente que h virtude nesse Falstaff. Liga-te a ele e desterra os 
  demais. E agora me dize, lacaio mal-educado, por onde tens andado todo este 
  ms.
       PRNCIPE - Falas como rei? Pe-te no meu lugar, que eu vou fazer o papel 
  de meu pai.
       FALSTAFF - Depes-me? Se revelares na palavra e no gesto a metade, ao 
  menos, da gravidade e da majestade de que dei mostras, pendura-me pelos ps 
  como um coelho ou lebre na porta de um vendedor de aves.
       PRNCIPE - Muito bem; sento-me aqui.
       FALSTAFF - E aqui fico eu. Agora julgai, senhores.
       PRNCIPE - Ento, Harry, de onde vens?
       FALSTAFF - De Eastcheap, meu nobre senhor.
       PRNCIPE - So muito graves as queixas que ouo a teu respeito.
       FALSTAFF - Com a breca, senhor,  tudo mentira. Longe disso; ides ver que 
  maravilha de prncipe vou mostrar-vos.
       PRNCIPE - Ests praguejando, mal-educado? De hoje em diante no levantes 
  mais os olhos para mim. Encontraste muito desviado do caminho da salvao; h 
  um demnio que te persegue sob a figura de um velho gordo. Tens por 
  companheiro um tonel humano. Por que freqentas esse ba de humores, essa tina 
  de bestialidade, esse volume inchado de hidropisia, essa pipa monstruosa de 
  xerez, essa maleta de intestinos, esse boi assado de Manningtree com o ventre 
  recheado de pudim, esse vcio reverendo, essa iniqidade grisalha, esse padre 
  alcoviteiro, essa vaidade encanecida? Para que presta ele, a no ser para 
  provar xerez e beb-lo? Em que se mostra puro e limpo, seno em trinchar um 
  capo e devor-lo? Em que consiste sua habilidade, a no ser na astcia? ou 
  sua astcia, afora as vilanias? Em que  ele vil, se o no for em todas as 
  coisas? e em que louvvel, se no em coisa nenhuma?
       FALSTAFF - Desejara que Vossa Graa me permitisse acompanh-lo: a quem 
  Vossa Graa se refere?
       PRNCIPE - A esse abominvel canalha, corruptor da juventude, Falstaff, 
  esse velho Satans de barba branca.
       FALSTAFF - Conheo o homem, milorde.
       PRNCIPE - Sei perfeitamente que o conheces.
       FALSTAFF - Mas dizer que reconheo nele mais defeitos do que em mim 
  mesmo, ser dizer mais do que sei. Que infelizmente  velho, provam-no seus 
  cabelos brancos; mas que seja, com perdo de Vossa Reverncia, libertino, 
  nego-o de ps juntos. Se xerez e acar constituem falta, que Deus perdoe aos 
  que erram; se  pecado ser velho e alegre, nesse caso esto condenados muitos 
  hoteleiros do meu conhecimento; se a gordura provoca dios, ento louvemos as 
  vacas magras de Fara. No, meu bom senhor, desterrai Peto, desterrai 
  Bardolfo, desterrai Poins; mas quanto ao doce Jack Falstaff, o gentil Jack 
  Falstaff, o verdadeiro Jack Falstaff, o valente Jack Falstaff, e tanto mais 
  valente por tratar-se do velho Jack Falstaff, esse no desterreis da companhia 
  do teu Harry: desterrai o gordanchudo jack e tereis desterrado o mundo 
inteiro!
       PRNCIPE - F-lo-ei; quero-o.
       (Ouvem-se batidas.)
       (Saem a estalajadeira, Francis e Bardolfo.)
       (Volta Bardolfo, a correr.)
       BARDOLFO - Oh milorde! milorde! acha-se  porta o xerife com uma patrulha 
  monstro.
       FALSTAFF - Fora daqui, maroto! Concluamos a pea; ainda tenho muito que 
  dizer em defesa desse Falstaff.
       (Volta a estalajadeira.)
       ESTALAJADEIRA - Oh Jesus! Milorde! Milorde!
       PRNCIPE - Eh! eh! O diabo cavalga um arco de violino. Que  que h?
       ESTALAJADEIRA - Esto a o xerife e a patrulha; vieram revistar a casa. 
  Deixo-os entrar?
       FALSTAFF - Ests ouvindo, Hal? Nunca digas que  falsa uma moeda de ouro 
  verdadeira; tu s falso de verdade, sem que o pareas.
       PRNCIPE - E tu, um covarde natural, sem instinto.
       FALSTAFF - Nego a maior. Se no quiserdes receber o xerife, bem; caso 
  contrrio, deixai-o entrar. Se eu no fizer to boa figura numa carreta como 
  qualquer outro, que a peste leve a minha educao! Penso que uma corda me 
  estrangular to depressa como aos outros.
       PRNCIPE - Anda, esconde-te atrs da cortina; os demais subam. E agora, 
  meus senhores, bom semblante e boa conscincia.
       FALSTAFF - J tive ambos, mas isso j se foi; portanto, sumo daqui.
       (Saem todos, com exceo do prncipe e de Peto.)
       PRNCIPE - Fazei entrar o xerife.
       (Entram o xerife e um carreteiro.)
       Que desejais de mim, mestre xerife?
       XERIFE - Primeiro, desculpar-me. O clamor pblico seguiu certas pessoas a 
  esta casa.
       PRNCIPE - Que espcie de pessoas?
       XERIFE - Uma delas, meu prncipe,  bastante conhecida: um indivduo 
  grande e gordo.
       CARRETEIRO - Gordo como manteiga.
       PRNCIPE - Esse homem, podeis crer-me, aqui no se acha, pois eu mesmo 
  lhe dei certa incumbncia. E, xerife, eu te dou minha palavra que hei de 
  envi-lo amanh depois do almoo para que ele responda em tua presena, ou de 
  quem for, por quanto lhe atribuem. Podeis, pois, retirar-vos desta casa.
       XERIFE - Pois no, milorde. A fora se acham dois senhores que perderam 
  nesse roubo trezentos marcos.
       PRNCIPE - Pode ser. No caso de os ter ele roubado, h de pagar-lhes o 
  que lhes for devido. Passai bem.
       XERIFE - Boa noite, bom senhor.
       PRNCIPE - Penso que  j bom dia, no  mesmo?
       XERIFE - E isso, senhor; so duas horas, creio.
       (Saem o xerife e o carreteiro.)
       PRNCIPE - Esse velhaco oleoso  to conhecido quanto a igreja de So 
  Paulo. Chama-o.
       PETO - Falstaff! Adormeceu atrs da cortina e ronca como um cavalo.
       PRNCIPE - Ouve como ele respira com dificuldade. Revista-lhe os bolsos.
       (Peto remexe nos bolsos de Falstaff.)
       Que encontraste?
       PETO - Apenas alguns papis, milorde.
       PRNCIPE - Vejamos o que contm. L.
       PETO (l) - Item: um capo, 2 xelins e 2 pences. Item: molho, 4. pences. 
  Item: 2 gales de xerez, 5 xelins e 8 pences. Item: enchovas e xerez depois da 
  ceia, 2 xelins e 6 pences. Item: po, 1/2 pni.
       PRNCIPE - Oh monstro! Apenas meio pni de po para toda essa quantidade 
  de xerez! Guarda o resto, para examinarmos mais de espao. Deixa que durma at 
  clarear. Irei  corte pela manh. Todos teremos de ir para a guerra; esse 
  velhaco obeso obter um posto honroso. Vou arranjar-lhe um lugar na 
  infantaria, por saber que uma caminhada de cem passos liquidar com ele. O 
  dinheiro vai ser restitudo com juros. Vem ter comigo pela manh. E com isso, 
  bom dia, Peto.
       PETO - Bom dia, meu bom senhor.
       (Saem.)



  ATO III
  CENA I
  Bangor. Um quarto na casa do arcediago. Entram Hotspur, Worcester, Mortimer e 
  Glendower.
   
       MORTIMER - Brilhantes, as promessas; as pessoas, seguras; o comeo  
  esperanoso.
       HOTSPUR - Lorde Mortimer, e vs, primo Glendower, no resolveis 
  sentar-vos? Tio Worcester... Que a peste leve tudo! Esqueci-me do mapa.
       GLENDOWER - Aqui est ele. Sentai-vos, primo Percy, caro Hotspur, pois 
  sempre que Lencastre vos nomeia desse modo, suspira e empalidece, desejando 
  poder ver-vos no cu.
       HOTSPUR - E a vs no inferno, sempre que ouve falar em Owen Glendower.
       GLENDOWER - No posso censur-lo, que no dia em que eu nasci, cobriu-se o 
  cu de estranhas figuras e de tochas incendiadas. Na hora em que eu vim  luz, 
  os fundamentos e a estrutura da terra, s de medo, puseram-se a tremer.
       HOTSPUR - O mesmo se teria dado, se naquela hora a gata pertencente a 
  vossa me houvesse tido gatinhos e se nunca houvsseis nascido.
       GLENDOWER - Quando eu nasci, tremeu a terra. Disse!
       HOTSPUR - Pois eu digo que a terra no pensava como eu, se imaginais que 
  o fez de medo.
       GLENDOWER - O cu, em fogo; a terra a tremer toda.
       HOTSPUR - Vendo em chamas o cu, tremeu a terra, no por causa do vosso 
  nascimento. Padece a natureza muitas vezes de estranhas erupes. A terra 
  grvida freqentemente sofre de uma espcie de clica, dos ventos irrefreveis 
  dentro em seu seio, que sair tentando, a boa terra abalam, e derrubam 
  campanrios e torres com seus musgos. Quando nascestes, nossa av se achava 
  com essa indisposio; da tremer.
       GLENDOWER - Primo, de poucos homens eu suporto contradizerem-me. De novo 
  digo que no instante em que eu vi a luz do dia, o cu ficou coberto de figuras 
  fulgurantes; as cabras se atiravam dos montes e os rebanhos no cessavam de 
  atroar as plancies espantadas. Tais sinais inculcavam coisas grandes. Toda a 
  minha existncia  a melhor prova de que escapo do rol dos homens baixos. Onde 
  se acha o mortal, em todo o vasto recinto da Inglaterra, Esccia e Gales, que 
  o mar circunda, que chamar-me possa de aluno, ou que me tenha ensinado algo? 
  Um filho de mulher mostrai-me, ao menos, que me tenha assistido na senda 
  spera das artes, ou comigo cooperado em quaisquer transcendentes 
experincias.
       HOTSPUR - Melhor gals, decerto, ningum fala. Vou jantar.
       MORTIMER- Calma, primo! Com isso o deixais louco.
       GLENDOWER - Posso evocar espritos do abismo.
       HOTSPUR - Isso, at eu, e assim qualquer pessoa; mas eles vm, no caso de 
  os chamardes?
       GLENDOWER - Posso ensinar-te, primo, a ter domnio sobre o diabo.
       HOTSPUR - Como eu, primo, tambm posso ensinar-te a zombar do demnio com 
  a verdade: fala a verdade e zomba do demnio. Se podes evoc-lo, pe-no aqui, 
  que eu me incumbo, depois, de zombar dele. Falai sempre a verdade, para rirdes 
  do demnio.
       MORTIMER- J basta. Vinde! Vinde! Parai com essa conversa sem proveito.
       GLENDOWER - Henrique Bolingbroke por trs vezes desafiou meu poder; por 
  outras tantas, desde as margens do Wye e do arenoso Severne o fiz voltar para 
  a Inglaterra descalo e sob os golpes do mau-tempo.
       HOTSPUR - Para casa, descalo e exposto  chuva! E como conseguiu evitar 
  febres?
       GLENDOWER - Eis o mapa. Ora vede: partiremos nossos domnios ao sabor de 
  nossa trplice conveno?
       MORTIMER- J o arcediago dividiu tudo em partes muito iguais: a 
  Inglaterra, do Trento e do Severne por leste e sul at este ponto,  minha; 
  tudo o que fica a oeste do Severne, Gales e as terras frteis deste espao, 
  para Owen Glendower; tudo o mais que sobra para o norte do Trento, caro primo, 
  vos coube por quinho. J se acham prontos nossos contratos tripartidos; falta 
  sel-los alternadamente, coisa que poder ser feita ainda esta noite. E 
  amanh, primo Percy, iremos ambos, juntos com o meu bondoso Lorde de 
  Worcester, ao vosso pai juntar-nos e aos soldados escoceses, conforme o 
  combinado, em Shrewsbury. Meu pai Glendower ainda no est pronto; alis no 
  precisamos de seus homens por toda esta quinzena. (A Glendower) - Aproveitai 
  esse nterim reunindo vossos arrendatrios e afeioados, bem como os 
  cavalheiros da regio.
       GLENDOWER - Em menos tempo estarei l, senhores, levando em minha 
  companhia vossas esposas. Ora cumpre que vos vades sem que vos despeais, que 
   certo termos um dilvio de lgrimas no instante em que delas quiserdes 
  separar-vos.
       HOTSPUR - Vejo que a minha parte, aqui de Burton para o norte,  menor 
  que as outras duas. Notai como este rio vem serpeando, e corta do melhor de 
  minhas terras este enorme pedao em meia-lua. Vou fazer neste ponto uma 
  barragem; em novo leito o claro e alegre Trento correr suavemente e sem 
  tropeos. No mais continuar dando essas voltas para roubar-me terras to 
  valiosas.
       GLENDOWER - No dar mais? Bem vedes que  preciso.
       MORTIMER- Notai, contudo, como ele aqui prossegue e me desfalca com igual 
  desvantagem deste lado, mutilando no oposto continente tanto quanto vos tira 
  naquele outro.
       WORCESTER - Com bem pouca despesa o cortaramos aqui, lucrando ao norte 
  esta salincia: desta arte correr sem mais obstculos.
       HOTSPUR -  o que eu reclamo; o gasto  pouca coisa.
       GLENDOWER - No quero alteraes.
       HOTSPUR - Ah! no quereis?
       GLENDOWER - Nem na fareis.
       HOTSPUR - E quem mo impedir?
       GLENDOWER - Eu, sem dvida.
       HOTSPUR - Ento arranjai modo de eu no vos entender; falai gals.
       GLENDOWER - Posso falar, milorde, ingls to puro quanto vs, porque fui 
  criado na corte da Inglaterra, onde moo ainda, compunha cantigas em ingls, 
  para harpa, dando modulaes benficas  lngua, virtude que jamais em vs se 
  h visto.
       HOTSPUR - De todo o corao me alegro com isso; preferira ser gato e miar 
  sem pausa, a ser compositor de tais baladas; gosto mais do ringir desses 
  candeeiros de cobre e do eixo seco de uma roda. Nada aos dentes me faz tanta 
  gastura, como ouvir recitar uma poesia pretensiosa:  tal qual o falso trote 
  de um cavalo que raspa o cho com o casco.
       GLENDOWER - Basta! basta! Podeis desviar o Trento.
       HOTSPUR - No fao caso; em terra, isso, trs vezes eu daria a qualquer 
  amigo certo; mas em negcios, tomai nota, eu brigo pela novena parte de um 
  cabelo. J esto passados os contratos? Vamo-nos?
       GLENDOWER - Faz belo luar; podeis partir de noite. Vou apressar o 
  escrevente e, ao mesmo tempo, dar a vossas esposas a notcia.
       Temo se torne louca minha filha, de tal modo  apegada ao seu esposo.
       (Sai.)
       MORTIMER- Como tratais meu pai, Percy! Que coisa!
       HOTSPUR - No est em mim; amide me exaspera falando da toupeira e da 
  formiga, do encantador Merlin, de profecias, peixes sem barbatana, dragos, 
  grifos de asas cortadas, corvos, quando em muda, de um leo deitado, um gato 
  rastejante, e no sei mais que coisas que me pem fora do siso. Digo mais: na 
  noite passada ele prendeu-me umas nove horas a enumerar os nomes dos demnios 
  que o servem. Eu dizia: Hum! Adiante! sem prestar ateno.  mais cacete do 
  que mulher colrica ou cavalo cansado, muito pior do que uma casa cheia de 
  fumo. Fora prefervel viver  parte num moinho, apenas de queijo e de alho, a 
  ser rico de tudo, tendo de suport-lo, em qualquer casa luxuosa de vero da 
  Cristandade.
       MORTIMER- Digo que  um gentil-homem de valor, muito lido e senhor de 
  extraordinrios segredos, to valente como um leo, afvel como poucos, 
  generoso como as minas das ndias. Acho, primo, que ele tem vosso gnio em 
  grande apreo, pois domina sua prpria natureza, quando o contraditais. Certo: 
  domina-se. Juro-vos que no h viva alma alguma que, como o tendes feito, o 
  provocasse, sem incorrer no risco da resposta. Sede mais cauteloso,  o que eu 
  vos peo.
       WORCESTER - Sois passvel, milorde, de censura. Desde que aqui chegastes, 
  fazeis tudo para que ele a pacincia a perder venha. Urge desse defeito 
  corrigir-vos; pois embora, por vezes, seja prova de coragem, grandeza, sangue 
  nobre - o que de mais gracioso vos confere - amide  sinal de mpeto 
  colrico, ausncia de domnio, de cordura, presuno, altivez, desdm e 
  orgulho. O menor deles num fidalgo basta para alienar os coraes e deixa 
  mcula na beleza das virtudes, tirando-lhes o mrito inerente.
       HOTSPUR - Muito bem; aprendi; sede bonzinhos. A vm nossas esposas; 
  despeamo-nos.
       (Volta Glendower com Lady Percy e Lady Mortimer.)
       MORTIMER- Mortal contrariedade! Minha esposa no fala ingls, nem eu 
  gals entendo.
       GLENDOWER - Chora porque vos ides sem lev-la; deseja ser soldado e ir 
  para a guerra.
       MORTIMER- Bondoso pai, dizei-lhe que ela e a tia Percy iro ter conosco 
  brevemente, sob vossa proteo.
       (Glendower fala em gals com Lady Mortimer, e esta lhe responde na mesma 
  lngua.)
       GLENDOWER - Ela est desesperada;  uma bichinha teimosa e cabeuda, que 
  no atende a coisa alguma.
       (Lady Mortimer fala a Mortimer em gals.)
       MORTIMER- Compreendo teus olhares; o adorvel gals que me despejas 
  desses tmidos cus, conheo-o bem; no fora o pejo, no mesmo linguajar te 
  respondera.
       (Lady Mortimer torna a falar em gals.)
       Teus beijos, os compreendo; os meus, entendes: eis tudo para um dilogo 
  sensvel. Mas no descansarei, querida, enquanto no houver aprendido teu 
  idioma, pois tua lngua o gals deixa to doce quanto suaves canes que uma 
  rainha num bosque de vero canta com meigas modulaes ao toque do alade.
       GLENDOWER - Bali! Se vos derreteis, ela enlouquece.
       (Lady Mortimer torna a falar.)
       MORTIMER- Sou a prpria ignorncia nessa lngua.
       GLENDOWER - Pede que vos deiteis nos juncos leves e a cabea pouseis em 
  seu regao, que ela vos cantar quanto quiserdes, o deus do sono aos olhos 
  far vir-vos e vos encantar em deliciosa languidez, separando da viglia o 
  sono de tal forma, como se acha da noite o dia, na hora em que a divina 
  parelha o ureo percurso a este comea.
       MORTIMER- De todo corao desejo ouvi-la, enquanto,  de supor, a ata se 
  apronta.
       GLENDOWER - Fazei-o; os msicos que devem deleitar-vos a mil lguas 
  daqui, no ar, ainda se acham; no tardaro a vir; sentai-vos logo para 
  escut-los.
       HOTSPUR - Vem, Kate, para aqui; em questo de deitar, tu s mestra. 
  Vamos! Depressa! depressa! para que eu recoste a cabea em teu regao.
       LADY PERCY - Vamos, ganso estouvado.
       (Glendower fala algumas palavras em gals, e logo se ouve msica.)
       HOTSPUR - Vejo agora que o diabo entende gals; no admira que seja to 
  caprichoso.  certo: timo msico!
       LADY PERCY - Nesse caso devereis ser excelente msico, por serdes 
  governado por caprichos. Mas ficai quieto, celerado, e escutai a lady cantar 
  em gals.
       HOTSPUR - Preferira ouvir minha cachorra Lady uivar em irlands.
       LADY PERCY - Queres que te parta a cabea?
       HOTSPUR - No.
       LADY PERCY - Ento fica quieto.
       HOTSPUR - Tambm no;  defeito das mulheres.
       LADY PERCY - Que Deus te guie.
       HOTSPUR - Para a cama da dama galesa.
       LADY PERCY - Que foi que dissestes?
       HOTSPUR - Caluda! Ela est cantando.
       (Lady Mortimer canta um romance gals.)
       HOTSPUR - Kate, desejo ouvir tambm vossa cano.
       LADY PERCY - Eu no canto; palavra de honra.
       HOTSPUR - Palavra de honra! Meu corao, jurais tal qual mulher de 
  confeiteiro. "Eu no canto, palavra de honra!" e: "To certo como estar viva!" 
  e: "Deus que me perdoe!" e: "Por esta luz do dia!" em tanta seda as juras 
  envolvendo, como se teus passeios no chegassem adiante de Finsbury. Kate, 
  faze-me um juramento como a dama que s, com a boca cheia, e deixa as tais 
  palavras de honra e esses protestos de confeitos para essa gente em trajes de 
  veludo, que passeia aos domingos. Vamos, canta.
       LADY PERCY - No quero cantar.
       HOTSPUR - No h como isso para fazer passar por alfaiate ou educador de 
  pssaros. Se os contratos j estiverem prontos, partirei dentro de duas horas. 
  Portanto, vinde quando quiserdes.
       (Sai.)
       GLENDOWER - Lorde Mortimer, vinde; sois to lento para partir quanto  
  fogoso Percy no ardor em que se agita. J esto prontos os contratos; agora,  
  s sel-los e montar a cavalo in continenti.
       MORTIMER - De todo corao.
       (Saem.)



  CENA II
  Londres. Um quarto no palcio. Entram o Rei Henrique, o prncipe e lordes.
   
       REI HENRIQUE - Deixai-nos, lordes, que eu preciso agora falar com o 
  prncipe de Gales. Mas no vades para longe, que teremos, breve, necessidade 
  de vs todos.
       (Saem os lordes.)
       No sei se Deus assim quis que se desse em seu desgnio oculto, por 
  alguma falta de minha parte, que a um s tempo me nascesse do sangue a pena e 
  o aoite. Mas em todo o decurso de tua vida fazes-me crer que ests assinalado 
  para a vingana ardente e atroz vergasta de minhas transgresses. Se no, 
  responde, como paixes to baixas e selvagens, aes de tal vileza, impuras e 
  nfimas, to estreis prazeres, sociedade to soez como aquela que freqentas, 
  a nobreza do sangue te acompanham e ao teu sentir de prncipe se igualam?
       PRNCIPE - Se Vossa Majestade consentisse, desejara poder justificar-me 
  de minhas faltas todas como tenho certeza de apagar muitas de quantas se me 
  atribuem. Por isso vos imploro que depois de eu destruir muitas das fbulas 
  que chegam ao ouvido da grandeza por vis novidadeiros e risonhos bajuladores, 
  venha a ser perdoado graas  confisso de alguns deslizes que no nego e em 
  que a minha mocidade mal dirigida e irregular, se tenha porventura extraviado.
       REI HENRIQUE - Deus te perdoe. Contudo, Henrique, admiro-me de tuas 
  afeies, que em direo contrria o vo soltam  de todos os teus 
  antepassados. J perdeste teu lugar no Conselho, ora ocupado por teu irmo 
  mais moo, e te tornaste estranho a toda a corte e mesmo aos prncipes de meu 
  sangue; a esperana e expectativa de teu futuro se acham arruinadas, no 
  havendo ningum que na alma deixe de prever tua queda inevitvel. Se eu 
  houvesse tambm malbaratado minha presena servilmente, expondo-me aos olhares 
  dos homens, por vender-me to barato  vulgar gente do povo, a opinio, que me 
  fez subir ao trono, fiel teria ficado ao rei legtimo, deixando-me em desterro 
  desonroso como homem sem valor e sem futuro. Mas, sendo pouco visto, 
  despertava admirao, como os cometas, sempre que me mexia. Aos filhos uns 
  diziam:  aquele! E outros: Qual deles? onde se acha Bolingbroke? E eu, nessa 
  hora, arrebatava do cu as homenagens e vestia-me com tamanha humildade, que 
  obedincia do corao de todos recolhia, e das bocas os vivas e os saudares, 
  t mesmo quando junto ao rei coroado. Desta arte conservei-me intacto e novo: 
  minha presena, como vestimenta pontifical, causava sempre assombro por sua 
  raridade: deste modo minha passagem, rara, mas suntuosa, quase sempre uma 
  festa parecia; a prpria raridade lhe emprestava tal carter solene. O rei 
  estrina com bufes deambulava e com essa gente de cabea de palha que se 
  extingue mal comea a acender; malbaratava seu estado, manchando a realeza com 
  saltimbancos; seu augusto nome com sarcasmos insulsos profanava, consentindo, 
  a despeito de quem era, em aplaudir motejos de seus pajens e a ser alvo, at, 
  de nfimas pilhrias de qualquer peralvilho desbarbado. Tornou-se familiar das 
  vias pblicas e se deu como feudo ao populacho, que, por v-lo a toda hora e 
  sem medida, desse mel se fartaram, comeando a mostrar repugnncia at  
  doura, que, um pouco mais de nada,  j excessiva. Por isso, quando acaso se 
  mostrava, era tal qual o cuco em ms de junho: ouvido; no notado; visto 
  apenas por olhos fatigados pelo abuso, no mais afeitos  viso mirfica do 
  sol da majestade, que mui raras vezes cai sob as vistas extasiadas, olhos 
  adormecidos, cujas plpebras caiam diante dele como soem homens sombrios 
  frente aos inimigos de presena enjoativa e fatigante. Nesse mesmo caminho, 
  Harry, te encontras, aps teres perdido os privilgios de tua posio com tais 
  comparsas. Todos os olhos se acham fatigados de teu banal aspecto, com exceo 
  dos meus, que mais e mais mirar-te anseiam, e que ora, a meu malgrado ficam 
  cegos por este absurdo excesso de ternura.
       PRNCIPE - De futuro, senhor, hei de mostrar-me mais digno de mim mesmo.
       REI HENRIQUE - Exatamente como s agora era Ricardo, quando vim de Frana 
  e saltei em Ravenspurgh, e como eu, nesse tempo,  Percy agora. Pelo meu cetro 
  e por minha alma, Percy se mostra muito mais digno do trono do que tu que s 
  herdeiro s de nome, pois sem sombra sequer de algum direito cobre os campos 
  do reino com soldados, afronta a goela do leo sanhudo, e sem dever aos anos 
  mais que tu, guia lordes antigos e prelados reverendos a pugnas sanguinosas e 
  combates mortais. Que excelsa glria ganhou vencendo o to famigerado Douglas, 
  cujas faanhas, atrevidas incurses e o alto nome, entre os soldados por 
  grande maioria lhe asseguram o ttulo de chefe incontestado onde quer se acate 
  a lei de Cristo! Por trs vezes Hotspur, esse guerreiro na infncia, Marte em 
  cueiros, pode o grande Douglas desbaratar; numa das vezes o aprisionou, 
  deixando-o livre aps; fez-se-lhe amigo, para encher a boca do desafio, e a 
  paz e a segurana do nosso trono, assim, pr em perigo. Que dizes a tudo isso? 
  Percy, Mortimer, Douglas, Northumberland, mais o arcebispo de York contra ns 
  se levantaram. Mas por que revelar-te essas notcias? Por que falar-te, 
  Henrique, de adversrios, se s meu maior inimigo e o mais querido? s bem 
  capaz, talvez, por servil medo, baixo pendor, ou mesmo algum capricho, de 
  lutar contra mim sob o alto Percy, seguir-lhe como um co todos os passos e 
  agachar-te a seus gritos, to-somente para que todos vejam quanto e quanto de 
  mim degeneraste.
       PRNCIPE - No, tal no se dar; no penseis nisso. Que Deus perdoe a 
  quantos a afeio de Vossa Majestade me desviaram. Na cabea de Percy hei de 
  tudo isso redimir, e, depois de uma jornada gloriosa, quero ter, alfim, o 
  orgulho de poder declarar-me vosso filho, quando vestes trajar tintas de 
  sangue, e, de sangue, no rosto trouxer mscara, que, lavada, a vergonha h de 
  limpar-me. Ser no dia, pouco importa quando, em que esse filho da Honra e da 
  Fortuna, o galante Hotspur, o mui louvado cavaleiro, e o vosso Harry j 
  esquecido derem de se encontrar. Que as honras todas que no elmo ostenta, em 
  nmero crescessem, redobrando as vergonhas que me pesam sobre a cabea! H de 
  vir tempo, afirmo-o, em que esse heri do norte suas proezas trocar pelas 
  minhas ignomnias. Percy, senhor,  apenas um preposto que guarda, para mim, 
  seus altos feitos; mas hei de pedir contas to severas, que ele h de 
  restituir-me as glrias todas, at o menor louvor, ou, do contrrio, com a 
  conta o corao hei de arrancar-lhe. Isso em nome de Deus aqui vos juro, e se 
  Ele consentir que o leve a cabo, suplico a Vossa Majestade queira pensar essas 
  feridas de meus vcios; seno, visto partir a Morte os vnculos, passar por 
  cem mil mortes eu prefiro, a quebrar desta jura a menor parte.
       REI HENRIQUE - Cem mil rebeldes morrem com esta jura. Ters pleno poder e 
  inteiro apoio.
       (Entra Sir Walter Blunt.)
       Bondoso Blunt, a pressa tens nos olhos.
       BLUNT - E no assunto, tambm, que aqui me trouxe. Lorde Mortimer 
  manda-nos da Esccia a notcia do encontro dos rebeldes ingleses e de Douglas 
  no dia onze deste ms, em Shrewsbury. Mais temvel e poderosa fora - se as 
  promessas feitas de parte a parte se cumprirem - jamais causou no Estado tal 
  distrbio.
       REI HENRIQUE - O conde de Westmoreland partiu hoje com Lorde de 
  Lencastre, meu filho; o aviso viera, h cinco dias. Seguirs quarta-feira 
  prxima, Harry; marcharemos na quinta; nosso encontro se dar em Bridgeworth. 
  Deves, Harry, cortar Gloucestershire. Desse modo, dentro de doze dias, por meu 
  clculo,  certo nos juntarmos em Bridgeworth. H muito por fazer; vai, que eu 
  te sigo; nossa demora  a vida do inimigo.
       (Saem.)



  CENA III
  Eastcheap. Um quarto na taberna "Cabea de Javali". Entram Falstaff e 
Bardolfo.
   
       FALSTAFF - Bardolfo, no achas que eu deca vergonhosamente depois desse 
  ltimo feito? No estou menor? No estou desaparecendo? V como a minha pele 
  est pendurada, tal qual roupa de velha; encontro-me to murcho que nem ma 
  cozida. Vou cuidar do arrependimento, enquanto me restam algumas carnes; 
  dentro de pouco tempo, com o desnimo, me faltar energia para tanto. Se eu j 
  no me esqueci de como  feito o interior de uma igreja, quero ser gro de 
  pimenta ou cavalo de cervejeiro. O interior de uma igreja! As companhias, as 
  ms companhias  que foram a minha perdio.
       BARDOLFO - Sir John, andais to irritado que no podeis viver muito 
tempo.
       FALSTAFF - Sim,  isso; canta-me algo obsceno, para alegrar-me. Eu era 
  dotado da virtude necessria para um cavalheiro; sim, bastante virtuoso: 
  blasfemava pouco, no jogava mais de sete vezes por semana, no entrava em 
  casas suspeitas mais de uma vez em cada quarto... de hora, paguei trs ou 
  quatro dvidas, vivia bem e sempre com muita medida. E agora, vivo sem ordem 
  alguma e fora de toda medida.
       BARDOLFO - Sois to gordo, Sir John, que necessitais andar fora de toda 
  medida, de toda medida razovel, Sir John.
       FALSTAFF - Reforma primeiro tua cara, que eu reformarei minha vida. Es o 
  nosso almirante; trazes a lanterna na popa, isto , pendente do nariz: s o 
  cavaleiro da lmpada ardente.
       BARDOLFO - Ora, Sir John, minha cara no vos faz nenhum mal.
       FALSTAFF -  certo, posso jur-lo; tiro dela o mesmo proveito que para 
  algumas pessoas tem um crnio ou um memento mori; sempre que olho para o teu 
  rosto, me lembro do fogo do inferno e do rico que vivia na prpura; ali est 
  ele, de fato, com suas vestes, ardendo, ardendo. Se revelasses um resqucio de 
  virtude, eu juraria pelo teu rosto da seguinte maneira: Por este fogo divino! 
  Mas ests perdido de todo; a no ser pela luz que irradias do rosto, poderias 
  ser considerado filho das trevas. Quando subias Gadshill, a correr, de noite, 
  para pegar o meu cavalo, se eu no te tomei por um ignis fatuus ou uma bola de 
  fogo de artifcio, ento o dinheiro j no tem valor. s um triunfo perptuo, 
  uma fogueira perene. J me poupaste uns mil marcos de cirios e tochas, por 
  andares comigo de taberna em taberna, mas o xerez que me chupaste daria para 
  comprar luz do mais careiro fabricante de vela de toda a Europa. H trinta e 
  dois anos que eu alimento o fogo dessa salamandra. Que Deus me recompense por 
  isso.
       BARDOLFO - Com todos os demnios! Quisera que meu rosto estivesse em 
  vossa barriga!
       FALSTAFF - Misericrdia! S assim eu morreria de azia.
       (Entra Mistress Quickly.)
       Ento, dona Galinha Partlet, a senhora j verificou quem me esvaziou os 
  bolsos?
       ESTALAJADEIRA - Ora, Sir. John! Que estais pensando, Sir John? Imaginais, 
  porventura, que em minha casa eu dou abrigo a ladres? Procurei por tudo; eu e 
  meu marido interrogamos homem por homem, menino por menino, criado por criado. 
  Em minha casa nunca ningum perdeu a dcima parte de um cabelo.
       FALSTAFF - Estais mentindo, estalajadeira; Bardolfo fez-se barbear aqui e 
  perdeu muito cabelo. Juro que me limparam os bolsos. Ide embora; no passais 
  de uma mulher; ide.
       ESTALAJADEIRA - Quem? Eu? Quanto a isso, eu te desafio. Pela luz divina, 
  at hoje nunca fui tratada desse jeito em minha casa.
       FALSTAFF - Ide-vos logo; conheo-vos muito bem.
       ESTALAJADEIRA - No, Sir John; no me conheceis, Sir John; eu, sim,  que 
  vos conheo, Sir John; deveis-me dinheiro, Sir John, e agora armais essa 
  briga, para ver se eu me esqueo disso. Comprei uma dzia de camisas para 
  cobrir-vos as costas.
       FALSTAFF - Grosseira linhagem, sem nenhum valor! Dei-as a umas padeiras, 
  para que fizessem peneiras delas.
       ESTALAJADEIRA - Isso agora! To certo como eu ser uma mulher honesta, as 
  camisas eram de holanda de oito xelins a vara. Alm disso, Sir John, deveis-me 
  refeies, bebidas extraordinrias e ainda dinheiro emprestado, num total de 
  vinte e quatro libras.
       FALSTAFF - Aqui est quem tambm tomou parte nisso; ele que pague.
       ESTALAJADEIRA - Esse coitado?  pobre; no tem coisa nenhuma.
       FALSTAFF - Pobre? Vede-lhe o rosto. A que dais o nome de rico? Ele que 
  mande cunhar o nariz e as bochechas. No pagarei um centavo. Tomais-me por um 
  mocinho inexperiente; no posso repousar na hospedaria que freqento, sem que 
  me revistem os bolsos? Tiraram-me o anel que foi de meu av, e que valia 
  quarenta marcos.
       ESTALAJADEIRA - Jesus do cu! J ouvi o prncipe dizer no sei quantas 
  vezes que esse anel era de cobre.
       FALSTAFF - Como!? O prncipe  um Joo-ningum, um palhao. Se ele 
  estivesse aqui e me dissesse isso, eu o espancaria como a um co.
       (Entram o prncipe e Poins, marchando; Falstaff lhes sai ao encontro, 
  usando do basto como de flauta.)
       FALSTAFF - Que h de novo, rapaz? Sopram os ventos aqui pelo quarto? 
  Teremos de seguir, tambm?
       BARDOLFO - Que dvida! Dois a dois,  moda de Newgate.
       ESTALAJADEIRA - Milorde, por obsquio, ouvi-me.
       PRNCIPE - Que  que h, Mistress Quickly? Como vai passando o teu 
  marido? Quero-lhe muito bem;  um homem honesto.
       ESTALAJADEIRA - Meu bom senhor, ouvi-me.
       FALSTAFF - Manda-a embora e escuta-me.
       PRNCIPE - Que ests a dizer, Jack?
       FALSTAFF - Roubaram-me aqui a noite passada, quando eu adormeci atrs da 
  cortina. Esta casa est ficando com muito m fama; revistam o bolso da gente.
       PRNCIPE - E que perdeste, Jack?
       FALSTAFF - .Acreditar-me-s, Hal? Trs ou quatro cdulas de quarenta 
  libras e um anel que foi de meu av.
       PRNCIPE - Uma frioleira! Quando muito poderia valer oito pences.
       ESTALAJADEIRA - Foi o que lhe disse, milorde, acrescentando que ouvira 
  isso de Vossa Graa. Milorde, ele fala de vs em termos muito baixos, como 
  desbocado que ; afirmou que havia de espancar-vos.
       PRNCIPE - Como!? No  possvel.
       ESTALAJADEIRA - Se no o disse, quero que no haja em mim nem f, nem 
  verdade, nem sexo.
       FALSTAFF - No h mais f em ti do que em uma ma cozida, nem mais 
  verdade do que em uma raposa arrancada da toca. Quanto ao sexo, a donzela 
  Mariana se prestaria muito melhor do que tu para mulher de um inspetor de 
  quarteiro. Sai da, coisa!
       ESTALAJADEIRA - Como coisa? Dizei: que coisa?
       FALSTAFF - Que coisa? Ora, um genuflexrio.
       ESTALAJADEIRA - Eu no sou nenhum genuflexrio,  bom que o saibas; sou 
  mulher de um homem de bem; ao passo que tu, se pusermos de parte a tua 
  condio de cavaleiro, s um grande maroto por me dares esse nome.
       FALSTAFF - E se pusermos de parte a tua condio de mulher, s um bicho 
  por dizeres o contrrio.
       ESTALAJADEIRA - Como bicho, velhaco? Que espcie de bicho?
       FALSTAFF - Que espcie? Ora, uma lontra.
       PRNCIPE - Uma lontra, Sir John? Por que uma lontra?
       FALSTAFF - Por qu? Por no ser nem carne nem peixe; a gente no sabe por 
  onde peg-la.
       ESTALAJADEIRA - s injusto falando por esse modo; como todo o mundo, 
  sabes muito bem por onde pegar-me. Velhaco!
       PRNCIPE - Tens razo, estalajadeira; ele te calunia grosseiramente.
       ESTALAJADEIRA - E a vs tambm, milorde; ainda outro dia ele disse que 
  lhe deveis mil libras.
       PRNCIPE - Miservel! Eu vos devo mil libras?
       FALSTAFF - Mil libras, Hal? Um milho! Teu amor vale um milho. Deves-me 
  o teu amor.
       ESTALAJADEIRA - Fez mais, milorde; chamou-vos de Joo-ningum e prometeu 
  espancar-vos.
       FALSTAFF - Eu disse isso, Bardolfo?
       BARDOLFO - Em verdade, Sir John, vs o dissestes.
       FALSTAFF - Sim, no o nego, no caso de dizer ele que o meu anel era de 
  cobre.
       PRNCIPE - Pois repito que  de cobre; atreves-te agora a fazer o que 
  prometeste?
       FALSTAFF - Bem sabes, Hal: considerando que s apenas homem, 
  atrever-me-ia; mas na qualidade de prncipe, temo-te como ao rugido de um 
  filhote de leo.
       PRNCIPE - E por que no o leo?
       FALSTAFF - O rei  que  para ser temido como um leo; pensas, ento, que 
  eu tenho tanto medo de ti como de teu pai? Se for o caso, peo a Deus que o 
  meu cinturo arrebente.
       PRNCIPE - Oh! Se tal acontecesse, as tripas viriam bater-te nos joelhos. 
  Grande patife, em teu corpo no h lugar nem para a f, nem para a verdade, 
  nem para a honestidade: s contm intestinos e diafragma. Acusar uma mulher 
  honesta de esvaziar-te os bolsos! Velhaco estufado e sem vergonha, se em teus 
  bolsos havia mais do que contas de taberna, endereos de casas de m fama e um 
  miservel torro de acar do valor de um pni, para dar-te um pouco mais de 
  flego; se teus bolsos continham outras riquezas, alm dessas porcarias, quero 
  ser um vilo chapado. E ainda vos obstinais, sem quererdes embolsar um 
  desmentido! No tens vergonha?
       FALSTAFF - Escuta, Hal; bem sabes que Ado pecou no estado de inocncia. 
  Que poderia fazer o pobre Jack Falstaff nesta poca de corrupo? Bem vs que 
  tenho mais carne do que ningum e, conseguintemente, mais fragilidade. 
  Confessais, ento, que me esvaziastes os bolsos?
       PRNCIPE - E o que se conclui da histria.
       FALSTAFF - Eu te perdo, estalajadeira. Vai logo aprontar o almoo; ama a 
  teu marido, vigia os criados, cuida dos hspedes; sempre me encontrars 
  disposto a acatar razes honestas. Como vs, j me acalmei. Vai, no 
  recomeces; vai embora, por favor.
       (Sai Mistress Quickly.)
       E agora, Hal, as notcias da corte: em que deu a questo do assalto?
       PRNCIPE -  meu suculento rosbife! Continuo sendo o teu anjo da guarda: 
  o dinheiro foi restitudo.
       FALSTAFF - No me agrada isso de restituir dinheiro:  trabalho dobrado.
       PRNCIPE - Eu e meu pai, agora, somos amigos; posso fazer o que quiser.
       FALSTAFF - Ento comea roubando o tesouro real, e o faze sem lavar as 
  mos.
       BARDOLFO - Isso mesmo, milorde.
       PRNCIPE - Jack, arranjei-te um posto na infantaria.
       FALSTAFF - Ficaria mais satisfeito com cavalaria. Onde poderei achar quem 
  saiba roubar com perfeio? Oh! um bom ladro de seus vinte e dois anos! Estou 
  inteiramente desprevenido. Deus seja louvado por causa desses rebeldes; s 
  fazem mal aos virtuosos; eu, de mim, os aprecio e aplaudo.
       PRNCIPE - Bardolfo!
       BARDOLFO - Milorde?
       PRNCIPE - Leva esta carta a meu irmo Joo, Joo de Lencastre; d esta a 
  milorde de Westmoreland. Vamos, Poins; a cavalo, que at  hora do jantar 
  precisamos ter vencido trinta milhas de cho. Jack, procura-me amanh em 
  Temple-Hall, pelas duas horas. Ficars conhecendo tuas funes, e, com 
  dinheiro, ser-te-o dadas ordens para equipar teus homens.
       A terra queima; Percy est nos cimos; eles ou ns a sorte decidimos.
       (Saem o prncipe, Poins e Bardolfo.)
       FALSTAFF - Bela frase! Que mundo! O almoo, flor! Fizesse eu da taberna o 
  meu tambor!
       (Sai.)



  ATO IV
  CENA I
  O campo dos rebeldes, perto de Shrewsbury: Entram Hotspur, Worcester e 
Douglas.
   
       HOTSPUR Belo, nobre escocs! Se falar franco neste mundo sutil no fosse 
  o mesmo que adulao, tais elogios Douglas ora receberia, que o mais bravo 
  soldado destes tempos no correra com mais fama por todo o vasto mundo. Por 
  Deus! no sei fingir; desprezo as lnguas desses aduladores; mas  certo que 
  em minha alma ningum mais alto posto reclama do que vs. Ponde-me  prova, 
  milorde; segurai-vos do que eu digo.
       DOUGLAS - Es o rei da honra; no h ningum to forte sobre a terra que 
  eu no reptasse.
       HOTSPUR - A mim;  bom que o faas.
       (Entra um mensageiro, com cartas.)
       Que trazes tu?
       (A Douglas.)
       S posso agradecer-vos.
       MENSAGEIRO - Cartas de vosso pai.
       HOTSPUR - De sua parte! Por que causa no veio ele em pessoa?
       MENSAGEIRO - No pode vir, milorde; est doente.
       HOTSPUR - Com os demnios! Como acha ele ocasio de adoecer em tal tempo? 
  E suas tropas, quem as conduz? Quem marcha  frente delas?
       MENSAGEIRO - Suas cartas o diro; no eu, milorde.
       WORCESTER - Informa-me uma coisa: est de cama?
       MENSAGEIRO - Sim, milorde, fazia quatro dias; e no instante de minha 
  despedida os mdicos se achavam muito inquietos.
       WORCESTER - Desejara que as coisas melhorassem primeiro, antes que a 
  doena o visitasse. Jamais seu bem-estar valeu como hoje.
       HOTSPUR - Adoecer agora! Perder foras! Essa doena infecciona os 
  prprios estos de nosso empreendimento; seus efeitos se estendero por todo o 
  nosso campo. Escreve-me que  interna a enfermidade, que no pode apressar os 
  partidrios por meio de recados, pois receava semelhante misso, to perigosa 
  quo prezada, confiar fosse a quem fosse. Contudo, nos envia o audaz conselho 
  de avanarmos com as nossas fracas foras para ver se a Fortuna est conosco, 
  pois, escreve, recuar  j impossvel, porque o rei deve estar a par de todos 
  os nossos planos. Que pensais sobre isso?
       WORCESTER - Essa doena deixou-nos mutilados. Terrvel golpe;  um membro 
  que nos cortam. Mas, vendo bem, nem tanto; exageramos a falta que nos faz.  
  aconselhvel arriscar quanto temos num s lano de dados e jogar to rica 
  presa no duvidoso azar de uma hora incerta? No fora bem; poramos s claras a 
  alma e o fundo de nossas esperanas, o termo, o limite ltimo de nossas 
  aspiraes.
       DOUGLAS - Realmente; assim faamos, que nos resta, ainda, bela 
  expectativa; podemos gastar tudo, na esperana do que h de vir. Fica-nos o 
  consolo de um recuo.
       HOTSPUR - Um refgio, um lugar onde abrigar-nos, se o demnio e a m 
  sorte cobiarem as primcias de nosso empreendimento.
       WORCESTER - Ainda assim, desejara que conosco vosso pai se encontrasse. A 
  natureza de nosso intento no admite quebras nem divises. Quem no souber a 
  causa de achar-se ausente, h de pensar que o conde se afastou por lealdade ou 
  por prudncia, ou mesmo antipatia ao que fazemos. Semelhante apreenso, pensai 
  bem nisso, pode fazer que uma faco medrosa venha a mudar de curso, 
  ocasionando questes no seio mesmo da entrepresa. Pois bem sabeis que ns, os 
  que exigimos, precisamos fugir de exames longos, tapar todas as fendas e os 
  buracos por onde o olho do juzo espiar-nos possa. Essa ausncia descerra uma 
  cortina que mostra ao ignorante um novo medo com que antes no sonhara.
       HOTSPUR - Avanais muito. Vejo nela, ao invs, certa vantagem, que  ter 
  a nossa empresa maior brilho, maior autoridade e mais prestgio do que se o 
  conde aqui estivesse. Os homens pensaro que se ns, sem tal auxlio, podemos 
  fazer face  monarquia, com ele a deixaramos de borco. Por enquanto esto ss 
  nossas junturas; tudo est bem.
       DOUGLAS -  a viso da coragem, pois na Esccia a palavra temor no se 
  ouve nunca.
       (Entra Sir Ricardo Vernon.)
       HOTSPUR - Primo Vernon! Bem-vindo, por minha alma!
       VERNON - Deus permita que as novas o meream! O Conde de Westmoreland, 
  forte de sete mil, se acha em caminho; o Prncipe Joo tambm vem com ele.
       HOTSPUR - No faz mossa; que mais?
       VERNON - Soube, alm disso, que se ps o monarca mesmo em campo, ou se 
  dispe a vir celeremente para c, comandando ingentes foras.
       HOTSPUR - Tambm ser bem-vindo. E onde se encontra seu filho, to 
  ligeiro e tresloucado, o Prncipe de Gales? Onde o bando que o acompanha e que 
  o mundo ps de parte, mandando que no pare?
       VERNON - Em armas todos; todos bem equipados, semelhantes a avestruzes, 
  ao vento as plumas soltas, sacudidos como guias ao banharem-se, nas cotas de 
  ouro o brilho das imagens, cheios de vida como o ms de maio e, como o sol do 
  estio, esplendorosos; na inquietao, cabritos, e selvagens como touros. O 
  moo Henrique hei visto, de viseira calada e armado a ponto, levantar-se do 
  solo como o alado Mercrio, e to ligeiro  sela alar-se tal como se das 
  nuvens viesse um anjo para domar um Pgaso altanado e o mundo enfeitiar com 
  sua destreza.
       HOTSPUR - Basta! basta! Pior que o sol de maio, gera febre esse encmio. 
  Pois que venham! Chegam j ataviadas como vtimas que vamos ofertar quentes e 
  rubras  deusa de olhos gneos dos combates fumacentos. Com sangue at s 
  orelhas em seu altar vai Marte ora sentar-se. Ardo ao pensar que, assim to 
  perto, ainda no  nossa tal presa. Meu cavalo, ides ver, vai lanar-me como 
  um raio contra o peito do Prncipe de Gales. Corcis em fogo, Henrique contra 
  Henrique lutar at que morto um deles fique. Oh, se Glendower c estivesse!
       VERNON - H novas: em Worcester ouvi, quando em caminho, que ele no 
  poder reunir seus homens antes de quinze dias.
       DOUGLAS - Esta  a pior at agora de todas as notcias.
       WORCESTER - Sem dvida nenhuma, um som glacial.
       HOTSPUR - A quanto monta o exrcito do rei?
       VERNON - Trinta mil.
       HOTSPUR - Pois que chegue at a quarenta. Mesmo estando meu pai e 
  Glendower ausentes, lutaro nossas foras mui contentes. Faamos a revista; o 
  ltimo dia j est perto; morramos com alegria.
       DOUGLAS - No faleis em morrer; no temo a sorte, nem, ainda, este meio 
  ano, a mo da Morte.
       (Saem.)



  CENA II
  Uma estrada pblica perto de Coventry. Entram Falstaff e Bardolfo.
   
       FALSTAFF - Bardolfo, vai indo na frente, at Coventry, e enche-me uma 
  garrafa de xerez. Nossos soldados atravessaro a cidade; teremos de chegar  
  noite a Sutton-Colfield.
       BARDOLFO - Quereis dar-me o dinheiro, capito?
       FALSTAFF - Gasta, gasta  vontade.
       BARDOLFO - Esta garrafa custa um anjo.
       FALSTAFF - Se  assim, toma pelo trabalho, ainda que custe vinte, fica 
  com todos eles, que eu respondo pela cunhagem. Dize ao meu tenente Peto que me 
  procure na outra ponta da cidade.
       BARDOLFO - Assim farei, capito; passai bem.
       (Sai.)
       FALSTAFF - Quero ser bacalhau seco, se os meus soldados no me 
  envergonham. Abusei miseravelmente da ordem real de alistamento. Por cento e 
  cinqenta soldados, ganhei trezentas e tantas libras; s alisto proprietrios 
  slidos e filhos de lavradores; procuro informar-me dos noivos cujos proclamas 
  j tenham sido lidos duas vezes, esses comodistas bem agasalhados que preferem 
  ouvir o diabo a um tambor, aos quais um tiro de espingarda infunde maior medo 
  do que a uma ave assustadia ou a pato silvestre ferido. S recrutei desses 
  torradas-com-manteiga, de corao situado no ventre e pequenino como uma 
  cabea de alfinete. Todos compraram a dispensa do servio, motivo por que a 
  minha tropa se compe agora de porta-bandeiras, sargentos, tenentes, oficiais 
  de companhia, uns pobres-diabos to esfarrapados quanto Lzaro dos panos de 
  decorao, a quem os cachorros do gluto lambem as chagas; indivduos que 
  nunca sentaram praa, criados despedidos por desonestidade, os filhos mais 
  jovens dos filhos segundos, criados de taberna que fugiram ao emprego e 
  estalajadeiros arruinados, cancros, todos eles, de uma sociedade tranqila e 
  de uma paz prolongada, dez vezes mais vergonhosamente andrajosos do que velha 
  bandeira remendada.  essa a gente de que disponho para pr no lugar dos que 
  compraram a dispensa do servio, a ponto de imaginardes que se trata de cento 
  e cinqenta filhos prdigos andrajosos que at ento cuidassem de porcos, 
  compartilhando de seus bagaos e babugens. Um tipo aloucado, que passou por 
  mim na estrada, disse que eu havia esvaziado as forcas e recrutado cadveres. 
  Jamais olho humano contemplou semelhantes espantalhos.  de ver que eu no 
  atravessarei Coventry com eles, tanto mais que estes velhacos marcham de 
  pernas abertas como se carregassem grilhetas, porque em verdade os mais deles 
  vieram das prises. No h mais do que uma camisa e meia em toda a companhia, 
  no passando essa metade de dois guardanapos costurados e postos sobre os 
  ombros, no jeito da tnica sem mangas dos arautos. Quanto  camisa, para dizer 
  toda a verdade, foi roubada do meu hoteleiro em Santo Albano, se  que no o 
  foi do homem de nariz vermelho do albergue de Daventry. Mas, que tem isso? No 
  lhes faltar roupa branca por todas essas cercas.
       (Entram o prncipe e Westmoreland.)
       PRNCIPE - Ento, Jack panudo? Como vai isso, acolchoado?
       FALSTAFF - Ol, Hal! Que tal, maluquinho? Que diabo andas fazendo por 
  Warwickshire? Meu bom lorde de Westmoreland, peo-vos perdo; julgava que 
  Vossa Honra j estivesse em Shrewsbury.
       WESTMORELAND - De fato, Sir John; era mais que tempo; ambos ns j 
  devamos ter l chegado; no entanto, minha tropa ainda est por aqui. Posso 
  afianar-vos que o rei conta com a vossa cooperao; teremos de andar a noite 
  toda.
       FALSTAFF - Babau! No vos preocupeis comigo; sou sempre to vigilante 
  quanto gato no ponto de furtar creme.
       PRNCIPE - Bem apanhado: furtar creme! porque,  fora de o fazeres, te 
  transformaste em manteiga. Mas, dize-me uma coisa, Jack, que gente  essa que 
  vem a atrs?
       FALSTAFF - Minha, Hal; minha.
       PRNCIPE - Nunca vi chusma mais miservel.
       FALSTAFF - Ora, ora! bons de sobra para serem espetados. Carne para 
  canho, carne para canho. Sabero encher um fosso to bem como os melhores. 
  Pois , amigo: homens mortais, homens mortais.
       WESTMORELAND - No h dvida, Sir John; mas parece-me que estes so por 
  demais pobres e mal nutridos; excessivamente andrajosos.
       FALSTAFF - A pobreza, no sei de onde lhes veio; quanto ao serem mal 
  nutridos, tenho certeza de que no aprenderam comigo.
       PRNCIPE -  o que eu ia jurar; a menos que ds o nome de magreza a trs 
  dedos de gordura nas costelas. Mas vamos logo; Percy j se encontra no campo 
  de batalha.
       FALSTAFF - Como! O rei j acampou?
       WESTMORELAND - J, Sir John; receio que estejamos demorando demais.
       FALSTAFF - Bem; para guerra no fim e almoo posto, mau soldado e conviva 
  bem disposto.
       (Saem.)



  CENA III
  O campo dos rebeldes, perto de Shrewsbury. Entram Hotspur, Worcester, Douglas 
  e Vernon.
   
       HOTSPUR -  noite atacaremos.
       WORCESTER - No  possvel.
       DOUGLAS - Dar-lhe-eis vantagens.
       VERNON - Absolutamente.
       HOTSPUR - Por que o dizeis? No espera ele reforos?
       VERNON - Tal como ns.
       HOTSPUR - Os dele so seguros.
       WORCESTER - Prudncia, primo;  conveniente no atacar de noite.
       VERNON - Isso, milorde.
       DOUGLAS - Vosso conselho  mau; o medo e o frio do corao vos faz falar 
  agora.
       VERNON - Douglas, no me injurieis. Por minha vida! - sustentarei com a 
  vida o que vos digo - desde que a honra prudente me aconselha, dou tanto 
  ouvido ao fraco medo, como qualquer escocs vivo, ou vs, milorde. Amanh, na 
  batalha, mostraremos qual de ns dois tem medo.
       DOUGLAS - Ainda esta noite.
       VERNON - Que seja.
       HOTSPUR -  noite, digo.
       VERNON - Vamos, no pode ser. Muito me espanta que vs todos, caudilhos 
  to conspcuos, no vejais a seqncia de empecilhos que a empresa nos 
  retarda. Alguns cavalos do primo Vernon ainda no chegaram, s tendo hoje 
  alcanado o nosso campo os do vosso tio Worcester, que se acham no momento com 
  o brio entorpecido pelo cansao e faltos de coragem, valendo cada um deles a 
  metade da metade do que eram.
       HOTSPUR - Em conjunto, do mesmo modo esto os do inimigo: cansados das 
  jornadas e abatidos. Dos nossos, os melhores j folgaram.
       WORCESTER - Os do rei sobreexcedem muito aos nossos. Por Deus, primo, 
  aguardai que cheguem todos.
       (Ouve-se toque de corneta, anunciando a chegada de um parlamentar.)
       (Entra Sir Walter Blunt.)
       BLUNT - Trago do rei propostas mui graciosas, se quiserdes ouvir-me e 
  respeitar-me.
       HOTSPUR - Sir Walter Blunt, bem-vindo! O cu quisesse que estivsseis 
  tambm do nosso lado. Muitos aqui vos amam; e esses mesmos o bom nome e os 
  trabalhos vos invejam por no serdes de nossa qualidade, mas a todos tratardes 
  como inimigos.
       BLUNT - Deus impea o contrrio, enquanto os lindes transgredirdes das 
  leis, alevantando-vos desta arte contra a sacra majestade. Mas, ao que vim: 
  mandou-me o rei com o fito de saber vossas queixas e o motivo de hostil vos 
  levantardes desse modo, no seio da paz pblica, ensinando tamanha crueldade a 
  seu leal povo. Se o rei pode olvidar vossos servios - que so grandes, 
  conforme o reconhece - formulai vossas queixas, pois com a pressa possvel 
  heis de ter, com juros, tudo o que pedirdes, sobre conceder-vos absoluto 
  perdo, que abrange quantos por vossas sugestes se achem transviados.
       HOTSPUR - Muita bondade de sua parte; todos vemos bem que o rei sabe 
  quando  tempo de prometer e tempo de pagar. Meu pai, meu tio e eu prprio lhe 
  ofertamos o cetro que ora ostenta. Quando apenas tinha vinte e seis anos e era 
  muito mal visto em toda parte, pobre e msero, um banido sem nome, que na 
  ptria s podia viver s escondidas, meu pai foi receb-lo em nossas praias. E 
  quando o ouviu jurar que como Duque de Lencastre, somente,  que voltava, a 
  reclamar seus bens e a paz, com lgrimas de inocncia e protestos de lealdade, 
  meu pai, dele apiedado, comovido, jurou prestar-lhe auxlio e foi sincero. 
  Mas, logo que os bares e os lordes viram Northumberland para eles inclinado, 
  vieram todos, os grandes e os pequenos, saud-lo reverentes, nas cidades, 
  vilas e lugarejos; esperavam-no nas pontes, nos caminhos; presenteavam-no; 
  prestavam juramentos e entregavam-lhe os filhos para pajens, em douradas 
  multides sempre aos passos a seguir-lhe. Mas a grandeza se conhece, e agora 
  fica ele um pouco acima da promessa feita a meu pai, no tempo em que era 
  pobre, em Ravenspurgh, na praia desolada. Hoje intenta a reforma de uns editos 
  - imaginai! - de alguns decretos rgidos, que pesam demasiado sobre o povo, 
  grita contra os abusos e se mostra compungido com os males da repblica. E com 
  esse rosto, sob essa aparncia de justia, conquista os coraes de quantos 
  ele engoda. Foi mais longe: mandou decapitar os favoritos do rei ausente que 
  este aqui deixara no seu lugar, no tempo em que partira para a guerra da 
  Irlanda.
       BLUNT - No vim para ouvir isso.
       HOTSPUR - Chego ao ponto: deps o rei dentro de pouco tempo; da 
  existncia o privou logo aps isso; imps taxas pesadas sobre o Estado; ainda 
  pior: permitiu que seu parente March - que, com rigor, houvera sido seu 
  verdadeiro rei - ficasse em Gales preso e por l deixado sem resgate; 
  defraudou-me da glria dos meus louros, procurou enredar-me em seus manejos, 
  destituiu meu tio do Conselho, raivoso demitiu meu pai da corte, quebrou jura 
  aps jura, errou cem vezes, forando-nos, em suma, a neste exrcito procurar 
  segurana, sobre termos de contestar-lhe o ttulo que achamos doloso por 
  demais para ser dele.
       BLUNT - Deverei dar ao rei essa resposta?
       HOTSPUR - No, Sir Walter; queremos combinar. Retomai para o rei; que ele 
  nos mande cauo para o retorno do emissrio, e amanh muito cedo ir meu tio 
  levar-lhe nossas condies. Adeus.
       BLUNT - Desejo que aceiteis amor e graa.
       HOTSPUR -  bem possvel.
       BLUNT - Deus proveja nisso.
       (Saem.)



  CENA IV
  Um quarto no palcio do arcebispo. Entram o Arcebispo de York e Sir Micael.
   
       ARCEBISPO - Meu bom Sir Micael, levai nas asas da pressa ao Lorde 
  Marechal a carta selada que aqui tendes. Para o primo Scroop esta outra; as 
  demais, conforme os nomes dos endereos. Creio que poreis toda a pressa, se o 
  assunto conhecsseis.
       SIR MICAEL - Meu bom senhor, suspeito o que contm.
       ARCEBISPO -  bem possvel. Amanh, meu bondoso Sir Micael, a fortuna de 
  dez mil homens deve passar por prova decisiva.  certo: porque em Shrewsbury, 
  Sir, conforme pude colher de fonte limpa, o rei com foras poderosas e  
  pressa levantadas, deve atacar Lorde Harry. Sir Micael, receio que a doena de 
  milorde Northumberland, em cujas foras todos confivamos, e a ausncia de 
  Glendower, que de apoio valioso lhes servira, mas que no foi, por certas 
  profecias, receio que o poder de Percy seja fraco demais para enfrentar as 
  foras do rei sem dilao.
       SIR MICAEL - No vejo causa para assustar-vos, meu bom lorde; o Douglas 
  l se encontra e, com ele, Lorde Mortimer.
       ARCEBISPO - No; Mortimer no foi.
       SIR MICAEL - Mas Lorde Percy, Mordake, Vernon, sem levarmos em conta 
  Lorde de Worcester e um pugilo de nobres valorosos.
       ARCEBISPO - De fato; mas est com o rei a nata de todo o reino: o 
  Prncipe de Gales, Lorde Joo de Lencastre, o nobre Westmoreland, Blunt 
  ardoroso, e muitos outros concorrentes, todos experientes guerreiros de 
  prestgio.
       SIR MICAEL - No o duvideis: ho de encontrar repulsa.
       ARCEBISPO -  o que espero; contudo  bom ter medo. Para evitar o pior, 
  sir, apressai-vos. Se Percy for vencido, o rei tenciona, antes de dissolver 
  suas foras, vir-nos fazer uma visita, pois j sabe que entramos na conjura.  
  mui prudente fortificarmo-nos. Portanto, pressa, que ainda vou escrever a 
  outros amigos. E com isso, passai bem, Sir Micael.
       (Saem.)



  ATO V
  CENA I
  O acampamento do rei, perto de Shrewsbury. Entram o Rei Henrique, o Prncipe 
  Joo de Lencastre, Sir Walter Blunt e Sir John Falstaff.
   
       REI HENRIQUE - Como surge sangrento o sol nos bosques daquela elevao! 
  Parece plido o dia, a tal conspecto.
       PRNCIPE - A seus desgnios o vento sul faz de trombeta, uivando 
  roucamente nas folhas o pressgio de um pavoroso dia de tormenta.
       REI HENRIQUE - Faz causa com os vencidos, que aos que vencem coisa alguma 
  sombrio lhes parece.
       (Soam trombetas.)
       (Entram Worcester e Vernon.)
       Como! milorde de Worcester, no fica bem que ns dois nos encontremos 
  nestas circunstncias. Burlastes a confiana que em vs depositvamos; 
  foraste-nos a despir a ampla veste da quietude e a apertar no ao duro os 
  velhos membros. Isso no  bom, milorde; isso  bem triste. Que respondeis? 
  Quereis de novo o lao desatar de uma guerra abominvel, retornando para a 
  rbita de sempre, onde luz natural e to radiosa vos distinguia, sem mais 
  continuardes como mido meteoro que suscita pavor, pressgio certo de 
  desgraas que impendem sobre os tempos no nascidos?
       WORCESTER - Meu soberano, ouvi-me. De meu lado, ficara satisfeito, se 
  passasse o restante da existncia gozando as horas quietas, pois protesto que 
  jamais hei buscado este desgosto.
       REI HENRIQUE - No o buscastes? De onde, ento, proveio?
       FALSTAFF - Encontrou no caminho a rebelio.
       PRNCIPE - Empado, fica quieto!
       WORCESTER - Quis Vossa Majestade o olhar da graa desviar de minha casa e 
  de mim prprio, conquanto vos relembre que ns fomos vossos primeiros e mais 
  fiis amigos. Quebrei, por vs, no tempo de Ricardo, meu basto de comando; 
  dia e noite viajei para que a mo vos osculasse, quando em prestgio e posio 
  no reis como eu to poderoso e afortunado. Fomos, eu prprio, meu irmo, seu 
  filho, os que vos repatriamos, enfrentando os perigos do tempo. Ento jurastes 
  - e foi isso em Doncaster - que no tnheis em mente nada contra o Estado, e 
  apenas vnheis reivindicar vosso direito sobre Gaunt, o ducado de Lencastre. 
  Nessas bases, juramos-vos ajuda. Mas a Fortuna logo choveu tanto sobre vossa 
  cabea, e to grande onda vos colheu de venturas: nosso auxlio, a ausncia do 
  monarca, os desvarios de uma poca corrupta, os sofrimentos aparentes que 
  tnheis suportado e os ventos que o monarca tanto tempo prenderam na infeliz 
  guerra da Irlanda, a tal ponto que todos na Inglaterra o julgavam sem vida. 
  Nesse enxame de vantagens risonhas encontrastes a ocasio de fazer que vos 
  pedissem enfeixsseis na mo todo o governo; esquecestes a jura de Doncaster; 
  como o cuco, essa raa ingrata e rude, faz com o pardal: tomastes-nos o ninho; 
  com a nossa ajuda tanto vos inchastes, que de vs nosso afeto se afastava para 
  no ser tragado; sim, foroso nos foi, por segurana, bater asas para onde no 
  nos vsseis, e estas mostras de guerra organizar. Ora contamos com quanto 
  contra vs prprio forjastes com atitudes odiosas e aes graves e a violao 
  de toda a f que tnheis afianado no albor de vossa empresa.
       REI HENRIQUE - As coisas que ora articulastes foram proclamadas nas ruas 
  dos mercados, lidas em todas as igrejas, para dar brilho  vestimenta da 
  revolta com cores que encantar a vista possam de alguns novidadeiros e dos 
  pobres descontentes que ficam boquiabertos e o cotovelo coam,  notcia 
  dessas reviravoltas imprevistas. Nenhuma insurreio careceu nunca de cores de 
  aquarela para a sua causa dar certo brilho, nem da inquieta canalha, que 
  faminta sempre se acha de confuses, runas e desordens.
       PRNCIPE - De parte a parte muitas almas devem pagar caro este encontro, 
  se em verdade viermos a combater. Dizei a vosso sobrinho que com todo o mundo 
  o Prncipe de Gales se associa no elogio de Harry Percy. Por minhas 
  esperanas! se pusermos de parte esta entrepresa, no creio que haja nobre 
  algum mais bravo, mais ativo e valente, ou moo e forte, mais audaz e arrojado 
  e digno em tudo de o tempo engalanar com atos nobres. Por minha parte - coro 
  ao confess-lo - tenho sido o mandrio dos cavaleiros, opinio, que o sei bem, 
  de mim faz ele. Mas ante a majestade de meu pai, declaro que terei grande 
  alegria se ele ficar com todas as vantagens de seu nome e da fama e estiver 
  pronto, para pouparmos sangue dos dois lados, a tentar s por s comigo a 
  sorte.
       REI HENRIQUE - Ns, Prncipe de Gales, te arriscamos, ainda que a isso se 
  oponham infinitas objees. No, bom Worcester; no, no; amamos nosso povo,  
  certo; amamos at mesmo os que se acham seduzidos pelo vosso sobrinho. E se 
  aceitarem nossa graa na oferta que lhes damos, ele e eles, como vs, todos, 
  em suma, sero nossos amigos e eu de todos. Dizei a vosso primo isso e 
  trazei-me sua resposta. Mas, caso no ceda, a fora e a represso conosco se 
  acham, e faro seu ofcio. Podeis ir-vos. No quero mais cansar-me com essa 
  fala; boa  a oferta; tratai de aproveit-la.
       (Saem Worcester e Vernon.)
       PRNCIPE - Por minha vida! No sero aceitas. Juntos, Douglas e Hotspur, 
  como se encontram, o mundo inteiro armado desafiam.
       REI HENRIQUE - Avante, pois; os chefes em seus postos. Assim que 
  responderem, l estaremos; que Deus ampare a nossa causa justa.
       (Saem o rei, Blunt e Joo de Lencastre.)
       FALSTAFF - Hal, se me vires tombar na batalha, cobre-me com o teu corpo; 
   preito de amizade.
       PRNCIPE - Somente um colosso poderia prestar-te semelhante preito de 
  amizade. Dize as tuas oraes, e adeus.
       FALSTAFF - Desejara, Hal, que fosse hora de deitar e que tudo estivesse 
  bem.
       PRNCIPE - Ora, deves uma morte a Deus.
       (Sai.)
       FALSTAFF - A letra ainda no est vencida; repugna-me pag-la antes do 
  termo. Que necessidade tenho eu de ir ao encontro de quem no me chama? Bem, 
  no importa:  a honra que me incita a avanar. Sim, mas, se a honra me levar 
  para o outro mundo, quando eu estiver avanando? E ento? Pode a honra encanar 
  uma perna? No. Ou um brao? No. Ou suprimir a dor de uma ferida? No. Nesse 
  caso, a honra no entende de cirurgia? No. Que  a honra? Uma palavra. Que h 
  nessa palavra, honra? Vento, apenas. Bela apreciao! Quem a possui? O que 
  morreu na quarta-feira. Pode ele senti-la? No. Ou ouvi-la? No. Trata-se, 
  ento, de algo insensvel? Sim, para os mortos. E no poder ela viver com os 
  vivos? No. Por qu? Ope-se a isso a maledicncia. Logo, no quero saber 
  dela: a honra no passa de um escudo de porta de casa de defunto. E aqui 
  termina o meu catecismo.
       (Sai.)



  CENA II
  O acampamento dos rebeldes, peito de Shrewsbury. Entram Worcester e Vernon.
   
       WORCESTER - Sir Ricardo, no deve o meu sobrinho saber que o rei foi 
  liberal na oferta.
       VERNON - Fora bom que o soubesse.
       WORCESTER - Nesse caso. todos ns estaramos perdidos. No  possvel, 
  nunca pode dar-se que o rei nos ame sempre, como o disse; sempre h de 
  desconfiar e de achar tempo de punir esta ofensa noutras faltas; cheia de 
  olhos ser sempre a suspeita, porque confiamos na traio do mesmo modo que na 
  raposa: por mais dcil, domesticada e presa, no se esquece dos selvagens 
  ardis da prpria raa. Mostremos o semblante alegre ou triste, nosso olhar h 
  de ser sempre suspeito; nossa vida ser a do boi no estbulo: se o tratamento 
   bom, perto est a morte. O erro do meu sobrinho ser fcil de esquecer, que 
  o desculpa o sangue ardente da mocidade, alm da alcunha em tudo privilegiada 
  de chamar-se o doido Hotspur e de possuir miolo de lebre. Sobre a cabea de 
  seu pai e a minha cairo seus erros todos: educamo-lo; e j que se estragou 
  por nossa culpa, como fonte do mal, tudo expiaremos. Por isso, caro primo, que 
  Harry nunca venha a saber das condies propostas.
       VERNON - Falai como entenderdes, que eu confirmo; vosso primo a vem 
  vindo.
       (Entram Hotspur e Douglas; atrs, oficiais e soldados.)
       HOTSPUR - Meu tio j voltou; soltai milorde de Westmoreland. Que novas, 
  meu bom tio?
       WORCESTER O rei vai atacar-nos sem detena.
       DOUGLAS - Enviai-lhe um desafio por milorde de Westmoreland.
       HOTSPUR - Lorde Douglas, dizei-lhe essas palavras.
       DOUGLAS - Como no? Bem contente e sem demora.
       (Sai.)
       WORCESTER - No h no rei nem sombra de demncia.
       HOTSPUR - E acaso a mendigastes? Deus nos livre.
       WORCESTER - Com bons termos falei de nossas queixas e de seus juramentos 
  quebrantados, o que ele pensa corrigir jurando que no quebrou nenhum. D-nos 
  o nome de traidores, rebeldes, e promete castigar pelas armas nosso gesto.
       (Volta Douglas.)
       DOUGLAS - s armas, cavalheiros! J no rosto lancei do rei Henrique um 
  repto ousado; Westmoreland, que era refm, levou-o; isso h de aqui 
  trazer-no-lo depressa.
       WORCESTER - Diante do rei o Prncipe de Gales para combate singular, 
  sobrinho, vos reptou.
       HOTSPUR - Oh! Quem dera que a contenda sobre nossas cabeas repousasse e 
  que ningum, salvo eu e Harry Monmouth, a vida hoje perdesse! Dizei logo: em 
  que termos o fez? Mostrou desprezo?
       VERNON - No, por minha alma; nunca em minha vida soube de desafio mais 
  modesto, a menos que um irmo a outro invitasse para exerccio de armas 
  amigvel. Quanto a um homem adorna, concedeu-vos; em linguagem de prncipe 
  teceu-vos o elogio; falou de vossos feitos como uma crnica, deixando sempre 
  seus encmios aqum de vossos mritos, por julg-los acima de elogios. Depois, 
  tal como a um prncipe compete, fez crtica severa de si mesmo, censurando 
  seus erros com tal graa, como se dispusesse de dois dotes, o de ensinar e o 
  de aprender a um tempo. Nisso ficou. Ao mundo, entanto, eu digo que se ele 
  sobrevive ao presente dio, jamais ter a Inglaterra uma esperana to bela e 
  promissora e ao mesmo tempo to mal interpretada em seus desvios.
       HOTSPUR - Primo, penso que estais enamorado de suas estroinices. Nunca 
  houve prncipe to devasso e amalucado. Mas, seja ele o que for, antes da 
  noite, com braos de soldado hei de apert-lo, derrubando-o com minha 
  cortesia. Armai-vos logo! E, amigos, camaradas, considerai melhor vossos 
  deveres do que eu, to carecente de eloqncia, poderia dizer para 
exaltar-vos.
       (Entra um mensageiro.)
       MENSAGEIRO - Milorde, aqui esto cartas para vs.
       HOTSPUR - No  possvel l-las. Cavalheiros, a vida  muito curta; mas 
  gastar em baixezas esse tempo, fora longo demais, ainda que a vida cavalgasse 
  o ponteiro de um relgio, para extinguir-se dentro de uma hora. Viver, para 
  pisar em reis e prncipes; morrer, mas com bravura, e eles conosco. Quanto  
  nossa conscincia, belas sempre so as armas, se o esprito for justo.
       (Entra outro mensageiro.)
       MENSAGEIRO - Preparai-vos, milorde, o rei j chega.
       HOTSPUR - Sou-lhe grato por vir interromper-me. No gosto de discursos; 
  isto, apenas: que se esforce cada um o mais possvel. Saco de minha espada, 
  cuja lmina pretendo enrubescer no melhor sangue que se me deparar nas 
  aventuras deste dia to cheio de perigos. E ora: Esprance! Percy! e avanar 
  sempre. Mandai tocar os nobres instrumentos de guerra e ao seu clangor nos 
  abracemos, porque - o cu contra a terra! - muitos, certo, jamais renovaro 
  tal cortesia.
       (Soam trombetas; abraam-se e saem.)



  CENA III
  Plancie entre os dois acampamentos. Entra o rei com suas foras; toque de 
  combate; depois, entram Douglas e Sir Walter Blunt.
   
       BLUNT - Que nome tens, para que assim me cruzes no caminho da luta? Que 
  honras buscas sobre minha cabea?
       DOUGLAS - Vais sab-lo: meu nome  Douglas; e se assim me afano sempre em 
  teu seguimento na batalha,  por me haverem dito que s o rei.
       BLUNT - Contaram-te a verdade.
       DOUGLAS - Lorde Stafford pagou hoje bem caro parecer-se contigo, Rei 
  Henrique; matou-o, em teu lugar, a minha espada, que o mesmo a ti far, se, 
  porventura, no te entregares logo prisioneiro.
       BLUNT - Orgulhoso escocs, no nasci fraco; vais encontrar um rei que 
  vinga a morte de Lorde Stafford.
       (Combatem; Blunt  morto; entra Hotspur.)
       HOTSPUR -  Douglas, se tivesses desse jeito lutado em Holmedon, eu no 
  teria jamais a um escocs levado a palma.
       DOUGLAS - Vencemos; acabou-se: eis morto o rei.
       HOTSPUR - Onde?
       DOUGLAS - Aqui.
       HOTSPUR - Esse, Douglas? Jamais! Conheo-o bem; um guerreiro de prol, 
  chamado Blunt, que como o prprio rei trazia as armas.
       DOUGLAS - Que um louco a alma te siga em toda parte. Pagaste caro o 
  ttulo emprestado. Por que disseste, ento, que eras o rei?
       HOTSPUR - Vestido como o rei, muitos o seguem.
       DOUGLAS - Por minha espada, vou matar-lhe as cotas, e, mais, pea por 
  pea, o guarda-roupa, at que, enfim, o rei seja encontrado.
       HOTSPUR - Prossigamos, ento; nossos soldados mais que nunca se mostram 
  esforados.
       (Saem.)
       (Toque a rebate; entra Falstaff.)
       FALSTAFF - Embora eu haja conseguido escapar de Londres, sem pagar, 
  receio ter de prestar contas aqui. Neste lugar a conta  riscada no toutio do 
  fregus. Devagar! Quem s tu a? Sir Walter Blunt! Que honra para vs! Quanta 
  vaidade! Estou to quente como chumbo derretido; to quente e to pesado! Deus 
  me preserve de chumbo; no necessito de mais peso do que o de minhas prprias 
  entranhas. Deixei os meus farrapos de gente onde os apimentaram a valer: dos 
  cento e cinqenta, escaparam apenas trs, e assim mesmo em condies de s 
  prestarem para mendigar o resto da vida nas portas da cidade. Mas quem vem a?
       (Entra o prncipe.)
       PRNCIPE - Ests parado? Empresta-me a tua espada. Muitos nobres tombaram 
  duros e hirtos sob os cascos do inimigo jactancioso, sem serem vingados. D-me 
  a tua espada.
       FALSTAFF - Oh Hal! Por piedade, deixa-me respirar um pouco. O turco 
  Gregrio jamais realizou as faanhas guerreiras que eu fiz hoje. Justei contas 
  com Percy; pu-lo em lugar seguro.
       PRNCIPE - No duvido que o esteja; encontra-se vivo para matar-te. 
  Vamos, empresta-me a tua espada.
       FALSTAFF - No! Por Deus, Hal; se Percy ainda est com vida, no ters a 
  minha espada; mas, caso queiras, podes levar a minha pistola.
       PRNCIPE - Pois seja. Mas que vejo! Ainda se encontra no estojo.
       FALSTAFF - Sim, Hal; est quente, est quente; dar para engarrafar uma 
  cidade.
       (O prncipe arranca do estojo uma garrafa de xerez.)
       PRNCIPE - Como! Isto  hora de brincadeiras e de galhofas?
       (Atira-lhe a garrafa e sai.)
       FALSTAFF - Est bem; se Percy ainda vive, vou fur-lo; bem entendido, no 
  caso de atravessar-se ele em meu caminho, porque no caso de eu ir, por minha 
  vontade, ao seu encontro, pode ele reduzir-me a carne assada. No me agrada 
  absolutamente a honra careteira que adorna Sir Walter. Dem-me vida! Se puder 
  conserv-la, bem; se no, a glria vir sem ser chamada. E com isso chegamos 
  ao fim.
       (Sai.)



  CENA IV
  Rebate. Movimento de tropas. Entram o Rei Henrique, o prncipe, Joo de 
  Lencastre e Westmoreland.
   
       REI HENRIQUE - Peo-te, Henrique, sai do campo; ests sangrando. Lorde 
  Joo de Lencastre, ide com ele.
       LENCASTRE - No, milorde; eu tambm quero sangrar.
       PRNCIPE - Peo que Vossa Majestade volte para a luta; receio que essa 
  ausncia desanime os amigos.
       REI HENRIQUE - Vou faz-lo. Milorde de Westmoreland, levai-o para a 
tenda.
       WESTMORELAND - Vinde, milorde; vou acompanhar-vos.
       PRNCIPE - Acompanhar-me? No, no necessito de vossa ajuda. Deus me 
  livre que uma simples arranhadura tire o Prncipe de Gales deste campo de 
  batalha em que a nobreza est sendo esmagada e os rebeldes triunfam no 
  massacre.
       LENCASTRE - J descansamos bem; vamo-nos, primo de Westmoreland, que ali 
  se acha o caminho do dever. Por amor de Deus, partamos!
       (Saem Joo de Lencastre e Westmoreland.)
       PRNCIPE - Por Deus, Lencastre, muito me enganavas; no julgava que 
  fosses de tal tmpera. Amor fraterno, Joo, te devotava, porm, como a prpria 
  alma, hoje te prezo.
       REI HENRIQUE - Eu o vi fazer frente a Lorde Percy com tal desenvoltura, 
  como nunca se esperara de um moo inexperiente.
       PRNCIPE - Essa criana a ns todos encoraja.
       (Sai.)
       (Rebate. Entra Douglas.)
       DOUGLAS - Outro rei! So tais quais cabeas da Hidra. Eu sou o Douglas 
  fatal a quantos usam semelhantes insgnias. Quem s tu, que a pessoa do rei 
  desta arte imitas?
       REI HENRIQUE - O prprio rei, que sente muito, Douglas, por teres 
  encontrado tantas sombras dele em vez dele prprio. Meus dois filhos a Percy e 
  a ti procuram na batalha. Mas j que tive a sorte deste encontro, vou 
  experimentar-te. Assim, defende-te.
       (Lutam; no momento em que o rei se encontra em perigo, entra o prncipe.)
       PRNCIPE - Vil escocs, levanta essa cabea, ou jamais o fars. O brao 
  anima-me o esprito de Shirley, Stafford, Blunt. E o Prncipe de Gales que te 
  ameaa, que nunca prometeu, sem que pagasse.
       (Combatem; Douglas foge.)
       Refazei-vos, milorde. Como se acha Vossa Majestade? Sir Nicolas Gawsey 
  mandou socorros, como Clifton tambm; corro para este.
       REI HENRIQUE - Pra; respira um pouco. Redimiste teu crdito perdido, 
  demonstrando todo o apreo que tens  minha vida com o socorro to nobre que 
  me deste.
       PRNCIPE - O Deus! Injuriaram-me a esse ponto, dizendo que eu queria 
  vossa morte? Se assim fosse, deixara que a mo mpia de Douglas sobre vs 
  pesasse agora, que vos teria dado fim to rpido quanto os venenos todos deste 
  mundo, poupando essa traio a vosso filho.
       REI HENRIQUE - Vai para onde est Clifton; vou juntar-me a Sir Nicolas 
  Gawsey.
       (Sai.)
       (Entra Hotspur.)
       HOTSPUR - s Henrique Monmouth, se no me engano?
       PRNCIPE - Presumias, acaso, que o negasse?
       HOTSPUR - Chamo-me Henrique Percy.
       PRNCIPE - Neste caso, vejo um bravo rebelde desse nome. Sou o Prncipe 
  de Gales. Deixa, Percy, de disputar-me a glria por mais tempo. No se movem 
  dois astros numa esfera, nem pode na Inglaterra haver, tampouco, dois cetros: 
  o do Prncipe de Gales e o de Harry Percy.
       HOTSPUR -  certo, Harry; o momento chegou de um de ns dois deixar a 
  vida. Quisesse Deus que tua glria de armas fosse agora to grande quanto a 
  minha!
       PRNCIPE - Vou faz-la maior ao separarmo-nos, ceifando do teu casco os 
  botes da Honra, para tecer coroa que me adorne.
       HOTSPUR - Enfara-me essa tua gabolice.
       (Combatem.)
       (Entra Falstaff.)
       FALSTAFF - Bem respondido, Hal! A ele, Hal! Isto aqui no  passatempo de 
  crianas, podes crer-me.
       (Entra Douglas, que combate com Falstaff, o qual se atira ao solo, 
  fingindo-se morto; Douglas sai; Hotspur  ferido e cai.)
       HOTSPUR - Roubaste-me, Harry, a mocidade. A perda, porm, da vida frgil 
  me di menos do que os ttulos nobres que em mim ganhas. Meu pensamento sofre 
  mais que a carne ferida por tua espada. Mas escravo da vida  o pensamento, e 
  a vida  apenas bufo do tempo, e o tempo, que domina tudo o que existe, h de 
  parar um dia. Oh! quisera falar do teu futuro, mas a fria e terrosa mo da 
  Morte me pesa sobre a lngua. s poeira, Percy, s poeira e pasto...
       (Morre.)
       PRNCIPE - De vermes, bravo Percy. Adeus, corao grande! Mal tecida 
  ambio, como agora te engrouvinhas! Quando este corpo a uma alma dava abrigo, 
  limite ainda acanhado lhe era um reino; mas agora dois passos de vil terra 
  so-lhe espao bastante. No se encontra cavalheiro mais nobre nessa terra que 
  sustenta o teu corpo. Se ainda fosses sensvel aos encmios, no faria 
  demonstrao to franca de meu preito. Mas que minhas insgnias te recubram o 
  rosto mutilado. Eu me agradeo tal prova delicada de ternura. Leva ao cu 
  to-somente os elogios; que em tua sepultura durma a tua desonra, no lembrada 
  no epitfio.
       (Percebe Falstaff cado.)
       Um velho conhecido! Tanta carne no reteve um pouquinho s de vida? 
  Adeus, meu pobre Jack! Melhor fora se eu tivesse poupado melhor homem. 
  Perder-te me pesara hoje, em verdade, se afeioado ainda eu fosse da vaidade. 
  Muitos corpos a Morte hoje h colhido, mas nenhum como o teu, gordo e querido. 
  Vou mandar estripar-te; at que o faa, de Percy jaze no cruor, na graa.
       (Sai.)
       FALSTAFF (levantando-se) - Estripar-me! Se me estripares hoje, consinto 
  em que amanh me salgues e depois me comas. Com os demnios! J era tempo de 
  fingir de morto, antes que esse escocs turbulento me livrasse das dvidas. 
  Fingir, minto; no fingi coisa alguma. Morrer  que  fingimento, porque quem 
  no tem vida de homem, no passa de fingimento de homem; mas, fingir de morto 
  para conservar a vida, no  fingir a imagem da vida, seno represent-la com 
  verdade e perfeio. A prudncia  a parte melhor do valor; salvei a vida, 
  graas a essa parte melhor. Com a breca! Apesar de morto, esse Percy plvora 
  de canho me mete medo. E se ele tambm estivesse fingindo e se levantasse 
  agora? Receio bem que saiba fingir melhor do que eu. Por isso mesmo, vou p-lo 
  em lugar seguro; sim, e hei de jurar que o matei. Por que motivo no poder 
  ele levantar-se to bem como eu o fiz? S poderiam contestar-me, se me vissem, 
  o que no acontece neste momento. Por isso, amigo - (d-lhe uma punhalada) - 
  vinde comigo com mais este, ferimento na perna.
       (Pe s costas o cadver de Percy.)
       (Entram o prncipe e Joo de Lencastre.)
       PRNCIPE - Vamos, mano! Estreaste bravamente tua espada ainda virgem.
       LENCASTRE - Devagar!
       Quem nos surge! No tinhas dito que esse homem gordo morrera?
       PRNCIPE - Disse; eu prprio o vi no cho, sangrento e inanimado. Ests 
  vivo, ou no passas de iluso de nossos olhos? Peo-te, responde. No 
  confiamos na vida sem o ouvido; no s o que pareces.
       FALSTAFF -  certo; no sou um homem duplo; mas se no sou Jack Falstaff, 
  quero ser um Joo-ningum. Aqui est Percy - (Atira o corpo ao solo.) - Se 
  vosso pai quiser conceder-me alguma honra, bem; caso contrrio, que ele mesmo 
  mate o prximo Percy. Espero tornar-me conde ou duque, posso assegurar-vos.
       PRNCIPE - Mas se Percy foi morto por mim, ao tempo em que te encontravas 
  sem vida!
       FALSTAFF - Por ti? Senhor! Senhor! Como este mundo  mentiroso! Concedo 
  que me achava no solo, sem flego. O mesmo se dava com ele; mas nos levantamos 
  logo e combatemos uma boa hora, calculada pelo relgio de Shrewsbury. Se 
  acreditarem no que eu digo, bem; se no, que semelhante pecado recaia sobre a 
  cabea dos que tm por obrigao premiar o valor. Morro dizendo que fui eu que 
  lhe fiz esta ferida da coxa. Se o homem estivesse vivo e quisesse neg-lo, 
  obrig-lo-ia a engolir um pedao de minha espada.
       LENCASTRE - Jamais soube de caso to curioso.
       PRNCIPE -  que esse tipo, mano,  o mais curioso de quantos tm vivido. 
  Pois carrega com nobreza teu fardo. De meu lado, se uma mentira te for til, 
  quero dour-la com as palavras mais bonitas.
       (Ouve-se toque de retirada.) Tocam a retirada; o dia  nosso. Vamos 
  agora, mano, ver no campo que amigos esto vivos, quais morreram.
       (Saem o prncipe e Joo de Lencastre.)
       FALSTAFF - Vou segui-lo, como se diz, atrs da recompensa. Que Deus 
  recompense quem me recompensar. Se eu crescer, diminuirei, porque pretendo 
  purgar-me, abandonar o xerez e viver limpamente, como convm a um 
gentil-homem.
       (Sai.)



  CENA V
  Outra parte do campo de batalha. Trombetas. Entram o Rei Henrique, o prncipe, 
  Joo de Lencastre, Westmoreland e outros, com Worcester e Vernon, 
prisioneiros.
   
       REI HENRIQUE - Sempre encontrou castigo a rebelio. No vos mandamos 
  graa, malvado Worcester, perdo para vs todos e amizade? Expuseste o 
  contrrio do que eu disse, e abusaste da f de teu sobrinho. Trs cavaleiros 
  nossos, mortos hoje, um nobre conde e muitas mais criaturas ainda estariam 
  vivos, se, como bom cristo, tivesses dado bom recado entre os dois campos 
  contrrios.
       WORCESTER - S fiz o que exigia a minha prpria segurana. Paciente, 
  aceito o fado que inevitavelmente em mim recai.
       REI HENRIQUE - Levai Worcester logo para a morte, e tambm Vernon com 
  ele. Sobre os outros rebeldes, com vagar decidiremos.
       (Saem Worcester e Vernon, escoltados.)
       Em que p se acha o campo de batalha?
       PRNCIPE - O nobre escocs Douglas percebendo que a sorte da jornada era 
  contra ele, o nobre Percy morto, os outros homens prestes a debandar, fugiu 
  com o resto, mas machucou-se tanto numa queda, que logo o aprisionaram. 
  Douglas se acha na minha tenda; peo a Vossa Graa que eu possa dispor dele.
       REI HENRIQUE - De bom grado.
       PRNCIPE - Esse ato honroso de bondade, mano Joo de Lencastre, cabe a 
  vs agora: ide a Douglas e ponde-o em liberdade plena, incondicionada e sem 
  resgate. Seu valor, comprovado em nossas armas, ensinou-nos a honrar os altos 
  feitos at mesmo no peito dos inimigos.
       LENCASTRE - Desejo agradecer a Vossa Graa to grande cortesia; serei 
  prestes.
       REI HENRIQUE - Ainda nos resta dividir as foras: filho Joo, vs com o 
  primo Westmoreland sobre York marchareis a toda pressa, contra Northumberland 
  e o Bispo Scroop, os quais, segundo ouvimos, se azafamam; a Gales, filho 
  Henrique, iremos ambos, contra o Duque de March e Owen Glendower. Mais um dia 
  como este e a rebelio rojar certamente pelo cho. Depois de tal vitria, no 
  paremos sem que nossos bens todos conquistemos.
       (Saem.)
Henrique IV (Parte II) - William Shakespeare
Ridendo Castigat Mores



  Henrique IV - (Parte II)
  William Shakespeare

  Edio
  Ridendo Castigat Mores

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  Copyright:
  Autor: William Shakespeare
  Traduo: Carlos A. Nunes
  Edio eletrnica: Ed. Ridendo Castigat Mores
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  NDICE
  PERSONAGENS
  INTRODUO
  ATO I
     Cena I
     Cena II
     Cena III
  ATO II
     Cena I
     Cena II
     Cena III
     Cena IV
  ATO III
     Cena I
     Cena II
  ATO IV
     Cena I
     Cena II
     Cena III
     Cena IV
     Cena V
  ATO V
     Cena I
     Cena II
     Cena III
     Cena IV
     Cena V
  EPLOGO



  HENRIQUE IV
  PARTE II

  WILLIAM SHAKESPEARE



  PERSONAGENS
   
  O RUMOR, apresentador da pea.
  REI HENRIQUE IV.
  HENRIQUE, Prncipe de Gales, depois Henrique V, seu filho.
  TOMAS, Duque de Clarence, seu filho.
  JOO DE LENCASTRE, seu filho
  HUMPHREY DE GLOSTER.
  CONDE DE WARWICK, partidrio do rei.
  CONDE DE WESTMORELAND, partidrio do rei.
  CONDE DE SURREY, partidrio do rei.
  GOWER, partidrio do rei.
  HARCOURT, partidrio do rei.
  BLUNT, partidrio do rei.
  LORDE GRANDE JUIZ, do Tribunal do Rei.
  Um oficial do Lorde Juiz.
  RICARDO SCROOP, Arcebispo de York, adversrio do rei.
  LORDE MOWBRAY, adversrio do rei.
  LORDE HASTINGS, adversrio do rei.
  LORDE BARDOLFO, adversrio do rei.
  SIR JOHN COLEVILE, adversrio do rei.
  TRAVERS e MORTON, criados de Northumberland.
  SIR JOHN FALSTAFF.
  Seu pajem.
  BARDOLFO.
  PISTOLA.
  POINS.
  PETO.
  SHALLOW e SILNCIO, juizes rurais.
  DAVY, criado de Shallow.
  Mofado, Sombra, Verruga, Fraco e Bezerro, recrutas.
  Garra e Cilada, oficiais do xerife.
  Um porteiro.
  Um danarino, locutor do eplogo.
  LADY NORTHUMBERLAND.
  LADY PERCY.
  Mistress Quickly, estalajadeira em Eastcheap.
  Doll Tearsheet.
  Fidalgos, oficiais, soldados, mensageiros, moos de taberna, beleguins, 
  lacaios, etc.



  INTRODUO
  Warkworth; diante do castelo de Northumberland. Entra o Rumor, com vestes em 
  que se vem pintadas muitas lnguas.
   
       RUMOR - Abri os ouvidos! Quem quer pr entraves  passagem dos sons, ao 
  vir falar-vos o Rumor barulhento? De este a oeste, valendo-me do vento como 
  posta, relato o que se passa nesta bola terrestre. Em minha lngua sempre se 
  acham imposturas, que em todos os idiomas eu anuncio, enchendo de mentiras os 
  ouvidos dos homens. Falo apenas de paz, quando a fingida hostilidade, sob o 
  riso tranqilo, o mundo talha. Quem, se no eu, quem mais, se no o Rumor, 
  bandos rene medrosos, faz defesas, enquanto a poca, inchada de outros males, 
  passa por estar grvida de Marte, quando tal no se d? O Rumor  flauta de 
  conjeturas, cimes e suspeitas, instrumento to simples e to fcil, que o 
  monstro rude de cem mil cabeas, a ondeante multido, sempre indecisa, pode 
  toc-lo. Mas, por que meu corpo to conhecido dissecar na frente dos prprios 
  familiares? Qual a causa de encontrar-se o Rumor aqui nesta hora? Corro mais 
  que a vitria do Rei Harry que nos campos sangrentos de Shrewsbury venceu o 
  moo Hotspur e seus guerreiros, as chamas apagando da orgulhosa rebelio com o 
  sangue dos rebeldes. Mas por que dizer isso? Meu ofcio  contar que caiu 
  Harry Monmouth sob o gldio feroz do nobre Hotspur e que o rei, ante a clera 
  de Douglas, at  morte inclinou a fronte ungida. Foi isso que espalhei pelas 
  aldeias, desde o campo de lutas de Shrewsbury at esta fortaleza carcomida em 
  que finge estar doente o velho pai de Hotspur, Northumberland. Cansados, os 
  correios se sucedem, no contando eles mais do que as notcias que aprenderam 
  comigo. Pelas lnguas do Rumor chegam ledos e ligeiros, mais fatais do que 
  males verdadeiros.
       (Sai.)



  ATO I
  CENA I
  Warkworth; diante do castelo de Northumberland. Entra Lorde Bardolfo.
   
       LORDE BARDOLFO - Quem  o porteiro aqui?
       (O porteiro abre o porto.)
       Onde est o conde?
       PORTEIRO - A quem devo anunciar?
       LORDE BARDOLFO - D-lhe a notcia de que Lorde Bardolfo o est esperando.
       PORTEIRO - Sua Excelncia se encontra no jardim; se Vossa Honra quiser 
  bater  porta, ele mesmo abrir.
       (Entra Northumberland.)
       LORDE BARDOLFO - Vem vindo o conde.
       (Sai o porteiro.)
       NORTHUMBERLAND - Lorde Bardolfo, que notcias? Cada minuto agora engendra 
  um fato grave. Os tempos so difceis; a discrdia, qual cavalo de trato 
  primoroso, insana, o freio perde e,  sua passagem, derruba quanto encontra.
       LORDE BARDOLFO - Nobre conde, trago-vos certas novas de Shrewsbury.
       NORTHUMBERLAND - Boas, se Deus quiser.
       LORDE BARDOLFO - Como as deseja o corao: o rei se acha ferido 
  mortalmente e, na glria de milorde vosso filho, foi morto o Prncipe Harry; 
  s mos de Douglas os dois Blunts morreram; Westmoreland e Joo, o jovem 
  prncipe, com Stafford a batalha abandonaram; o rolio chumao de Monmouth, 
  Sir John, caiu nas mos de vosso filho. Dia assim, disputado e to bem ganho, 
  nunca o tempo exornou com tanto lustre, desde as glrias de Csar.
       NORTHUMBERLAND - Quem vos disse? Vistes o campo? Viestes de Shrewsbury?
       LORDE BARDOLFO - Falei, milorde, com algum que veio justamente de l, um 
  gentil-homem de bom sangue e alto nome, que a notcia como certa me deu sem 
  que eu o pedisse.
       NORTHUMBERLAND - Ai vem meu criado Travers, que eu mandei na ltima 
  tera-feira a colher novas.
       LORDE BARDOLFO - Alcancei-o, milorde, no caminho; no traz maior certeza 
  do que quanto pudesse ter ouvido de meus lbios.
       (Entra Travers.)
       NORTHUMBERLAND - Que boas novas, Travers, vm convosco?
       TRAVERS - Milorde, Sir John Umfrevile fez-me voltar da estrada com 
  notcias timas; porque melhor montado, ultrapassou-me. Depois dele, a 
  esporear com todo o empenho, veio um fidalgo, morto de fadiga, que ao meu lado 
  estacou para ao cavalo sangrento dar descanso. Perguntou-me pela estrada de 
  Chester; dele soube notcias certas de Shrewsbury; disse que a rebelio no 
  tinha tido sorte e que o esporo de Percy estava frio. Com isso, as rdeas 
  larga ao bruto altivo e, inclinando-se, enterra o armado salto nos flancos 
  palpitantes do coitado, t o boto da roseta. Desse modo, partiu sem falar 
  mais, s parecendo que tragava o caminho.
       NORTHUMBERLAND - Ah! Novamente: frio estava o esporo de Henrique Percy? 
  Em vez de Esporo-quente, Esporo-frio? Que a rebelio tivera sorte adversa?
       LORDE BARDOLFO - Milorde, ouvi-me: se milorde moo, vosso filho, a 
  vitria no obteve, pela minha honra, troco a baronia por um lao de fita. No 
  falemos mais nisso.
       NORTHUMBERLAND - Ento por que esse gentil-homem, que por Travers passou, 
  disse isso tudo?
       LORDE BARDOLFO - Esse tal? Com certeza algum medroso que roubara o cavalo 
  e que falava por falar. Eis notcias mais recentes.
       (Entra Morton.)
       NORTHUMBERLAND - Sim, a fronte deste homem, como a capa de certos livros, 
  fala de tragdia.  esse o aspecto da praia em que a ressaca deixou a marca do 
  imprio incontrastvel. Fala, Morton: vens vindo de Shrewsbury?
       MORTON - Sim, meu nobre senhor, vim de Shrewsbury, onde a Morte terrvel 
  ps a mscara mais feia que possua para o nosso partido amedrontar.
       NORTHUMBERLAND - Como se encontram meu filho e meu irmo? Tremes; mais 
  apta que tua lngua, a palidez do rosto me diz o teu recado. Um mensageiro 
  como tu, j sem foras, alquebrado, no olhar a Morte, louco de infortnio, a 
  cortina de Pramo, nas horas mortas da noite, descerrou, querendo dar-lhe a 
  notcia de que Tria ardia pela metade. Mas o fogo Pramo encontrou antes que 
  ele a lngua achasse, e a morte do meu Percy eu, sem que fales. Dir-me-ias: 
  "Vosso filho fez tais atos; vosso irmo outros tais: o nobre Douglas assim 
  lutou", enchendo-me os ouvidos vorazes com seus feitos audaciosos. Mas no fim, 
  entupindo-os de verdade, com um suspiro esfarias os encmios, para 
  finalizares: "Filho, irmo, todos morreram".
       MORTON - Douglas ainda vive, bem como vosso irmo. Quanto a milorde vosso 
  filho...
       NORTHUMBERLAND - Ah! morreu! Vede que lngua pronta tem a suspeita. Quem 
  receia algo que conhecer lhe infunde medo, l nos olhos dos outros, por 
  instinto, se deu justamente o que receava. Agora fala, Morton; dize ao conde 
  que seu pressentimento  mentiroso, e eu terei esse insulto por brinquedo, 
  sobre tornar-te rico pela ofensa.
       MORTON - Sois muito grande para eu contestar-vos; fiel, o pressentimento; 
  o medo, justo.
       NORTHUMBERLAND - Mas, apesar de tudo, no me venhas revelar que Harry 
  Percy j no vive. Estranha confisso leio em teus olhos; abanas a cabea, 
  parecendo-te medo ou falta contar toda a verdade. Se morreu, conta-o; no 
  ofende a lngua que sua morte anuncia; erra somente quem calunia um morto, no 
  quem fala para dizer que o morto no tem vida. Contudo, o portador de 
  infaustas novas exerce um triste ofcio; sua fala ressoa como dobre de finados 
  que a perda de um amigo nos recorda.
       LORDE BARDOLFO - No posso crer, milorde, que morresse.
       MORTON - Di-me ter de obrigar-vos a dar crdito ao que no desejara - 
  Deus o sabe - jamais ter visto. Mas estes meus olhos o viram dessangrado, 
  revidando, quase sem fora e alento, os feros golpes de Harry Monmouth, cuja 
  incontida clera fez o invencvel Percy vir ao solo de onde, vivo, no mais 
  devia alar-se. Em suma, a morte de Harry Percy - cujo esprito animava os 
  mais remissos - logo que foi sabida, o ardor e o fogo gelou dos mais dispostos 
  de sua tropa. Ao partido o seu ao dava a tmpera; morto ele, a ser o que eram 
  todos voltam: chumbo por demais rombo e assaz pesado. E como as coisas que em 
  si mesmas pesam, quando foradas, voam mais velozes, nossos homens, com a 
  perda de Harry Percy, to leves se tornaram pelo medo, que, semelhos  flecha, 
  quando a mira procura, desertaram da batalha, s cuidando de pr a vida a 
  salvo. Foi ento que o nobre Worcester deixou-se aprisionar e que esse escocs 
  louco, Douglas sangrento, cuja espada excelsa trs espectros do rei j havia 
  morto, sentiu baquear-lhe o peito e honrou a vergonha dos que volviam costas, 
  sendo preso na fuga, ao tropear de puro medo. O rei venceu, em suma, e a 
  vosso encontro, milorde, j enviou foras ligeiras,  testa das quais vm Joo 
  de Lencastre e Westmoreland. Eis todas as notcias.
       NORTHUMBERLAND - Para chorar, o tempo h de sobrar-me. O veneno  
  remdio; essas notcias, que, se eu bom estivesse, mal fariam, doente, de 
  certo modo, me curaram. E tal como o infeliz, de juntas fracas pela febre, 
  qual mola que se encurva sob o peso da vida, e que num rasgo de furor, como o 
  fogo, se liberta dos braos do enfermeiro: assim meus membros, de dor 
  enfraquecidos e furiosos, so trs vezes o que eram. Fora, fora, muleta 
  intil! E a manopla dura de escamas de ao que, daqui por diante, vai 
  servir-me de luva. Fora, gorro de doente! s proteo muito irrisria para a 
  cabea que visar costumam prncipes altanados. Minha fronte cingi de ferro, e 
  que a hora se aproxime mais funesta que o tempo e o sofrimento possam trazer 
  para ameaar o iroso Northumberland. Que a terra e o cu se beijem! Que a mo 
  da natureza no detenha mais as ondas selvagens! A ordem morra! Deixe o mundo 
  de ser, daqui por diante, um palco em que as contendas se sucedem com atos 
  enfadonhos! Que no peito de todos reine o esprito somente do primognito 
  Caim, que os faa vidos s de sangue, porque o drama brutal possa chegar ao 
  termo exato e o coveiro dos mortos seja a Noite.
       TRAVERS - Essa emoo, milorde, vos faz mal.
       LORDE BARDOLFO - Um, meu caro conde, a honra  prudncia.
       MORTON - A vida das pessoas que vos seguem pende de vossas foras. 
  Entregando-vos desse modo s paixes,  inevitvel que cedo elas decaiam. 
  Calculastes, meu nobre lorde, as conseqncias todas desta guerra e pesastes 
  seus azares antes de  frente dela vos postardes. Conjeturastes, certo, a ss 
  convosco, que, na distribuio dos golpes, vosso filho talvez morresse. Bem 
  sabeis que ele andava por cima dos perigos, numa crista, da qual era provvel 
  que viesse a despenhar-se, sem transp-la. Sabeis que no era invulnervel 
  sua carne aos ataques e que o nobre carter o impelia aos mores riscos. 
  Contudo, o incentivastes: Vai! Nenhuma dessas razes to fortes deter pode 
  vossa obstinada ao. Que  que de estranho sucedeu? Que gerou a audaz empresa 
  se no o que era justo se previsse?
       LORDE BARDOLFO - Quantos nos enredamos nesta perda, sabamos que o mar 
  que navegvamos fervilhava de escolhos e que tnhamos uma em dez ocasies de 
  nos salvarmos. Todavia, arriscamos, que a esperana da glria compensava a 
  expectativa do perigo provvel. J que fomos derrotados, tentemos novamente. 
  Vamos! Joguemos tudo: os bens e os corpos!
       MORTON -  mais que tempo. Nobre e alto senhor, sei de fonte segura, e a 
  nova posso secundar, que o valente Bispo de York se levantou com tropas bem 
  munidas.  um homem que com dupla segurana prende e liga os adeptos do 
  partido. Milorde vosso filho s dispunha de corpos; meras sombras, aparncias 
  de homens para lutar, porque o vocbulo "rebelio" lhes trazia dissociados a 
  alma e o corpo; com nuseas e forados  que lutavam, como quem ingere poo. 
  De nosso lado apenas tnhamos suas armas, porque as almas,  palavra 
  "rebelio", se tornaram congeladas como peixes no tanque. Mas o bispo 
  transforma a insurreio em religio. Porque honesto e de santos pensamentos, 
  de alma e corpo  seguido, e, ademais, sabe fortalecer a causa que defende com 
  o sangue de Ricardo, o bom, raspado das pedras de Pomfret; do cu deriva seus 
  princpios e a causa da revolta, propondo-se livrar a infeliz terra que geme 
  sob o grande Bolingbroke. Os grandes e os pequenos se lhe agregam.
       NORTHUMBERLAND - J o sabia; contudo, a falar franco, fizera-me 
  esquec-lo a dor de agora. Ficai comigo e aconselhai-me a via mais segura da 
  glria e da vingana. Expedi cartas; conquistai amigos; nunca so por demais 
  nestes perigos.
       (Saem.)



  CENA II
  Londres. Uma rua. Entra Sir John Falstaff, seguido de um pajem que traz o 
  escudo e a espada dele.
   
       FALSTAFF - Ol, gigante, que disse o doutor de minhas guas?
       PAJEM - Disse, senhor, que, em si mesmas, as guas eram boas e sadias, 
  mas que a pessoa a que pertenciam devia ter mais doenas do que ele 
suspeitava.
       FALSTAFF - Homens de toda a espcie encontram prazer em zombar de mim. O 
  crebro desse estpido composto de argila que se denomina homem no  capaz de 
  inventar coisa alguma que provoque o riso, alm do que eu invento ou do que se 
  inventa a meu respeito; no somente sou espirituoso por mim mesmo, como tambm 
  a causa de que outros venham a ter esprito. Andando deste modo diante de ti, 
  pareo uma porca que houvesse esmagado todos os leites, com exceo a um. Se 
  o prncipe no te ps a meu servio apenas para que eu sobressasse pelo 
  contraste,  que careo completamente de juzo. Filho esprio da mandrgora, 
  ficarias melhor espetado no meu chapu do que me seguindo os calcanhares. 
  Nunca tive, at hoje, uma gata; mas no  por isso que vou encastoar-vos em 
  ouro ou prata, se no em trajos pfios, para devolver-vos a vosso patro, como 
  jia de valor; sim, vosso patro, o prncipe, esse juvenal de queixo ainda 
  desprovido de penugem. O que eu digo  que primeiro me nascer barba na palma 
  das mos do que a ele no queixo. No entanto, no tem escrpulo de afirmar que 
  possui cara real. Deus lhe dar  cara a ltima demo, quando bem lhe 
  aprouver, que no se perder com isso nenhum pelo. Diga ele o que quiser; mas 
  nessa cara real o barbeiro no ganhar nunca seis pences. No entanto, assume 
  sempre uns ares de importncia, como se j passasse por homem no tempo em que 
  seu pai ainda era solteiro. Pois que fique com a sua graa, que na minha  que 
  ele no mais se encontra, posso assegurar-lhe. Que disse mestre Dombledon a 
  respeito do cetim para o meu manto curto e meus cales?
       PAJEM - Disse, senhor, que era necessrio aval melhor do que o de 
  Bardolfo; recusa tanto as letras deste como as vossas; considera-as pouco 
  seguras.
       FALSTAFF - Pois que seja condenado como o gluto rico, e que a lngua se 
  lhe torne ainda mais quente! Miservel Arquitofel! Velhaco das dzias! Fazer 
  esperar a um gentil-homem, para, no fim, pedir fiana! Esses malditos carecas, 
  agora s usam sapatos altos e molho de chaves na cintura, e quando algum lhes 
  compra honestamente alguma coisa, emperram nas fianas. Preferira que me 
  enchessem a boca com p de matar rato a taparem-na com as tais fianas. Por 
  ser eu fidalgo de verdade, estava certo de que me mandaria vinte e duas jardas 
  de cetim; e, ao invs disso, me envia pedido de fianas! Bem; que durma em 
  paz, visto possuir o corno da abundncia, atravs do qual brilha a ligeireza 
  de sua mulher. No entanto, no v nada, muito embora tenha sua prpria 
  lanterna para alumi-lo. Onde est Bardolfo?
       PAJEM - Foi a Smithfield, a fim de comprar um cavalo para Vossa Senhoria.
       FALSTAFF - Comprei-o em So Paulo, e ele vai comprar-me um cavalo em 
  Smithfield! Se me fosse possvel, ao menos, arranjar uma mulher num alcouce, 
  ficaria servido, montado e casado.
       (Entram o Lorde Grande Juiz e um beleguim.)
       PAJEM - Senhor, a vem o nobre que prendeu o prncipe, quando este bateu 
  nele por causa de Bardolfo.
       FALSTAFF - Fica perto de mim; no quero v-lo.
       LORDE JUIZ - Quem  aquele que vai ali?
       BELEGUIM - Com licena de Vossa Senhoria,  Falstaff.
       LORDE JUIZ - O que foi processado por causa do roubo?
       BELEGUIM - Esse mesmo, milorde; mas depois disso prestou bons servios em 
  Shrewsbury e, segundo ouvi dizer, vai agora em misso junto a Lorde Joo de 
  Lencastre.
       LORDE JUIZ - Como! A York? Chamai-o.
       BELEGUIM - Sir John Falstaff!
       FALSTAFF - Rapaz, dize-lhe que eu sou surdo.
       PAJEM - Falai mais alto; meu amo  surdo.
       LORDE JUIZ - Acredito-o; para ouvir notcia boa. Puxa-o pelo cotovelo; 
  preciso falar-lhe.
       BELEGUIM - Sir John!
       FALSTAFF - Como! To moo e j mendigando? Porventura no h guerra? no 
  h emprego? no necessita de sditos o rei e de soldados os rebeldes? Embora 
  s no seja vergonhoso pertencer a um dos partidos,  mais vergonhoso mendigar 
  do que ficar do lado pior, por pior que possa conter-se no nome "rebelio".
       BELEGUIM - Enganais-vos a meu respeito, senhor.
       FALSTAFF - Como, senhor? Acaso eu disse que sois um homem honesto? Pondo 
  de parte a minha qualidade de cavaleiro e de soldado, seria um mentiroso de 
  marca, se houvesse afirmado semelhante coisa.
       BELEGUIM - Pois bem, senhor: ponde de lado vossa qualidade de cavaleiro e 
  de soldado e permiti que vos declare que no passais de um mentiroso de marca, 
  se afirmais que eu no sou um homem honesto.
       FALSTAFF - Eu, dar-te permisso para me dizeres isso? Pr de lado o que 
  faz parte de mim mesmo? Se o obtiveres de mim semelhante licena, quero que me 
  enforques, e se vieres a consegui-la, melhor te valeria ser enforcado. Fora 
  daqui, sabujo! Toca!
       BELEGUIM - Senhor, milorde deseja falar-vos.
       LORDE JUIZ - Sir John Falstaff, uma palavra.
       FALSTAFF - Meu bom lorde! Deus conceda a Vossa Senhoria um bom dia. 
  Alegra-me imenso ver a Vossa Senhoria aqui fora; tinha ouvido dizer que Vossa 
  Senhoria estava doente; espero que Vossa Senhoria sasse por indicao do 
  mdico. Porque, embora no se possa dizer que Vossa Senhoria j no seja moo, 
   certo que se ressente do sabor dos anos, algo picante da salmoura do tempo; 
  por isso rogo humildemente a Vossa Senhoria cuidar da sade com o mximo 
  respeito.
       LORDE JUIZ - Sir John, eu vos mandei intimar antes de vossa expedio a 
  Shrewsbury.
       FALSTAFF - Com licena de Vossa Senhoria, ouvi dizer que Sua Majestade 
  voltou indisposto do pas de Gales.
       LORDE JUIZ - No estou falando agora de Sua Majestade; no atendestes  
  minha intimao.
       FALSTAFF - Alm disso, ouvi dizer que Sua Alteza ficou tambm atacado 
  dessa infame apoplexia.
       LORDE JUIZ - Bem; o cu dar remdio a isso. Mas permiti que vos fale, 
  por obsquio.
       FALSTAFF - Essa apoplexia, no meu fraco pensar,  uma espcie de 
  letargia, com licena de Vossa Senhoria; uma espcie de adormecimento no 
  sangue, uma zoeira dos demnios.
       LORDE JUIZ - Mas a que vem isso, afinal? Seja ela o que for.
       FALSTAFF - Provm de tristezas, do estudo e de perturbaes do crebro. 
  Li em Galeno a causa de seus efeitos:  uma espcie de surdez.
       LORDE JUIZ - Acho que  disso que estais sofrendo, porque no ouvis o que 
  vos falo.
       FALSTAFF - Perfeitamente, milorde, perfeitamente; mas, com vossa licena, 
  o que me aflige mais  a doena de no escutar, de no prestar ateno.
       LORDE JUIZ - Um castigo nos calcanhares faria melhorar essa desateno 
  dos ouvidos; no se me dava de ser o vosso mdico.
       FALSTAFF - Sou to pobre quanto J, milorde, porm no to paciente; para 
  a minha pobreza, Vossa Senhoria poder ministrar a mezinha da priso; mas, 
  quanto ao sabermos se eu teria pacincia para seguir as vossas prescries,  
  ponto sobre o qual os sbios podem alimentar uma dracma de escrpulos, ou, 
  ainda, um escrpulo inteiro.
       LORDE JUIZ - Mandei chamar-vos para falar-me, quando pendiam sobre vs 
  acusaes de importncia vital.
       FALSTAFF - E eu, seguindo nisso o parecer do meu advogado, que  muito 
  entendido nas leis do pas, no compareci.
       LORDE JUIZ - Bem; mas a verdade, Sir John,  que viveis em grande 
  relaxamento.
       FALSTAFF - Quem afivela um cinto do tamanho do meu, no pode viver com 
  menos.
       LORDE JUIZ - Vossos meios so escassos e os gastos excessivos.
       FALSTAFF - Quisera que fosse o inverso: os meios, maiores, e o desgaste, 
  insignificante.
       LORDE JUIZ - Desencaminhastes o jovem prncipe.
       FALSTAFF - Foi o jovem prncipe que me desencaminhou; eu sou o homem de 
  ventre volumoso e ele o meu co.
       LORDE JUIZ - Bem; no quero reabrir uma ferida que acabou de cicatrizar; 
  vossos feitos do dia de Shrewsbury douraram, de algum modo, as faanhas 
  noturnas de Gadshill; podeis agradecer  inquietao da poca a quietude com 
  que tudo isso terminou.
       FALSTAFF - Milorde!
       LORDE JUIZ - Mas, uma vez que tudo est bem, acomodai-vos; no desperteis 
  o lobo que dorme.
       FALSTAFF - Despertar um lobo  to ruim como cheirar uma raposa.
       LORDE JUIZ - Sois uma vela, cuja parte melhor j se gastou.
       FALSTAFF - Uma vela de festa, milorde; toda de sebo, infelizmente. Fosse 
  ela de cera de minha fabricao, no pararia de crescer.
       LORDE JUIZ - Todos esses fios brancos da barba deveriam dar testemunho de 
  vossa gravidade.
       FALSTAFF - Gravidade, gravidade, peso...
       LORDE JUIZ - A todas as partes seguis o prncipe como seu anjo ruim.
       FALSTAFF - No  bem isso, milorde; vosso anjo ruim  leve demais; mas 
  penso que basta verem-me para me aceitarem sem pesar-me; mas, ainda assim, 
  concordo que, sob certos aspectos, no posso entrar em circulao. Nesta poca 
  de verdureiros, a virtude  to pouco acatada, que o valor legtimo se tornou 
  guardador de ursos; o engenho virou taberneiro, malgastando em contas a 
  agudeza de esprito; os demais dotes do homem, do jeito que os deforma a 
  corrupo do sculo, no valem uma groselha. Os velhos como vs, no percebem 
  as faculdades que ns, moos, possumos; calculais o valor de nosso fgado 
  pelo amargor de vossa bile; e ns, que nos encontramos na vanguarda da 
  mocidade, foroso ser confessar, somos por vezes bem marotos.
       LORDE JUIZ - Inscreveis o vosso nome na lista da juventude, assinalado, 
  como o estais, com os caracteres da velhice? No tendes olhos midos, mos 
  secas, faces descoradas, barba branca, pernas cada vez mais curtas, ventre a 
  aumentar sempre de volume? No tendes a voz entrecortada, o flego curto, o 
  queixo duplo, o esprito simples, todas as vossas faculdades, em suma, 
  estragadas pelo tempo? E apesar de tudo, vos chamais de jovem. Ora, Sir John!
       FALSTAFF - Milorde, eu nasci por volta das trs horas da tarde com a 
  cabea branca e o ventre um tanto crescido. Quanto  minha voz, estraguei-a  
  fora de cantar no coro. No vos apresentarei outras provas de minha 
  juventude; a verdade  que eu s sou velho no juzo e no entendimento; quem 
  quiser apostar cabriolas comigo, por mil marcos,  s passar-me o dinheiro e 
  cuidar de si. Quanto  bofetada que vos deu o prncipe, deu-a como prncipe 
  grosseiro, e vs a recebestes como lorde sensvel. Repreendi-o por esse ato, 
  penitenciando-se o leozinho do que fez, no, evidentemente, entre cilcio e 
  cinzas, mas com vestes novas de seda e xerez velho.
       LORDE JUIZ - Que Deus conceda ao prncipe um companheiro melhor!
       FALSTAFF - Que Deus conceda ao companheiro um prncipe melhor! No posso 
  livrar-me dele.
       LORDE JUIZ - Bem; o rei j vos separou do Prncipe Harry. Ouvi dizer que 
  seguis com Lorde Joo de Lencastre contra o arcebispo e o Conde de 
  Northumberland.
       FALSTAFF - Sim, graas ao vosso amvel e delicioso esprito. Todos os que 
  beijais em casa a milady Paz, rezai para que os nossos exrcitos no se 
  encontrem em dia muito quente, porque s trouxe comigo duas camisas, no 
  pretendendo suar muito. Se tal se der em um dia quente e eu brandir alguma 
  coisa alm de minha garrafa, no quero cuspir branco nunca mais. No pode 
  aparecer um caso perigoso, sem que me joguem no meio. Est certo: no hei de 
  durar eternamente; mas  sestro velho de nossa nao inglesa banalizar o que 
  tem de bom. Mas, uma vez que insistis em dizer que eu j estou velho, 
  devereis arranjar meios de eu descansar. Prouvesse Deus que meu nome fosse 
  menos temido do inimigo. Preferira que a ferrugem me gastasse a ver-me 
  reduzido a nada por um movimento perptuo.
       LORDE JUIZ - Bem; sede honesto; sede honesto; e que Deus abenoe vossa 
  expedio.
       FALSTAFF - Vossa Senhoria no estaria disposto a emprestar-me mil libras 
  para o meu equipamento?
       LORDE JUIZ - Nem um pni! Nem um pni! Mostrais-vos muito pressuroso em 
  carregar os cruzados. Passai bem; recomendai-me ao primo Westmoreland.
       (Saem o Lorde Grande Juiz e o beleguim)
       FALSTAFF - Se o fizer, que me achatem a marretadas.  to impossvel a um 
  mortal separar a velhice da avareza, como da luxria a mocidade; a gota 
  atormenta uma e o mal glico belisca outra, motivo por que ambas dispensam a 
  minha maldio. Rapaz!
       PAJEM - Senhor!
       FALSTAFF - Quanto dinheiro h na bolsa?
       PAJEM - Sete vintns e dois pences.
       FALSTAFF - No posso encontrar remdio para a consumpo da bolsa; pedir 
  emprestado s serve de paliativo, que o mal  incurvel. Leva esta carta para 
  milorde de Lencastre; esta outra para o prncipe; esta para o Conde de 
  Westmoreland, e esta para a velha Mistress Ursula, a quem todas as semanas 
  juro desposar, desde que percebi o primeiro fio branco em minha barba. Toca! 
  J sabes onde encontrar-me. (Sai o pajem.) Que o mal glico leve a esta gota, 
  ou esta gota ao mal glico! Ambos se divertem no dedo de meus ps. No 
  importa; se eu mancar, a guerra servir de pretexto; assim, a minha penso 
  parecer mais justa. Quem tem cabea, aproveita tudo; vou tirar partido das 
  doenas.



  CENA III
  York. Um quarto no palcio do arcebispo. Entram o arcebispo de York e Lordes 
  Mowbray, Bardolfo e Hastings. 
   
       ARCEBISPO - Conheceis nossa causa e nossos meios. Nobres amigos, peo-vos 
  dizer-me francamente o que achais de nossos planos. O Lorde Marechal fale 
  primeiro.
       MOWBRAY - Convenho com as razes de nossas armas, mas desejara que se me 
  explicasse como, com nossos meios, poderemos olhar com fronte altiva e assaz 
  possante para a fora e o poder do soberano.
       HASTINGS - Nossa revista revelou que temos vinte e cinco mil homens 
  escolhidos, sem se meter em conta que do grande Northumberland nos chegaro 
  reforos, pois seu peito se abrasa com as injrias recebidas.
       LORDE BARDOLFO - O caso, pois, Lorde Hastings, se reduz a saber se os 
  vinte e cinco mil homens podero lutar sem ele.
       HASTINGS - Com ele, poderemos.
       LORDE BARDOLFO - Eis a dvida. Mas, se sem ele nos julgarmos fracos, 
  penso que no devemos ir mais longe antes de vir o auxlio que esperamos, pois 
  num plano de face to sangrenta no cabem conjeturas, aparncias ou espera de 
  reforos duvidosos.
       ARCEBISPO - Tendes razo, Lorde Bardolfo; deu-se isso mesmo em 
  Shrewsbury, com Hotspur.
       LORDE BARDOLFO - Sim, milorde; entupiu-se de esperanas, comendo o ar de 
  promessas de socorros; lisonjeou-se com a idia de um reforo menor que o mais 
  modesto dos seus sonhos; e assim, com sua grande fantasia, prpria de louco, 
  os seus levou  morte, jogando-se no abismo sem ver nada.
       HASTINGS - Perdo! No vejo mal em desejarmos o plausvel e em termos 
  esperanas.
       LORDE BARDOLFO - Como no h? Em guerra desta espcie, dado o primeiro 
  passo, a ao premente, ter esperana  estar contando com esses botes que a 
  primavera deita cedo, produzindo menor expectativa de virem a dar fruto do que 
  medo de mordidas da geada. Quando vamos construir, estudamos o terreno, 
  traamos o modelo, e ao contemplarmos o desenho da casa  que fazemos o 
  clculo do custo da obra toda. Se vemos que ultrapassa nossos meios, que 
  fazemos, se no traar um plano menos custoso, ou mesmo pr de lado a idia de 
  construir? Principalmente nesta obra gigantesca, em que se trata de derrubar 
  um reino e de erguer outro, devemos estudar bem o terreno da situao, rever 
  todo o modelo, acordar na questo dos alicerces, falar com o construtor, pesar 
  os meios, ver se estes so idneos e capazes de contrabalanar os do inimigo. 
  De outro modo,  ser forte em algarismos e no papel,  usar apenas nomes em 
  lugar de seus donos, como aquele que concebesse o plano de uma casa sem pensar 
  nos recursos e a largasse por terminar, deixando a parte feita com tanto custo 
  s lgrimas das nuvens e  tirania rstica do inverno.
       HASTINGS - Dado que nossos sonhos to risonhos morram no nascedouro e que 
  tenhamos o ltimo homem que fora de esperar, penso que, como estamos, 
  poderemos medir-nos com as foras do monarca.
       LORDE BARDOLFO - Como! S conta o rei com vinte e cinco mil homens, 
  porventura?
       HASTINGS - Contra ns, apenas isso; no, nem tanto, Lorde Bardolfo, que 
  suas foras, nestes tempos de tumulto, em trs corpos se partiram: contra os 
  franceses, um; contra Glendower, o segundo; foroso  que um terceiro destine 
  contra ns. Desta arte o dbil rei se divide em trs, s ressoando seus cofres 
  com o vazio da penria.
       ARCEBISPO - No  de recear que ele reuna num s corpo suas foras 
  divididas e venha contra ns.
       HASTINGS - Se tal fizer, desguarnece as espduas, com os franceses e os 
  galeses ladrando-lhe no rasto. Disso no vos temais.
       LORDE BARDOLFO - Quem poderia vir contra ns  frente de suas foras?
       HASTINGS - Westmoreland e o Duque de Lencastre; ele prprio e Monmouth, 
  contra os galeses, mas no tenho notcias muito certas de quem vai contra a 
  Frana.
       ARCEBISPO - Avante, pois! Demos a conhecer nossos motivos. E por prpria 
  eleio que o Estado sofre; seu muito vido amor se mostra farto. Casa 
  vertiginosa e pouco firme tem quem constri no corao da plebe.  cega 
  multido! Com que atroadores aplausos abenoaste Bolingbroke antes dele 
  tornar-se o que querias que fosse! E ora que se acha acomodado segundo os teus 
  desejos, to saciado, gluto bestial, te mostras, que provocas irritao com o 
  fim de vomit-lo. Assim, povo canino, de teu ventre insacivel lanaste o Rei 
  Ricardo, e agora desejaras novamente comer o corpo morto que expeliste, 
  chamando-o com teus ladros. Tempo ingrato! Os que queriam ver Ricardo morto, 
  quando ele ainda vivia, esto agora de sua sepultura enamorados. Tu que 
  lanaste terra em sua cabea, quando ele, a suspirar, atravessava Londres 
  altiva, no soberbo rasto de Bolingbroke, gritas agora: " terra! restitui-nos 
  aquele rei, toma este!" O pensamento de malditos: o que , no tem valor; s 
  ao que foi e h de ser se vota amor!
       MOWBRAY - Reunimos nossos homens? Partiremos?
       HASTINGS - Somos filhos do tempo; no paremos.
       (Saem.)



  ATO II
  CENA I
  Uma rua de Londres. Entram Mistress Quickly, Garra e seu criado, seguidos de 
  Cilada.
   
       ESTALAJADEIRA - Entrastes com a ao em juzo. mestre Garra?
       GARRA - Perfeitamente.
       ESTALAJADEIRA - Onde est vosso oficial?  sujeito de confiana? No 
  baquear antes do tempo?
       GARRA - Ol! Onde est Cilada?
       ESTALAJADEIRA - Oh, senhor! O bom mestre Cilada!
       CILADA - Aqui estou! Aqui estou!
       GARRA - Cilada, temos de prender Sir John Falstaff.
       ESTALAJADEIRA - Sim, bom mestre Cilada, intentamos-lhe uma ao completa.
       CILADA - Pode bem dar-se que uns tantos tenhamos de perder a vida, que  
  certo fazer ele uso do punhal.
       ESTALAJADEIRA - Que dia! Tomai cuidado! Apunhalou-me em minha prpria 
  casa e de maneira mais brutal. Uma vez arrancada a arma, no mede as 
  conseqncias; d botes que nem o diabo, sem perdoar homem, mulher ou criana.
       GARRA - Uma vez grudado com ele, pouco me importam seus botes.
       ESTALAJADEIRA - Nem eu, tampouco; ficarei perto, para ajudar.
       GARRA - Se chegar a dar-lhe ao menos um murro... Se ele me cair nas 
  unhas...
       ESTALAJADEIRA - Sua partida me arruina. Asseguro-vos que a conta dele, 
  aqui em casa, no tem fim. Bom mestre Garra, segurai-o firme; bom mestre 
  Cilada, cuidado, no o deixeis escapar. Ele vem sempre a Pie-Corner - com 
  licena do vosso respeito - comprar sela, e est agora invitado a jantar na 
  "Cabea de Leopardo",  Rua de Lumbert, com mestre Smooth, comerciante de 
  seda. Pelo amor de Deus, uma vez que a minha ao j deu entrada e que todo o 
  mundo sabe do meu caso, obrigai-o a prestar contas. Cem marcos  muita coisa 
  para uma mulher sozinha. No entanto, eu agentei, agentei, agentei; e ele 
  foi adiando, adiando, de um dia para outro, que d vergonha s em record-lo. 
  Isso no  srio, a menos que se faa da mulher um asno, um animal para 
  suportar os mal-feitos de qualquer maroto. Ali vem ele, acompanhado do 
  consumado velhaco de nariz de malvasia, o tal de Bardolfo. Cumpri vosso 
  ofcio, mestre Garra e mestre Cilada; cumpri-me vosso ofcio.
       (Entram Sir John Falstaff, o pajem e Bardolfo.)
       FALSTAFF - Ento? De quem era a mula que morreu? Que novidades h?
       GARRA - Sir John, eu vos detenho a requerimento de mistress Quickly.
       FALSTAFF - Para trs, canalha! Saca da espada, Bardolfo! Corta-me a 
  cabea a esse velhaco! Atira essa bruaca no canal!
       ESTALAJADEIRA - Atirar-me ao canal? Eu  que vou atirar-te ao canal, 
  bastardo imundo. Experimenta, experimenta! Homicdio! Homicdio! Velhaco 
  assassino, pretendes matar os oficiais de Deus e do rei? s um assassino, um 
  matador de homens e de mulheres.
       FALSTAFF - Espalha essa canalha, Bardolfo.
       GARRA - Socorro! Socorro!
       ESTALAJADEIRA - Boa gente, ajudem aqui... Uma ou duas pessoas... Ah!  
  assim? No queres, no? Toma, velhaco; toma, assassino.
       FALSTAFF - Desafasta, lava-pratos! Vbora! coisa -toa! se no queres que 
  te faa ccegas na catstrofe.
       (Entra o Lorde Grande Juiz com seu squito.)
       LORDE JUIZ - Que aconteceu? Quietos, eh!
       ESTALAJADEIRA - Meu bom senhor, sede-me favorvel; ficai do meu lado, por 
  compaixo.
       LORDE JUIZ - Ento, Sir John! Aqui nesta algazarra? Condiz isso com vosso 
  tempo e cargo, com vossa posio? Na estrada de York  que h muito deveis de 
  encontrar-vos.
       ESTALAJADEIRA - Oh meu muito venervel lorde, com licena de Vossa Graa, 
  eu sou uma pobre viva de Eastcheap, e ele est detido a meu requerimento.
       LORDE JUIZ - E quanto  a soma que ele deve?
       ESTALAJADEIRA -  mais do que soma, milorde;  tudo junto, tudo o que eu 
  tenho. Devorou-me com a casa e os bens; ps toda a minha substncia naquele 
  ventre enxundioso. Mas hei de recuperar alguma coisa; se no, hei de 
  cavalgar-te, como pesadelo, todas as noites.
       FALSTAFF - Eu  que poderia montar na mula, se tivesse a vantagem do 
  terreno.
       LORDE JUIZ - Que significa isso, Sir John! Que vergonha! Que homem 
  honesto suportaria semelhante tempestade de exclamaes? No vos envergonhais 
  de obrigar uma pobre viva a recorrer a meios to speros para recuperar o que 
  lhe pertence?
       FALSTAFF - Quanto te devo ao todo, afinal?
       ESTALAJADEIRA - Por minha alma, se fosses homem de bem, confessarias que 
  me deves tua pessoa e mais o dinheiro que me pediste. Juraste-me sobre uma 
  taa meio dourada, sentado no meu quarto do Delfim, na mesa redonda, ao p de 
  um bom fogo de carvo, numa quarta-feira de Pentecostes, quando o prncipe te 
  quebrou a cabea por haveres comparado seu pai a um cantor de Windsor - no 
  juraste, quando eu te lavava a ferida, que haverias de casar comigo e fazer-me 
  milady tua esposa? Atreves-te a neg-lo? No entrou nesse momento a boa Keech, 
  mulher do aougueiro, e no me tratou ela de comadre Quickly? No veio ela 
  pedir-me um pouco de vinagre, dizendo que tinha um bom prato de camares; e 
  no desejaste comer alguns, tendo eu dito no ser bom para ferida aberta? E 
  no me disseste, quando ela desceu as escadas, que eu no devia mostrar-me 
  familiar com gente baixa, acrescentando que dentro de pouco tempo me chamariam 
  madame? E no me beijaste, ento, pedindo que te fosse buscar trinta xelins? 
  Vamos; avivo-te agora o juramento; nega-o, se fores capaz.
       FALSTAFF - Milorde, esta pobre mulher  louca; anda espalhando pela 
  cidade que o seu filho mais velho se parece convosco. J esteve bem; mas a 
  verdade  que a pobreza a deixou avariada das idias. No que respeita a estes 
  oficiais imbecis, peo-vos que me deixeis desagravar-me.
       LORDE JUIZ - Sir John, Sir John, conheo perfeitamente vosso costume de 
  torcer a boa causa pelo mau caminho. No h de ser um semblante confiado, nem 
  esse chorrilho de palavras que deixais escapar com descaramento mais que 
  impudente, que me faro quebrar a serenidade. Parece-me claro que abusastes do 
  esprito crdulo desta mulher, levando-a a servir-vos com a bolsa e com a 
  pessoa.
       ESTALAJADEIRA -  isso mesmo, milorde.
       LORDE JUIZ - Caluda! Pagai o que lhe deveis, e reparai a vilania que lhe 
  fizestes; uma coisa, poder ser feita com moeda corrente; a outra, com 
  arrependimento sincero.
       FALSTAFF - Milorde, no deixarei passar sem protesto semelhante 
  repreenso. Chamais de descaro impudente a franqueza honrada. Para vs  
  virtuoso todo indivduo que se desmancha em mesuras e no vos objeta coisa 
  alguma. No, milorde; sem me olvidar de meu humilde dever, no vos falarei 
  como suplicante; digo-vos apenas que preciso ficar livre destes oficiais, 
  porque me encontro em misso urgente, da parte de Sua Majestade.
       LORDE JUIZ - Falais como se tivsseis poder para fazer o mal; mas 
  respondei de acordo com vosso carter e satisfazei a essa pobre mulher.
       FALSTAFF - Vem aqui, estalajadeira.
       (Chama-a  parte.)
       (Entra Gower.)
       LORDE JUIZ - Ento, mestre Gower! Que novidades h?
       GOWER - O rei, milorde, e o Prncipe de Gales esto perto; o restante a 
  carta o diz.
       (Entrega uma carta.)
       FALSTAFF - Pela minha qualidade de gentil-homem!
       ESTALAJADEIRA - Isso mesmo j o dissestes outras vezes.
       FALSTAFF - Palavra de cavaleiro! Vamos, no falemos mais nisso.
       ESTALAJADEIRA - Por este cho celeste em que eu piso, vejo-me forada a 
  empenhar toda a minha baixela de prata e os tapetes das salas de jantar.
       FALSTAFF - Copos, copos,  s do que se necessita para beber! Quanto s 
  paredes, qualquer coisa engraada, ou a histria do filho prdigo, ou a caada 
  alem em aquarela valem mais do que mil dessas cortinas de cama ou desses 
  tapetes comidos de moscas. Que sejam dez libras, se te for possvel. Vamos, 
  tirando o teu gnio, no h mulher to boa como tu em toda a Inglaterra. Vai 
  lavar o rosto e retirar a queixa. Vamos, no te aborreas comigo. No me 
  conheces? Vamos, vamos; sei bem que foste insinuada.
       ESTALAJADEIRA - Por favor, Sir John, vinte nobres no bastariam? Juro que 
  me custa empenhar as minhas pratas; por Deus!
       FALSTAFF - Ento no falemos mais nisso; saberei arranjar-me; s a tonta 
  de sempre.
       ESTALAJADEIRA - Pois hei de obter essa importncia, ainda que tenha de 
  empenhar a prpria roupa. Penso que viestes para cear. Pagar-me-eis tudo 
  junto, no  verdade?
       FALSTAFF - Viverei? (A Bardolfo.) Vai com ela! Vai com ela! No a deixes!
       ESTALAJADEIRA - Quereis que eu convide Doll Tearsheet para a ceia?
       FALSTAFF - Nem mais uma palavra; que venha.
       (Saem mistress Quickly, Bardolfo, oficiais e o pajem.)
       LORDE JUIZ - Ouvi melhores notcias.
       FALSTAFF - Quais so, meu bom lorde?
       LORDE JUIZ - Onde dormiu o rei a ltima noite?
       GOWER - Em Barsingstoke, milorde.
       FALSTAFF - Espero, milorde, que tudo esteja bem; quais so as notcias, 
  milorde?
       LORDE JUIZ - Todas as suas foras j voltaram?
       GOWER - Mil e quinhentos pees e mais quinhentos de cavalo seguiram para 
  unir-se s foras de milorde de Lencastre, contra Northumberland e o bispo de 
  York.
       FALSTAFF - Volta o rei ao pas de Gales, meu nobre lorde?
       LORDE JUIZ - Breve entregar-vos-ei algumas cartas. Vinde comigo, meu bom 
  mestre Gower.
       FALSTAFF - Milorde!
       LORDE JUIZ - Que  que h?
       FALSTAFF - Mestre Gower, poderei convidar-vos para cear comigo?
       GOWER - Tenho de aguardar aqui as ordens de meu bom lorde. Muito 
  obrigado, meu bom Sir John.
       LORDE JUIZ - Sir John, perdeis muito tempo por aqui, visto estardes 
  incumbido de recrutar soldados nos condados por que passardes.
       FALSTAFF - Quereis cear comigo, mestre Gower?
       LORDE JUIZ - Qual foi o tonto que vos ensinou essas maneiras, Sir John.
       FALSTAFF - Mestre Gower, se elas no me vo bem,  que foi um tonto quem 
  mas ensinou. A perfeita graa da esgrima, milorde, consiste nisto: elas por 
  elas, e ao se separarem, os amigos de sempre.
       LORDE JUIZ - Que o Senhor te ilumine! s um grande louco.
       (Saem.) 



  CENA II
  Londres. Outra rua. Entram o prncipe e Poins.
   
       PRNCIPE - Podes crer que me sinto cansado a mais no poder.
       POINS - Chegou a esse ponto? Sempre pensei que o cansao no ousasse 
  ligar-se a pessoa de to alto sangue.
       PRNCIPE - No entanto,  o que se d comigo, embora confess-lo faa 
  empalidecer a minha grandeza. No  sinal de vulgaridade, em mim, ter vontade 
  de beber cerveja fraca?
       POINS - No se concebe um prncipe com educao negligente a esse ponto, 
  para lembrar-se, sequer, de composio to mesquinha.
       PRNCIPE -  que, com certeza, o meu apetite no  de natureza real, pois 
  no me sai da idia essa pobre criatura, a cerveja fraca. Em verdade, essas 
  consideraes humildes me fazem detestar a prpria grandeza. Que desgraa  
  para mim lembrar-me de teu nome, ou ter de ver amanh o teu rosto, ou observar 
  quantos pares de meia de seda possuis, a saber, essas a e as que j foram de 
  cor de pssego; ou fazer o inventrio de tuas camisas, mais ou menos deste 
  jeito: uma no corpo e uma sobressalente... Nesse ponto o guarda do campo de 
  tnis  ainda mais bem informado do que eu, porque quando empunhas uma raqueta 
   que andas em mar baixa de roupa, o que h muito tempo no se d, por terem 
  os pases-baixos achado jeito de consumir a tua holanda. S Deus sabe se 
  chegaro a herdar o teu reino os que andam a berrar nas runas de tua roupa 
  branca. Alis, dizem as parteiras que as crianas no tm culpa; e com isso o 
  mundo se povoa e a parentela se fortalece cada vez mais.
       POINS - Como vos fica mal falar tanta futilidade depois de haverdes 
  trabalhado com tanto afinco! Dizei-me, quantos jovens prncipes fariam o que 
  fazeis, se tivessem os pais no estado em que se encontra o vosso?
       PRNCIPE - Queres que te diga uma coisa, Poins?
       POINS - Sim, com tal que seja algo excelente.
       PRNCIPE - Ser adequado para entendimentos do alcance do teu.
       POINS - Pois que venha; agentarei de p firme o que disserdes.
       PRNCIPE - Pois digo-te que no fica bem mostrar-me triste com a doena 
  de meu pai, conquanto pudesse assegurar-te como a algum a quem me apraz, em 
  falta de melhor, chamar de amigo - que estou, de fato, bem triste, bem triste 
  mesmo.
       POINS - Ningum acreditar que seja por essa causa.
       PRNCIPE - Juro-te por esta mo! Pensas que eu j me encontro no livro do 
  Diabo, como tu e Falstaff, por perversidade e obstinao? O tempo se incumbir 
  de prov-lo; mas afiano-te que, por dentro, o meu corao est sangrando, por 
  causa do estado de meu pai.  pelo fato de freqentar companhias to vis, como 
  a tua, que me cobo de qualquer demonstrao de tristeza.
       POINS - E a razo?
       PRNCIPE - Que pensarias de mim, se me visses chorar?
       POINS - Pensaria que s o mais principesco dos hipcritas.
       PRNCIPE -  o que todo o mundo haveria de pensar, tambm; s um rapaz 
  feliz, por pensares como todo o mundo. No h pensamento que trilhe to bem a 
  estrada batida como o teu; de fato; todo o mundo me tomaria por hipcrita. E 
  que  o que leva vosso muito digno pensamento a pensar dessa maneira?
       POINS - Ora essa, por terdes sido sempre dissoluto e muito ligado a 
  Falstaff.
       PRNCIPE - E a ti.
       POINS - Por esta luz, eu no ando na boca do povo, e o que se diz de mim, 
  posso ouvi-lo com estes ouvidos. O pior que podero dizer  que sou irmo 
  segundo e que sei valer-me das mos, coisas essas, confesso-o sem rebuos, que 
  no est em mim modificar. Pela Santa Missa! A vem Bardolfo!
       (Entram Bardolfo e o pajem.)
       PRNCIPE - Juntamente com o pajem que eu dei a Falstaff. Entreguei-lhe um 
  cristo; v agora como aquele velhaco obeso fez dele um macaco.
       BARDOLFO - Deus salve a Vossa Graa!
       PRNCIPE - E a vossa tambm, muito nobre Bardolfo.
       BARDOLFO (ao pajem) - Chega-te mais para perto, asno virtuoso! tolo 
  envergonhado! Precisas corar dessa maneira? Por que ficares rubro? Que soldado 
  virgem me saste!  to grande coisa, assim, roubar a virgindade de um jarro 
  de cerveja?
       PAJEM - H pouco, milorde, ele me chamou atravs de umas rtulas 
  vermelhas, o que impediu que eu lhe distinguisse o rosto, a tal ponto se 
  confundia com a janela! Por fim, percebi-lhe os olhos, e tive a impresso de 
  que ele houvesse feito dois furos na saia nova da taberneira, por onde me 
  estivesse espiando.
       PRNCIPE - No  que o rapazinho aproveitou?
       BARDOLFO - Fora daqui, maldito coelho de dois ps; fora!
       PAJEM - Fora daqui, tambm, indecente sonho de Altia!
       PRNCIPE - Explica-nos isso, pajem; de que sonho se trata?
       PAJEM - No o sabeis, milorde? Altia sonhou que havia parido um tio 
  ardente.  por isso que lhe chamo sonho de Altia.
       PRNCIPE - Essa explicao vale uma coroa. Toma para ti, rapaz.
       (D-lhe dinheiro.)
       POINS - Prouvera que semelhante flor se livrasse dos vermes! Bem, aqui 
  tens mais seis pences para te protegerem.
       BARDOLFO - Se no conseguirdes que ele vos faa companhia na forca, o 
  prejuzo ser desta.
       PRNCIPE - Como vai passando teu amo, Bardolfo?
       BARDOLFO - Bem, milorde; soube que Vossa Graa se encontrava na cidade e 
  mandou-vos esta carta.
       POINS - Que foi mui respeitosamente entregue. E como vai passando o 
  veranico do teu patro?
       BARDOLFO - Com sade corprea, senhor.
       POINS - Com a breca! A parte imortal necessita de mdico; mas isso pouco 
  se lhe d; embora doente, no h de morrer.
       PRNCIPE - Tenho permitido a esse quisto a mesma familiaridade que a meu 
  co, do que ele sabe tirar partido. Vede s como me escreve.
       POINS - "John Falstaff, cavaleiro."  o que todo o mundo tem de ficar 
  sabendo, sempre que encontra ensejo para falar de si mesmo, exatamente como 
  certas pessoas aparentadas com o rei, que no se espetam no dedo sem exclamar: 
  "L se vai um pouco de sangue real." "Como assim?", pergunta quem quer que 
  finja no ter compreendido a aluso, a que se segue a resposta to pronta como 
  a saudao de quem usa gorro emprestado: "E que eu sou o pobre primo do rei, 
  senhor".
       PRNCIPE - Sim, querem ser nossos parentes, ainda que tenham de subir at 
  Jaf. Mas vamos  carta.
       POINS - "Sir John Falstaff, cavaleiro, ao filho do rei, o primeiro depois 
  de seu pai, Henrique, Prncipe de Gales, cumprimentos." Parece mais uma 
  certido.
       PRNCIPE - Caluda!
       POINS - "Imitarei o honrado Romano em sua brevidade." Refere-se, sem 
  dvida,  brevidade do flego,  curteza da respirao. "Eu me recomendo a ti, 
  eu te recomendo e eu te deixo. No sejas muito familiar com Poins, porque ele 
  abusa de teus favores, a ponto de jurar que ests para casar com sua irm 
  Nell. Penitencia-te como puderes nas horas vagas, e com isso, adeus. Teu, sim 
  ou no - o que eqivale a dizer, conforme o tratares - Jack Falstaff, para os 
  meus familiares; John, para os meus irmos e irms; Sir John, para toda a 
  Europa." Milorde, vou enfiar esta carta em xerez e obrig-lo a engoli-la.
       PRNCIPE - Seria o mesmo que obrig-lo a engolir vinte de suas prprias 
  palavras. Mas,  assim que procedes comigo, Ned? E ento verdade que vou 
  casar-me com tua irm?
       POINS - Que Deus no conceda to ruim sorte  rapariga! Jamais disse 
  semelhante coisa.
       PRNCIPE - E assim gracejamos com o tempo, enquanto o esprito dos 
  sbios, sentado nas nuvens, troa de vs. Vosso amo est em Londres?
       BARDOLFO - Est, milorde.
       PRNCIPE - Onde se encontra? O velho javali ainda babuja no antigo 
  chiqueiro?
       BARDOLFO - No mesmo lugar, milorde; em Eastcheap.
       PRNCIPE - Em companhia de quem?
       PAJEM - Efsios, milorde, da velha igreja.
       PRNCIPE - Vo mulheres tambm  ceia?
       PAJEM - Nenhuma, milorde; com exceo de mistress Quickly e de mistress 
  Doll Tearsheet.
       PRNCIPE - Que espcie de pag  essa?
       PAJEM - Uma senhora alinhada, milorde, parenta de meu amo.
       PRNCIPE - Sim, parenta, do mesmo modo que as vacas da parquia o so dos 
  touros da cidade. Vamos surpreend-los durante a ceia, Ned?
       POINS - Sou vossa sombra, milorde; seguir-vos-ei a toda parte.
       PRNCIPE - Olha, rapazinho; e tu, Bardolfo: nem uma palavra a vosso amo 
  de que me encontro na cidade. Aqui tendes para ficardes calados.
       (D-lhes dinheiro.)
       BARDOLFO - No terei lngua, senhor.
       PAJEM - Quanto  minha, senhor, saberei govern-la.
       PRNCIPE - Passai bem; ide embora!
       (Saem Bardolfo e o pajem.)
       Essa Doll Tearsheet deve ser alguma estrada.
       POINS - Afiano-vos que  to freqentada quanto o caminho de Santo 
  Albano a Londres.
       PRNCIPE - Como ser possvel arranjar modo de vermos Falstaff em suas 
  verdadeiras cores, sem que ele o perceba?
       POINS - Ponhamos jaqueta de couro e avental e vamos servi-lo  mesa como 
  se fossemos empregados da taberna.
       PRNCIPE - De Deus a touro: que queda pesada! Foi o caso de Jpiter. De 
  prncipe a servente: que baixa transformao! Ser o meu caso, porque em todas 
  as coisas a inteno deve equilibrar-se com a loucura. Acompanha-me, Ned.
       (Saem.)



  CENA III
  Warkworth. Diante do castelo de Northumberland. Entram Northumberland, Lady 
  Northumberland e Lady Percy. 
   
       NORTHUMBERLAND - Querida esposa e meiga filha, curso deixai livre a meus 
  graves pensamentos; no tomeis as feies das circunstncias para serdes, como 
  elas, contra Percy.
       LADY NORTHUMBERLAND - J parei; no direi mais coisa alguma; fazei como 
  quiserdes; que vos guie vossa prudncia.
       NORTHUMBERLAND - Ah, minha doce esposa, minha honra est empenhada; 
  apenas essa resoluo consegue redimi-la.
       LADY PERCY - Por Deus do cu, no vades a essa guerra! J quebrastes, meu 
  pai, vossa palavra, quando dela pendeis mais do que hoje, na hora em que o 
  vosso Percy, o Harry querido de minha alma, lanava para o norte, tantas 
  vezes, o olhar, na expectativa da ajuda de seu pai. Mas foi debalde. Quem vos 
  suadiu a no sair de casa? Duas reputaes ali tombaram: a vossa e a dele. A 
  vossa - possa o brilho restituir-lhe o cu! - A de Harry Percy se lhe aderia 
  como o sol na abbada azul do firmamento, dirigindo com sua luz os fidalgos da 
  Inglaterra para altos feitos. Sim, ele era o espelho ante o qual a nobreza se 
  enfeitava; todos os prprios passos lhe imitavam; sua fala ceceosa - que do 
  bero lhe viera esse defeito - converteu-se em linguagem dos bravos, que at 
  os mesmos que podiam falar doce e pausado, trocavam pela mcula as vantagens, 
  para serem como ele. Na linguagem, no regime de vida, gostos, modo de andar, 
  nas preferncias, nos caprichos do sangue e nos preceitos militares, era o 
  espelho e o modelo, a cpia e o livro por que os outros se guiavam. E a ele - 
  que homem! verdadeiro milagre! - o abandonastes! Quem era sem segundo, 
  secundado no foi por vs; com desvantagem viu-se forado a olhar o horrvel 
  deus da guerra, a disputar um campo de batalha que como defenso contava 
  apenas com o som do nome Hotspur. Abandonado! Nunca, oh! nunca faais  sua 
  alma a afronta de serdes mais fiel aos outros que a ele. Deixai-os ss; o 
  marechal e o bispo se acham fortes. Se o meu querido Henrique tivesse tido 
  apenas a metade de seus homens, pendente do pescoo do meu Hotspur, agora eu 
  poderia falar da sepultura de Monmouth.
       NORTHUMBERLAND - Doce filha, maldigo esse teu gnio; privas-me da 
  coragem, lamentando-te por erros do. passado. Mas importa que eu mesmo v 
  buscar ali o perigo; do contrrio, ele alhures me procura, para achar-me, 
  qui, desprevenido.
       LADY NORTHUMBERLAND - Oh, foge para a Esccia, at que os nobres e as 
  comunas armadas ocasio tenham de se medir com os inimigos.
       LADY PERCY - Caso ganhem terreno e outras vantagens, uni-vos a eles como 
  viga de ao que lhes enrijar mais a pujana. Mas, por tudo o que amamos, que 
  a experincia eles faam primeiro. Vosso filho dessa arte procedeu; Vs o 
  quisestes; e assim eu enviuvei, sem que me seja dado viver bastante para as 
  minhas recordaes regar com o choro, a ponto de crescerem e o cu alto 
  atingirem, em memria do meu nobre marido.
       NORTHUMBERLAND - Vamos; entrai comigo; meu esprito, neste instante, se 
  encontra como as guas na mais alta mar, quietas e calmas, sem que defluam 
  para lado algum: de grado eu o arcebispo procurara, mas mil razes contrrias 
  me retm. Vou para a Esccia; ali deixo ficar-me, t que o tempo e a ocasio 
  vo l buscar-me.
       (Saem.)



  CENA IV
  Londres. Um quarto da taberna "Cabea de Javali", em Eastcheap. Entram dois 
  criados.
   
       PRIMEIRO CRIADO - Que diabo trouxeste a? Peras de So Joo? Bem sabes 
  que Sir John no suporta essas peras.
       SEGUNDO CRIADO - Com a breca! Tens razo. Certa vez o prncipe ps diante 
  dele um prato de peras de So Joo e lhe disse que ali se continham mais cinco 
  Sir Johns. Depois, tirando o chapu, disse: "Agora vou despedir-me destes seis 
  redondos, secos e enrugados cavaleiros". Isso o irritou at  alma; mas j 
  esqueceu.
       PRIMEIRO CRIADO - Nesse caso, cobre-as e vai servi-lo, para depois veres 
  se encontras a barulheira de Sneak; mistress Tearsheet gostaria de ouvir um 
  pouco de msica. Vamos, despacha-te! A sala em que eles ceiam est muito 
  quente; no demora, eles estaro a.
       SEGUNDO CRIADO - Olha, o prncipe e mestre Poins vo chegar daqui a 
  pouco; vo usar nossas jaquetas e aventais, mas Sir John no deve sab-lo; foi 
  o que Bardolfo veio dizer.
       SEGUNDO CRIADO - Vou ver se encontro Sneak.
       (Sai.)
       (Entram mistress Quickly e Doll Tearsheet.)
       ESTALAJADEIRA - E muito certo, coraozinho, parece que vos encontrais 
  agora em tima temperatura; vosso pulsozinho bate to extraordinariamente, 
  quanto pode desejar o corao, alm de estardes vermelha como uma rosa. 
  Verdade! Mas o fato  que bebestes canrias um pouco mais da conta, que  um 
  vinho que sobe  maravilha e perfuma o sangue antes que se possa perguntar: 
  que houve? Como vos sentis agora?
       DOLL - Melhor do que h pouco.
       ESTALAJADEIRA - Antes assim; um bom corao vale ouro. Vede! Sir John vem 
  vindo ali!
       (Entra Falstaff, cantando.)
       FALSTAFF - Quando Artur veio  corte a vez primeira... Vai despejar o 
  urinol!
       (Sai o primeiro criado.)
       Que grande rei aquele! Ento, mistress Doll?
       ESTALAJADEIRA - No est se sentindo bem; tem nuseas.
       FALSTAFF - Assim so todas; quando as deixamos calmas, adoecem.
       DOLL - Velhaco imundo,  esse o consolo que me ds?
       FALSTAFF - Deixais gordos os velhacos, mistress Doll.
       DOLL - Eu! Sou eu que os fao engordar? A gula e as doenas  que os 
  deixam estufados, no eu.
       FALSTAFF - Se o cozinheiro  auxiliar da gula, vs o sois das doenas, 
  Doll.  de vs que as apanhamos, Doll;  de vs que as apanhamos. Concordai 
  nisso, minha virtude; concordai nisso.
       DOLL - Sim, de ns apanhais jias e correntes.
       FALSTAFF - Ah, vossos broches, prolas e brincos! pois, como bem o 
  sabeis, quem serve como bravo, volta coxo. Avanar para a brecha, brandindo a 
  lana como um bravo, e enfrentar bravamente o cirurgio... Aventurar-se contra 
  as peas carregadas...
       DOLL - Vai te enforcar, congro imundo!
       ESTALAJADEIRA -  sempre a mesma histria! Nunca estais juntos sem 
  brigar. Sois to reumticos como duas torradas secas; um no suporta as 
  conformidades do outro. Ora, por tudo o que h!  preciso que um agente o 
  outro, e isso compete a vs, por serdes o vaso mais fraco, como eles dizem, o 
  mais vazio.
       DOLL - Como pode um vaso fraco e vazio suportar um tonel cheio como este? 
  Traz no corpo um carregamento de bordus. Nunca se viu navio to carregado. 
  Mas faamos as pazes, Jack, uma vez que vais para a guerra. Quanto a saber-se 
  se ainda voltarei a ver-te,  assunto que no interessa a ningum.
       (Volta o primeiro criado.)
       PRIMEIRO CRIADO - Senhor, o porta-bandeira Pistola est l em baixo e 
  deseja falar-vos.
       DOLL - Enforquem esse maldizente de uma figa! No o deixeis entrar aqui; 
  no h boca mais suja em toda a Inglaterra.
       ESTALAJADEIRA - Se ele  maldizente, no o deixeis entrar. No, por Deus! 
  Preciso viver bem com os vizinhos; no quero saber de mexeriqueiros; gozo de 
  bom nome e boa fama entre a melhor gente. Fechai as portas! Aqui no entra 
  nenhum maldizente; no cheguei com a vida at hoje para vir a ser falada. 
  Peo-vos a todos; fechai as portas.
       FALSTAFF - Escuta, estalajadeira...
       ESTALAJADEIRA - Nada de histrias, Sir John; no me venhais com essa! O 
  vosso insigne maldizente no pisar dentro destas paredes. No outro dia eu fui 
  apresentada ao mestre Fsico, deputado, e, como ele me disse - e no faz muito 
  tempo, foi na quinta-feira ltima - "Vizinha Quickly", disse-me ele - 
  achava-se presente mestre Dumbe, nosso ministro - "vizinha Quickly", disse-me 
  ele, "recebei em vossa casa apenas pessoas de bem, porque", disse ele, "no 
  gozais de boa reputao" - eu bem sei porque ele se exprimiu dessa maneira - 
  "porque", disse ele, "sois uma mulher honesta e considerada. Por isso, tende 
  cuidado com a espcie de gente a que dais acolhida; que no seja gente 
  desordeira". Dessa marca no me entra ningum. Haveis de benzer-vos, se o 
  houvsseis ouvido falar. No, no quero saber de maldizentes em minha casa.
       FALSTAFF - Ele no  maldizente, estalajadeira; um tanto falador,  
  certo, mas inofensivo. Podeis acarici-lo com tanta meiguice como a um pequeno 
  galgo; no faria frente a uma galinha de Berberia, se esta arrepiasse as penas 
  para defender-se. Manda-o subir, rapaz.
       (Sai o primeiro criado.)
       ESTALAJADEIRA - Falador, dissestes? No fecho a minha casa para nenhum 
  homem de bem, embora seja falador de profisso; mas detesto barulhos, 
  afiano-vos. Fico at doente, s de ouvir falar em arruaceiros. Vede, 
  senhores, como estou a tremer; podeis crer-me; olhai para isto.
       DOLL - Realmente, estalajadeira.
       ESTALAJADEIRA - No  verdade? Sim, por minha f, at pareo uma folha de 
  lamo, de tanto que eu tremo; no suporto arruaceiros.
       (Entram Pistola, Bardolfo e o pajem.)
       PISTOLA - Deus vos salve, Sir John!
       FALSTAFF - S bem-vindo, porta-bandeira Pistola. Eis aqui, Pistola: 
  carrego-te com um copo de xerez; agora descarrega na minha estalajadeira.
       PISTOLA - Vou descarregar nela, Sir John, com duas balas.
       FALSTAFF - Ela est  prova de pistola, meu caro senhor; dificilmente 
  podereis ofend-la.
       ESTALAJADEIRA - No sou eu que vou engolir vossas provas e vossas balas; 
  no bebo nada s para ser agradvel a quem quer que seja; s beberei o que me 
  fizer bem.
       PISTOLA - Ento ser convosco, mistress Dorotia; vou carregar-vos.
       DOLL - Carregar-me! Eu te arrenego, piolhento! Como! Um sujeito 
  esfarrapado, sem eira nem beira, um falador! Para trs, bolorento! Eu sou 
  iguaria s para o teu patro.
       PISTOLA - Ns nos conhecemos, mistress Doll.
       DOLL - Sai, indecente batedor de carteira! Ladro imundo, para trs! Por 
  este vinho, enfiarei minha faca nessa queixada podre, se vos meterdes comigo. 
  Para trs, botija de cerveja, espadachim desenxabido! Desde quando, senhor, 
  por obsquio? Tem graa! Por causa dessas duas riscas nos ombros, que no 
  valem nada?
       PISTOLA - Que Deus no me deixe viver! Vou assassinar-te a gorja por tudo 
  isso.
       FALSTAFF - Basta, Pistola! No desejo que estales aqui; vai descarregar 
  longe de nossa companhia.
       ESTALAJADEIRA - No, meu bom capito Pistola; aqui no, meu doce capito.
       DOLL - Capito! No te envergonhas, maldito, trapaceiro de uma figa, de 
  te chamarem de capito? Se os capites pensassem como eu, te dariam uma coa 
  por usares o ttulo antes de o mereceres. Capito tu, biltre? Capito por qu? 
  Por haveres arrebentado em um bordel a gola a uma pobre rapariga? Capito, 
  ele! Vai te enforcar, velhaco! Um sujeito que s come ameixas podres e bolo 
  seco! Capito! Pela luz divina, esses tratantes acabam deixando a palavra 
  capito to odiosa como a expresso possuir, que era vocbulo excelente antes 
  de lhe haverem emprestado acepo ruim. Os capites que tomem cuidado.
       BARDOLFO - Por favor, porta-bandeira, vai embora!
       FALSTAFF - Uma palavrinha, mistress Doll.
       PISTOLA - Daqui eu no saio! Digo-te uma coisa, sargento Bardolfo: 
  preciso vingar-me; vou deixar essa mulher em tiras.
       PAJEM - Por favor, descei logo.
       PISTOLA - Primeiro hei de v-la condenada por estas mos no lago danado 
  de Pluto, nas profundezas do inferno, debaixo do Erebo e das mais terrveis 
  torturas. Tirai a linha e o anzol,  s o que eu digo. Descer, ces? Descer, 
  traidores? No temos Irene aqui?
       ESTALAJADEIRA - Acomodai-vos, meu bom capito Pistola; j  tarde; 
  agravai a vossa clera.
       PISTOLA - Que brincadeira! Os animais de carga, esses sendeiros da sia, 
  ocos e fartos, que fazem trinta milhas s por dia, podem ser, por acaso, 
  comparados aos canibais e aos Csares, ou mesmo aos troianos da Grcia? No; 
  que sejam com o rei Crbero todos condenados, e ruja o firmamento. Acaso vamos 
  brigar por ninharias?
       ESTALAJADEIRA - Por minha f, capito; so bem amargas essas palavras.
       BARDOLFO Meu bom alferes, ide embora; isso vai acabar novamente em 
  barulho.
       PISTOLA - Que os homens morram como ces! Jogadas como alfinetes, 
  vejam-se coroas! No temos por acaso Irene aqui?
       ESTALAJADEIRA - Dou-vos minha palavra, capito;  o que no temos. Que 
  tempos! Pensais que o negaria? Acomodai-vos, pelo amor de Deus.
       PISTOLA - Ento, come a fartar, bela Calpolis! Vamos, d-me xerez. Si 
  fortuna me tormenta, sperato me contenta. Por que temer as salvas? Que o 
  inimigo faa fogo. Xerez, vamos! Repousa neste canto, benzinho.
       (Depe a espada.)
       Concluiremos? Vamos deixar de lado esses et cteras.
       FALSTAFF - Pistola, desejo ficar quieto.
       PISTOLA - Excelso cavaleiro, beijo-te a escrava. Ora! J no vimos o 
  sete-estrlo?
       DOLL - Jogai-o pelas escadas! No suporto a linguagem empolada desse 
  biltre.
       PISTOLA "Jogai-o pelas escadas"? Desconhecemos, acaso, os cavalinhos de 
  Galloway?
       FALSTAFF - Atira-o l para baixo, Bardolfo, como um xelim de jogo; se s 
  sabe dizer sandices, est sobrando aqui.
       BARDOLFO - Vamos, v descendo.
       PISTOLA - Vamos ter incises? fazer sujeiras?
       (Sacando da espada.)
       Acalenta-me, Morte, no meu sono! Encurta-me esta vida to sofrida! Que os 
  mais terrveis golpes e profundos cindam as trs irms. Atropos, vinde!
       ESTALAJADEIRA - Vai haver coisa grossa!
       FALSTAFF - D-me a minha espada, rapaz.
       DOLL - Jack, por compaixo, no saques da espada.
       FALSTAFF - Vamos, descei logo!
       (Empurra-o.)
       ESTALAJADEIRA - Que tumulto!  prefervel no ter casa a passar por 
  semelhantes trancos e sustos. Vai haver morte, podeis crer-me. Por favor! Por 
  favor! Embainhai as espadas, embainhai as espadas!
       (Saem Bardolfo e Pistola.)
       DOLL - Peo-te, Jack, fica quietinho; aquele birbante j se foi. Que 
  bandido valente me saste!
       ESTALAJADEIRA - No ests ferido na virilha? Quis parecer-me que ele vos 
  deu um bote traioeiro na barriga.
       (Volta Bardolfo.)
       FALSTAFF - Puseste-o porta fora?
       BARDOLFO - Sim, senhor; o velhaco est bbado; vs o feristes no ombro.
       FALSTAFF - Um biltre desses afrontar-me!
       DOLL - Ah, bandidinho querido! Pobre macaquito, como ests suando! Deixa 
  que te enxugue o rosto; vamos, presunto de uma figa. Ah, bandido! no h 
  dvida, amo-te muito. s to valente como Heitor de Tria; vales por cinco 
  Agammnones e dez vezes mais do que os nove heris. Ah, vilo!
       FALSTAFF - Miservel escravo! Vou mantear esse bandido.
       DOLL - Faze-o, se o corao te pede isso, que eu te ajudarei entre um par 
  de lenis.
       (Entram msicos.)
       PAJEM - Chegou a msica, senhor.
       FALSTAFF - Que toquem! Tocai, senhores! Doll, senta-te em meus joelhos. 
  Fanfarro miservel! O velhaco escapou-me como azougue.
       DOLL - Isso mesmo! E tu o perseguiste como uma igreja. Ah, bandido 
  leitozinho de So Bartolomeu! Quando deixars de brigar durante o dia e de 
  dar estocadas  noite para comeares a remendar o teu velho corpo para o cu?
       (Entram pelos fundos o prncipe e Poins, disfarados de criados.)
       FALSTAFF - Fica em paz, querida Doll; no fales como uma caveira; no me 
  obrigues a pensar no meu fim.
       DOLL - Ento dize-me de que humor  o prncipe.
       FALSTAFF - Um moo superficial; daria um bom padeiro; cortaria po  
  maravilha.
       DOLL - Dizem que Poins  muito espirituoso.
       FALSTAFF - Espirituoso! Que me enforquem esse macaco! Seu esprito  to 
  espesso quanto a mostarda de Tewksbury; no tem mais entendimento do que um 
  pedao de pau.
       DOLL - Ento por que o prncipe lhe dedica tanta afeio?
       FALSTAFF - Porque ambos tm as pernas do mesmo tamanho e ele joga malha 
  muito bem, come congro com funcho, engole tocos de vela acesos em lugar do 
  vinho, brinca de cavalo com as crianas em um cabo de vassoura, sabe pular por 
  cima dos bancos, blasfema com donaire, traz as botas sempre to justas como 
  pernas penduradas no portal, no se mete em barulhos por contar histrias 
  discretas, alm de outras faculdades de saltador, que so mostras de corpo 
  flexvel e de entendimento mesquinho, causas de aceit-lo o prncipe ao seu 
  lado. E que o prncipe  outro como ele, um fio de cabelo faria inclinar a 
  balana que os pesasse.
       PRNCIPE - No cortaremos as orelhas a este cubo de roda?
       POINS - Vamos dar-lhe uma coa diante da amsia.
       PRNCIPE - V se esse velho enrugado no tem a cabea calva, tal qual a 
  de papagaio.
       POINS - No  estranho que o desejo sobreviva tanto tempo  capacidade de 
  satisfaz-lo?
       FALSTAFF - D-me um beijo, Doll.
       PRNCIPE - Saturno e Vnus em conjuno este ano! Que diz a isso o 
  almanaque?
       POINS - Vede ali o trgono de fogo, seu escudeiro, como lambe o velho 
  registro do patro, seu livro de notas, a confidente.
       FALSTAFF - Teus beijos so aduladores.
       DOLL - Juro que te beijo de todo o corao.
       FALSTAFF - Estou velho! Estou velho!
       DOLL - Quero-te mais do que a todos esses casquilhos.
       FALSTAFF - De que fazenda desejas o saiote? Receberei dinheiro na 
  quinta-feira; amanh ters o gorro. Vamos, uma cano alegre! Est ficando 
  tarde;  hora de deitar; quando eu me for embora, tu nem te lembrars de mim.
       DOLL - Se te pes a falar assim, far-me-s chorar. Hs de ver se usarei 
  roupa nova, enquanto estiveres longe. Espera at ao fim.
       FALSTAFF - Francis, um pouco de xerez!
       O PRNCIPE e POINS - Neste momento, senhor! Neste momento!
       FALSTAFF - Ah! Um filho bastardo do rei! E tu, no s o seu irmo, Poins?
       PRNCIPE - Globo de continentes impuros, que vida a tua!
       FALSTAFF - Melhor do que a tua; sou um gentil-homem, ao passo que tu no 
  passas de um tirador de cerveja.
       PRNCIPE - Perfeitamente, meu senhor; aqui vindo para tirar-vos as 
  orelhas.
       ESTALAJADEIRA - Que o Senhor preserve tua Graa! Por minha alma, s 
  bem-vindo a Londres! Que o Senhor abenoe tua doce figura. Oh, Jesus! 
  Chegastes de Gales?
       FALSTAFF -  tu, maldito composto de loucura e majestade! Por esta carne 
  fraca e este sangue corrupto, (apontando para Doll.) bem-vindo sejas!
       DOLL - Como, louco enxundioso! Eu te desprezo.
       POINS - Milorde, o que ele quer  fazer-vos esquecer da vingana e levar 
  tudo em brincadeira; no vos descuideis.
       PRNCIPE - Imunda mina de sebo, que coisas abjetas disseste agora mesmo 
  de mim, diante desta senhora honesta e virtuosa!
       ESTALAJADEIRA - Bendito seja vosso bondoso corao! Em verdade,  o que 
  ela .
       FALSTAFF - Estavas me ouvindo?
       PRNCIPE - Estava; e vs me reconhecestes, como no dia em que correstes 
  em Gadshill; sabeis que eu me encontrava ali atrs, e s falastes daquele 
  modo com o fito de experimentar-me a pacincia.
       FALSTAFF - No, no, no  assim; no imnaginava que podias estar 
  escutando o que eu dizia.
       PRNCIPE - Nesse caso vou obrigar-vos a confessar que os insultos foram 
  premeditados, sabendo depois como tratar-vos.
       FALSTAFF - No houve insulto, Harry; palavra de honra; no houve insulto.
       PRNCIPE - Ento no  insulto menoscabar a minha pessoa, chamar-me de 
  saquiteiro, cortador de po, e no sei o que mais?
       FALSTAFF - No houve insulto, Hal.
       POINS - No houve insulto?
       FALSTAFF - No houve, Ned; de espcie alguma, honesto Ned. O que eu fiz 
  foi depreci-lo diante dos rprobos, para que estes no lhe adquirissem 
  afeio. Procedi como amigo zeloso e sdito leal; teu pai deve ser-me 
  agradecido por isso. No houve insulto, Hal; nenhum, Ned, nenhum; palavra, 
  rapazes, no houve insulto.
       PRNCIPE - Ora v, como por puro medo e covardia, injurias a esta senhora 
  virtuosa, para te reconciliares conosco. Faz ela parte dos rprobos? Est 
  includa, tambm, entre os rprobos a estalajadeira aqui presente?  rprobo o 
  pajem? E o honesto Bardolfo, cujo zelo arde no prprio nariz, faz tambm parte 
  dos rprobos?
       POINS - Responde a isso, olmo morto, responde!
       FALSTAFF - Bardolfo j est assinalado pelo demnio por maneira 
  irremissvel; seu rosto  a cozinha particular de Lcifer, em que a toda hora 
  se assam os bbados; quanto ao rapaz,  certo que um anjo bom o acompanha; mas 
  j se acha dominado pelo diabo.
       PRNCIPE - E as mulheres?
       FALSTAFF - Uma j est a arder no inferno, pobre alma! Enquanto  outra, 
  devo-lhe dinheiro, ignorando se ela vai ser condenada por isso.
       ESTALAJADEIRA - No, posso assegurar-vos.
       FALSTAFF - No o sers; penso que disso ests quite. Mas pesa sobre ti 
  outra acusao, por permitires que se coma carne em tua casa, contrariamente 
  s leis, pelo que me parece que vais urrar.
       ESTALAJADEIRA - Todos os donos de estalagem fazem o mesmo; que so um ou 
  dois quartos de carneiro em toda a quaresma?
       PRNCIPE - Vs, distinta senhora...
       DOLL - Que disse Vossa Graa?
       FALSTAFF - Sua Graa disse algo contra o que sua carne se rebela.
       (Batem.)
       ESTALAJADEIRA - Quem bate com tanta fora? Vai ver, Francis.
       (Entra Peto.)
       PRNCIPE - Ento, Peto, que novidades h?
       PETO - O soberano vosso pai se encontra em Westminster e com ele se acham 
  vinte mensageiros exaustos de fadiga, que do norte acabaram de chegar. Em 
  caminho passei por uma dzia de capites, suarentos, sem chapus, que batiam 
  em todas as tabernas, perguntando notcias de Sir John.
       PRNCIPE - Pelo cu, Poins; confesso-me culpado por gastar em brinquedo 
  um tempo destes, em que a tormenta da desordem, como vento sul a arrastar 
  vapores negros, comea a derreter e chove em nossas cabeas desarmadas. Minha 
  espada, vamos, e minha capa! Adeus, Falstaff.
       (Saem o prncipe, Poins, Peto e Bardolfo.)
       FALSTAFF - Agora, justamente, que vinha o pedao mais apetecvel da 
  noite, -nos foroso partir sem tocar nele! Mais batidas!
       (Batem.)
       BARDOLFO - Deveis apresentar-vos imediatamente  corte, senhor. Uma dzia 
  de capites vos esperam l embaixo.
       FALSTAFF - Paga os msicos, moleque! Adeus, estalajadeira; adeus, Doll. 
  Bem vedes, raparigas, como os homens de mrito so procurados. Quem no presta 
  para nada, pode dormir  vontade, enquanto o homem de ao  solicitado. 
  Adeus. Se no me despacharem com urgncia, ainda vos verei antes de partir.
       DOLL - Nem posso falar... Se o meu corao no arrebentar... Adeus, Jack 
  adorado, toma cuidado contigo.
       FALSTAFF - Adeus, adeus.
       (Saem Falstaff e Bardolfo.)
       ESTALAJADEIRA - Adeus. Na prxima estao das ervilhas verdes far vinte 
  e nove anos que nos conhecemos. Homem mais honrado e de corao sincero... 
  Adeus.
       BARDOLFO (dentro) - Mistress Tearsheet!
       ESTALAJADEIRA - Que  que h?
       BARDOLFO (dentro) - Dizei a mistress Tearsheet que venha ter com o meu 
  amo.
       ESTALAJADEIRA - Corre, Doll, corre! Corre, bondosa Doll!
       (Saem.)



  ATO III
  CENA I
  Westminster. Um quarto no palcio. Entra o Rei Henrique, em trajos de noite, 
  com um pajem.
   
       REI HENRIQUE - Chama os Condes de Surrey e de Warwick; mas que antes de 
  aqui virem leiam estas cartas e as considerem. Vai depressa.
       (Sai o pajem.)
       Quantos sditos meus dormem tranqilos a estas horas!  sono!  gentil 
  sono! ama da natureza, que motivo de espanto em mim descobres, para as 
  plpebras no me vires cerrar, nem mergulhares meus sentidos no olvido? Por 
  que, sono, te comprazes em choas enfumadas, e em enxerges incmodos te 
  estendes, pelo rudo embalado dos insetos noturnos, em vez de ires para os 
  quartos perfumados dos grandes, sob esplndidos e faustosos dossis, 
  acalentado pelo som das mais suaves melodias?  deus inepto, por que causa 
  dormes com o miservel, em imundos catres, e o leito real transformas em 
  guarita de sentinela ou sino para alarma? Nos mastros mais vertiginosos selas 
  os olhos do grumete e lhe acalentas a cabea nas guas imperiosas e no mpeto 
  dos ventos que acometem pelas cristas as ondas desalmadas e as cabeas 
  monstruosas lhes erriam, suspendendo-as nas nuvens fugitivas com trons de 
  ensurdecer, a cujo estrondo desperta a prpria Morte. Podes, sono parcial, dar 
  teu repouso ao tiritante grumete em hora assim to rude, ao passo que na noite 
  mais calma e silenciosa, com as solicitaes mais confortantes o recusas a um 
  rei? Dormi, portanto, tranqilos, pequeninos, que pesada sempre se encontra a 
  fronte coroada.
       (Entram Warwick e Surrey.)
       WARWICK - Mil bons dias a Vossa Majestade.
       REI HENRIQUE - J  bom dia, milorde?
       WARWICK - j  pouco mais de uma hora.
       REI HENRIQUE - Ento, bom dia a todos, caros lordes. Lestes com ateno 
  aquelas cartas?
       WARWICK - Lemos, meu soberano.
       REI HENRIQUE - Ento sabeis quo doente se acha o corpo do nosso reino e 
  como ingentes males e perigos o peito lhe consomem.
       WARWICK - Mas no passa de um corpo perturbado, que pode readquirir a 
  fora prisca com pouca medicina e bons conselhos; Lorde Northumberland cedo 
  arrefece.
       REI HENRIQUE -  Deus! Se se pudesse ler o livro do destino e as mudanas 
  ver do tempo: montanhas que se aplainam, continentes - enfarados da slida 
  estrutura - fundirem-se no mar! Ou, noutras pocas, ver a mida cintura dos 
  oceanos larga para as costelas de Netuno, e as chacotas da sorte, e a 
  variedade de licores da taa da inconstncia! Se se visse tudo isso, o mais 
  risonho mancebo, ao contemplar a estrada ingente, os perigos passados, os 
  desgostos em perspectiva, o livro fecharia e a chamar pela morte se deitara. 
  Dez anos no passaram desde que Ricardo com Northumberland se regalavam 
  juntos, como amigos. E, dois anos depois, se combatiam! H oito anos esse 
  Percy era a pessoa mais chegada  minha alma; em meus trabalhos, como irmo, 
  me ajudava; punha a vida e a afeio a meus ps; foi mesmo a ponto de lanar a 
  Ricardo um desafio. Qual de vs l se achava? (A Warwick.) Primo Nevil, 
  lembra-me agora, vs, quando Ricardo, com os olhos marejados, posto em xeque 
  j por Northumberland, disse as palavras que profticas ora se tornaram: 
  "Northumberland, escada de que o primo Bolingbroke se serve para vir at o meu 
  trono..." ainda que eu no tivesse - Deus o sabe - semelhante inteno; mas o 
  infortnio tanto o Estado abaixou, que eu e a grandeza nos vimos compelidos a 
  beijar-nos: "H de chegar o tempo", continuou, "h de vir tempo em que este 
  crime hediondo romper qual postema". Desse jeito prosseguiu, predizendo os 
  fatos de hoje e a diviso de nossos sentimentos.
       WARWICK - Na vida dos mortais h sempre um fato que  smbolo dos tempos 
  decorridos. Observando-o, podemos ser profetas, quase sem erro, do volver das 
  coisas no nascidas que ainda entesouradas se acham nos fracos germes e 
  comeos. Tais coisas o ovo e o fruto so do tempo. De sua forma necessria 
  pode Ricardo a concluso tirar que o grande Northumberland, ento falso para 
  ele, de semelhante germe cresceria a uma traio maior, cujas razes 
  careceriam de terreno, a menos que fosse em vs.
       REI HENRIQUE - So, pois, necessidade esses eventos? Como necessidade os 
  aceitemos.  esse o termo que agora nos concita. Dizem que o bispo com 
  Northumberland tm cinqenta mil homens.
       WARWICK - Impossvel, milorde! Como a voz do eco, duplica sempre o rumor 
  as coisas que se temem. Repouse Vossa Graa. Por minha alma, milorde, as 
  foras que mandastes contra eles, conseguiro vitria fcil. Para melhor 
  tranqilizar-vos, digo que soube do trespasse de Glendower. H quinze dias 
  Vossa Majestade no tem passado bem; essas viglias agravaro, decerto, vossos 
  males.
       REI HENRIQUE - Sigo o vosso conselho. E uma vez livres as mos da guerra 
  que nos prende agora,  Terra Santa iremos sem demora.



  CENA II
  Ptio diante da casa do juiz Shallow, em Gloucestershire. Entram Shallow e 
  Silncio, que se encontram; no fundo, Mofado, Sombra, Verruga, Fraco, Bezerro 
  e criados.
   
       SHALLOW - Vinde, vinde, senhor! Dai-me a mo, senhor, dai-me a mo! Um 
  bom madrugador, pela Santa Cruz! Como vai passando o meu bom primo Silncio?
       SILNCIO - Bom dia, bom primo Shallow.
       SHALLOW - Como passa a prima, vossa companheira de leito? E a nossa bela 
  filha, a minha afilhada Helena?
       SILNCIO - Ah! um melro negro, primo Shallow.
       SHALLOW - Pelo sim pelo no, atrevo-me a dizer que o primo Guilherme deu 
  timo estudante. Ainda est em Oxford, no  verdade?
       SILNCIO -  fato, senhor;  minha custa.
       SHALLOW - Se assim , dentro de pouco ir para a Escola de Direito. 
  Freqentei a de So Clemente, onde penso que ainda se lembram do amalucado 
  Shallow.
       SILNCIO - reis ali conhecido como "o robusto Shallow", primo.
       SHALLOW - Pela Santa Missa! Chamavam-me de todo jeito; eu fazia coisas do 
  arco da velha, sem pensar nas conseqncias. ramos eu, o pequeno Joo Doit de 
  Staffordshire, e o negro Jorge Barnes, e Francis Pickbone, e Will Squele, de 
  Costwold. Nunca houve em toda a escola quatro ferrabrases como ns. E uma 
  coisa vos asseguro: sabamos onde encontrar o pessoalzinho e tnhamos sempre 
  as melhores  nossa disposio. Nesse tempo Jack Falstaff, hoje Sir John, era 
  menino, pajem de Toms Mowbray. Duque de Norfolk.
       SILNCIO -  esse mesmo Sir John, primo, que vem fazer aqui o 
  recrutamento?
       SHALLOW - O mesmo Sir John, o mesmo. Vi-o certa vez quebrar a cabea a 
  Skogan, na porta da escola; era um pirralho deste tamanho. No mesmo dia eu 
  briguei com Um tal Sanso Stockfish, fruteiro, atrs da Escola de Gray. Jesus! 
  Jesus! que dias de loucura aqueles! E lembrar agora quantos desses velhos 
  conhecidos j morreram!
       SILNCIO - Todos ns teremos de segui-los, primo.
       SHALLOW -  certo,  certo; no h dvida, no h dvida. A morte, como 
  diz o salmista,  o que h de mais positivo; todos ns ternos de morrer. Qual 
   o preo de uma junta de bois na feira de Stamford?
       SILNCIO - Para falar certo, primo, no estive l.
       SHALLOW - A morte no falha. Ainda vive o velho Double de vossa cidade?
       SILNCIO - j morreu, senhor.
       SHALLOW - Jesus, Jesus, morreu! Atirava otimamente com arco; e morreu! 
  Joo de Gaunt lhe tinha grande afeio e costumava apostar muito dinheiro 
  sobre ele. Morreu! Acertava mio alvo a duzentos e quarenta passos; a duzentos 
  e oitenta, e at mesmo a duzentos e noventa ele vos lanava uma flecha, que 
  era um gosto presenciar. Qual  o preo de uma vintena de ovelhas?
       SILNCIO - Isso depende; uma vintena de boas ovelhas pode valer dez 
  libras.
       SHALLOW - Ento o velho Double j morreu!
       SILNCIO - A vm dois dos homens de Sir John Falstaff, segundo creio.
       (Entra Bardolfo acompanhado de um homem.)
       BARDOLFO - Bom dia, honrados cavalheiros. Por obsquio, quem  o juiz 
  Shallow?
       SHALLOW - Sou eu, Roberto Shallow, senhor, senhor; um pobre rendeiro 
  deste condado e um dos juizes de paz do rei. Que desejais de mim?
       BARDOLFO - Meu capito, senhor, manda-vos muitas recomendaes; meu 
  capito, Sir John Falstaff, um gentil-homem de boa estatura - como no! - e 
  valente oficial.
       SHALLOW - Agradeo-lhe os cumprimentos, senhor. Conheci-o como timo 
  esgrimista. Como passa esse excelente cavaleiro? Poderei, tambm, pedir 
  notcias de milady sua esposa?
       BARDOLFO - Perdo, senhor; mas um soldado se acomoda melhor sem mulher.
       SHALLOW - Muito bem dito, senhor, por minha f, muito bem dito. 
  "Acomoda-se melhor!" muito bem! Excelente! As boas frases so seguramente, e 
  sempre o foram, muito recomendveis. Acomodado! Vem de "accommodo"; timo! 
  Bela frase!
       BARDOLFO - Perdo, senhor! j ouvi essa palavra. Chamais a isso frase? 
  Por tudo o que h, no conheo a frase; mas manterei com a minha espada que 
  essa palavra  uma palavra soldadesca e de excelente comando. Acomodado, isto 
  , quando o indivduo est, como se diz, acomodado; ou, quando ele est, 
  estando, por onde se possa imaginar que esteja acomodado, o que  uma 
  excelente coisa.
       (Entra Falstaff.)
       SHALLOW - Justssimo. Mas vede! A vem o bom Sir John. Dai-me vossa boa 
  mo! Dai-me a boa mo de Vossa Senhoria! Por minha f! Estais com tima 
  aparncia e carregais admiravelmente os anos. Sede bem-vindo, bom Sir John.
       FALSTAFF - Alegra-me v-lo com sade, bom mestre Roberto Shallow, Mestre 
  Sure-card, se no me engano?
       SHALLOW - No, Sir John; esse  o meu primo Silncio, que est 
  comissionado comigo.
       FALSTAFF - Bom mestre Silncio, assenta-vos muito bem essa ocupao 
  pacfica.
       SILNCIO - Vossa Senhoria  muito bem-vindo.
       FALSTAFF - Uf! Que calor est fazendo, cavalheiros! Arranjastes-me uma 
  meia dzia de homens aptos para o servio?
       SHALLOW - Perfeitamente. No quereis sentar-vos?
       FALSTAFF - Deixai-me v-los, por obsquio.
       SHALLOW - Onde est a lista? Onde est a lista? Onde est a lista? 
  Vejamos, vejamos, vejamos...  isso,  isso... Sim, aqui est ela, senhor. 
  Rodolfo Mofado! Venham vindo  medida que eu for chamando; no faam confuso. 
  Vejamos: onde est o Mofado?
       MOFADO - Aqui, senhor, com vossa licena.
       SHALLOW - Que vos parece, Sir John? Um rapago bem constitudo, moo 
  forte e de boa famlia.
       FALSTAFF - Teu nome  Mofado?
       MOFADO - Sim, senhor; com vossa licena.
       FALSTAFF - Ento j  mais que tempo de seres usado.
       SHALLOW - Ah, ah, ah! Excelente, em verdade! Os objetos que criam mofo 
  necessitam de uso. Particularmente excelente. Realmente, muito bem dito, Sir 
  John, muito bem dito.
       FALSTAFF - Uma espetada nele.
       MOFADO - Eu j tenho sido espetado demais na vida: bem podeis deixar-me 
  tranqilo. Minha velha patroa vai ficar desesperada, sem ter quem lhe cuide da 
  lavoura e dos de mais afazeres. No h necessidade de espetardes o meu nome; 
  h gente muito mais capaz do que eu para seguir.
       FALSTAFF - Cala a boca, Mofado! Haveis de seguir, Mofado; j  tempo de 
  serdes usado.
       MOFADO - Usado!
       SHALLOW - Quieto, rapaz! Quieto! Ficai de lado; no sabeis onde vos 
  encontrais? Quanto aos demais, Sir John... Vejamos: Simo Sombra!
       FALSTAFF - Com a breca! Quero esse para sentar-me embaixo dele. Deve ser 
  um soldado refrigerante.
       SHALLOW - Onde est o Sombra?
       SOMBRA - Aqui, senhor!
       FALSTAFF - Sombra, de quem s filho?
       SOMBRA - Sou filho de minha me, senhor.
       FALSTAFF - Filho de tua me? Sim,  muito provvel, e tambm sombra de 
  teu pai. Desse modo, o filho da mulher  a sombra do marido, que  o que se d 
  na mais das vezes, mas sem a substncia deste.
       SHALLOW - Convm-vos este, Sir John?
       FALSTAFF - Sombra vai servir no vero; uma espetada nele, porque temos 
  muitas sombras para encher a lista do recrutamento.
       SHALLOW - Toms Verruga!
       FALSTAFF - Onde se encontra esse?
       VERRUGA - Aqui senhor!
       FALSTAFF - Teu nome  Verruga?
       VERRUGA - Sim, senhor.
       FALSTAFF - Pois s uma verruga bem andrajosa.
       SHALLOW - Uma espetada tambm nesse, Sir John?
       FALSTAFF - Seria suprfluo, porque ele traz s costas toda a bagagem, 
  apoiando-se o conjunto do edifcio sobre dois alfinetes. No; basta de 
  espetadas.
       SHALLOW - Ah, ah! Podeis faz-lo, senhor; podeis faz-lo. Felicito-vos 
  por isso. Francisco Fraco!
       FRACO - Presente, senhor!
       FALSTAFF - Fraco, qual  a tua profisso?
       FRACO - Alfaiate de senhoras, senhor.
       SHALLOW - Uma espetada nesse tambm, senhor?
       FALSTAFF - Decerto; mas se ele fosse alfaiate de homens, seria sua a vez 
  de espetar-vos. s capaz de fazer tantos furos nas fileiras dos inimigos 
  quantos j fizeste nas saias das senhoras?
       FRACO - Farei o que me for possvel, senhor; no podeis exigir mais.
       FALSTAFF - Muito bem respondido, excelente alfaiate de senhoras! Muito 
  bem dito, corajoso Fraco! Hs de ser to valente como uma pomba enfurecida ou 
  um rato magnnimo. Uma espetada no alfaiate de senhoras! Muito bem, mestre 
  Shallow! Com fora, mestre Shallow!
       FRACO - Eu queria que Verruga tambm seguisse, senhor!
       FALSTAFF - Eu queria que fosses alfaiate de homens para que o remendasses 
  e o deixasses apto para seguir. No posso fazer um simples soldado de quem 
  conduz s costas tantos milheiros deles. Que isso te baste, fortssimo Fraco.
       FRACO -  o bastante, senhor.
       FALSTAFF - Sou-vos muito agradecido, reverendo Fraco. Quem segue?
       SHALLOW - Pedro Bezerro do Prado!
       FALSTAFF - Magnfico! Vejamos esse bezerro.
       BEZERRO - Presente, senhor!
       FALSTAFF - Por Deus, um rapago! Vamos, uma espetada nesse bezerro, at 
  que ele torne a mugir.
       BEZERRO - Oh, senhor! Meu bom lorde capito...
       FALSTAFF - Que  isso! Ests mugindo antes de te espetarem?
       BEZERRO - Oh, Jesus, Senhor! Eu sou um homem doente.
       FALSTAFF - De que doena sofres?
       BEZERRO - De um bandido resfriado, senhor; uma tosse, senhor, que apanhei 
   fora de repicar os negcios do rei, no dia de sua coroao, senhor.
       FALSTAFF - Bem; irs para a guerra com roupo; havemos de tirar-te esse 
  resfriado e vou arranjar as coisas de modo que teus amigos repiquem por ti. 
  No h mais ningum?
       SHALLOW - Foram chamados dois a mais do nmero; mas s deveis escolher 
  quatro, senhor; e, com isso, convido-vos para cear comigo.
       FALSTAFF - Tomarei apenas um trago; no posso ficar para a ceia. 
  Alegra-me rev-lo, mestre Shallow; palavra de honra.
       SHALLOW - Oh, Sir John! Ainda vos lembrais da noite que passamos no 
  moinho de vento do campo de So Jorge?
       FALSTAFF - No falemos mais nisso, bom mestre Shallow; no falemos mais 
  nisso.
       SHALLOW - Ah! Que noite alegre! Ainda vive a Jane Nightwork?
       FALSTAFF - Vive, mestre Shallow.
       SHALLOW - Ela no passava sem mim.
       FALSTAFF - No passava, mesmo; estava sempre a dizer que no suportava o 
  mestre Shallow.
       SHALLOW - E como eu sabia deix-la enfurecida! Naquele tempo ela era uma 
  boa rapariga. Ainda est bem conservada?
       FALSTAFF - Velha, velha, mestre Shallow.
       SHALLOW - Tem de estar velha, mesmo; no h por onde escolher; sim, 
  decerto est velha. Teve a Robin Nightwork do velho Nightwork antes de eu 
  entrar para a Escola de So Clemente.
       SILNCIO - L se vo j cinqenta anos.
       SHALLOW - Ah, primo Silncio, se tivsseis visto o que eu e este 
  cavaleiro vimos! No  verdade, Sir John?
       FALSTAFF - Ouvimos os carrilhes da meia-noite, mestre Shallow.
       SHALLOW - Ouvimos, ouvimos, Sir John;  verdade, ouvimos mais. Tnhamos 
  como senha: "H rapazes!" E agora vamos comer. Jesus! Que dias ns vimos! 
  Vamos, vamos.
       (Saem Falstaff, Shallow e Silncio.)
       BEZERRO - Bom mestre caporal Bardolfo, sede meu amigo; aqui tendes quatro 
  henriques de dez xelins em moeda francesa. Para dizer a verdade, senhor, gosto 
  tanto de ser enforcado como de seguir para a guerra. No  que eu me importe 
  de ir; mas  que no tenho desejo disso, alm de que, por minha parte, prefiro 
  ficar com os meus amigos. No fosse isso, senhor, de minha parte pouco se me 
  dava.
       BARDOLFO - Bem; passa para este lado.
       MOFADO - Meu bom mestre sargento capito, pela sade de minha velha 
  patroa, interceda tambm a meu favor. Quando eu me for, ela ficar sem ningum 
  a seu lado para ajud-la; j est muito velha; no pode fazer nada. Dou-vos 
  quarenta xelins, senhor.
       BARDOLFO - Bem; passa para c.
       FRACO - Para mim, tanto faz; a gente s morre uma vez; devemos uma morte 
  a Deus. No me rebaixarei; se for esse o meu destino, bem; se no for, bem. 
  Ningum  demasiado bom para servir ao prncipe; tome o caminho que tomar, 
  quem morrer este ano ficar quite para o prximo.
       BARDOLFO - Muito bem dito; s um rapaz de coragem.
       (Voltam Falstaff, Shallow e Silncio.)
       FALSTAFF - Vejamos, senhor: quais so os homens que eu devo levar?
       SHALLOW - Quatro, a vosso critrio.
       BARDOLFO ( parte, a Falstaff) - Uma palavra, senhor: recebi trs libras 
  para deixar livres a Mofado e a Bezerro.
       FALSTAFF ( parte, a Bardolfo) - Est bem; podes ir.
       SHALLOW - Vejamos, Sir John; quais so os quatro que escolheis?
       FALSTAFF - Escolhei vs por mim.
       SHALLOW - Nesse caso, escolho Mofado, Bezerro, Fraco e Sombra.
       FALSTAFF - Mofado e Bezerro: vs, Mofado, ficai em casa at que vos 
  torneis imprestvel para o servio; no que vos respeita, Bezerro, crescei, at 
  ficardes em condies; no quero nenhum de vs.
       SHALLOW - Sir John, Sir John, no vos prejudiqueis! Esses dois so 
  justamente os mais capazes. O meu desejo  que fiqueis bem servido.
       FALSTAFF - Mestre Shallow, quereis ensinar-me a escolher homens? 
  Importam-me, acaso, os membros, os nervos, a estatura, o volume e o aspecto 
  grandalho de uma pessoa? Dai-me o esprito, mestre Shallow. Aqui tendes o 
  Verruga! Vede que aparncia andrajosa ele apresenta; pois  certeza que ele 
  vos carregar e descarregar uma arma com a presteza de um martelo de 
  picheleiro; ir daqui para ali com a rapidez de quem enforca o balde de 
  cerveja na manivela. E aquele vosso amigo de meia cara apenas, o Sombra! 
  Dai-me esse. Um homem assim no oferece alvo ao inimigo, para quem tanto faz 
  apontar nele como no fio de um canivete. E numa retirada! Com que presteza 
  este indivduo fraco passar pelo alfaiate de senhoras! Oh! dai-me apenas 
  homens insignificantes, que para mim os grandalhes nada significam. Pe-me um 
  arcabuz na mo de Verruga, Bardolfo.
       BARDOLFO - Assim, Verruga; apontar! Assim, assim.
       FALSTAFF - Manobrai-me vosso arcabuz. Assim, muito bem. Outra vez! 
  Excelente! Oh! dem-me s atiradores pequenos, magros, velhos, ossudos e sem 
  cabelo. Perfeitamente, Verruga; s um bicho. Toma l um tosto.
       SHALLOW - Ele no entende do ofcio; no sabe manobrar direito. Lembra-me 
  que no prado de Mile-end, quando eu cursava a Escola de So Clemente - nesse 
  tempo eu fazia o papel de Sir Dagonet na pantomima de Artur - havia um 
  rapazinho lesto, que vos manejava a pea deste modo: fazia meias-voltas 
  sucessivas, ia para l, tornava a vir, "rata-t", dizia ele, "bum!" dizia ele, 
  e tornava a ir, e tornava a vir. Nunca mais encontrei ningum como ele.
       FALSTAFF - Estes aqui serviro muito bem, mestre Shallow. Deus vos 
  guarde, mestre Silncio. No desperdiarei palavras convosco. Ficai com Deus, 
  cavalheiros. Agradeo-vos. Ainda tenho de andar doze milhas esta noite. 
  Bardolfo, d farda a estes soldados.
       SHALLOW - Sir John, o cu vos abenoe e faa prosperar vossos negcios. 
  Deus vos d paz. De volta, aparecei em nossa casa; renovemos nossa velha 
  amizade;  provvel que eu v convosco  corte.
       FALSTAFF -  o que eu desejo tambm, mestre Shallow.
       SHALLOW - Parti, j disse tudo; Deus vos acompanhe.
       FALSTAFF - Adeus, gentis cavalheiros.
       (Saem Shallow e Silncio.)
       Vamos, Bardolfo; leva esses homens.
       (Saem Bardolfo, os recrutas, etc.)
       Quando eu voltar, pretendo sondar esses juizes; j vi o fundo do juiz 
  Shallow. Oh, Senhor, Senhor! Quo sujeitos estamos os velhos ao vcio da 
  mentira! Este mesmo juiz faminto nada mais fez do que dar  lngua a respeito 
  de suas loucuras da mocidade e de suas proezas na rua Turnbull; no dizia trs 
  palavras sem uma mentira, que pagava ao ouvinte com maior pontualidade do que 
  a do tributo do Turco. Lembro-me dele em So Clemente, como uma dessas figuras 
  feitas depois das refeies com a casca do queijo; sem roupa, parecia um 
  rabanete partido, em que se houvesse cortado com faca uma cabea fantstica. 
  Era to franzino, que uma pessoa de pouca vista no podia distingui-lo; 
  verdadeiro gnio da fome. No entanto, lascivo como macaco; as mulheres da vida 
  alegre lhe chamavam Mandrgora; andava sempre na retaguarda da moda e cantava 
  a suas companheiras mais do que engraxadas as cantigas que ouvia dos 
  carreteiros, jurando que eram invenes prprias ou serenatas. E agora temos 
  esta espada de Arlequim feito proprietrio; fala de Joo de Gaunt com a 
  familiaridade de um irmo de armas. Estou a jurar que s o viu uma vez, no 
  campo de justas, quando lhe partiram a cabea por ter ido meter-se entre os 
  homens do marechal. Vi-o nessa ocasio, e disse a Joo de Gaunt que estavam 
  batendo em seu prprio nome, porque podereis met-lo em uma pele de enguia 
  com todos os seus pertences. O estojo de um obo lhe serviria de casa, 
  verdadeiro palcio. No entanto, agora possui terras e gado. Muito bem; se eu 
  voltar, estreitaremos relaes; e no terei sorte se no o transformar em 
  dupla pedra filosofal para meu uso. Se salmonete novo  comida de primeira 
  para lcio velho, no encontro nenhuma razo na lei da natureza para que eu 
  no possa engoli-lo. Quando chegar a ocasio, j tudo estar feito.
       (Sai.)



  ATO IV
  CENA I
  Uma floresta em Yorkshire. Entram o arcebispo de York, Mowbray, Hastings e 
  outros.
   
       ARCEBISPO - Como se chama esta floresta?
       HASTINGS - Chama-se floresta de Gaultree, com permisso de Vossa Graa.
       ARCEBISPO - Aqui ficai, milordes, e espias enviai, a fim de o nmero 
  sondar dos inimigos.
       HASTINGS - J o fizemos.
       ARCEBISPO - tima providncia. Meus amigos, meus irmos neste grave 
  empreendimento, devo dar-vos a nova de ter cartas recm-datadas de 
  Northumberland. Esta  a substncia, o tom e o assunto frio: desejara aqui 
  estar com fora digna de sua posio; mas impossvel lhe foi reuni-la, e, 
  conseguintemente, foi esperar na Esccia que a ventura crescente ali madure. 
  Ardentes votos envia, ao terminar, para que vossos esforos a melhor sobre o 
  azar levem e o encontro temeroso do inimigo.
       MOWBRAY - Desta arte as esperanas que sobre ele fundvamos, se esfazem 
  totalmente.
       (Entra um mensageiro.)
       HASTINGS - Que novidades h?
       MENSAGEIRO - A menos de uma milha a oeste da selva, em boa forma, o 
  inimigo se aproxima; pelo espao que ocupam, fao o clculo de serem trinta 
  mil ou pouco menos.
       MOWBRAY - Exatamente quanto calculamos. Vamos ao seu encontro na 
plancie.
       (Entra Westmoreland.)
       ARCEBISPO - Que chefe to armado se aproxima?
       MOWBRAY - Lorde de Westmoreland, se no me engano.
       WESTMORELAND - Saudaes cordiais do general de nossas foras, Lorde 
  Joo, Prncipe e Duque de Lencastre.
       ARCEBISPO - Sem receio, Lorde de Westmoreland, nos revelai o fim de vossa 
  vinda.
       WESTMORELAND - Ento, milorde,  sobretudo a vs que ora dirijo a 
  substncia de todo o meu discurso. Viesse esta rebelio, em si coerente, com 
  multides abjetas e sem crdito, inspirada na clera, trazida por uma 
  juventude sanguinria, e apoiada por moos e mendigos; se to maldita comoo, 
  repito, desta arte aparecesse, em seu feitio mais prprio e natural, na forma 
  inata, vs, reverendo padre, e estes fidalgos no sereis aqui para vestirdes 
  os feios traos da sangrenta e baixa revoluo com vossa alta aparncia. E 
  vs, Lorde Arcebispo, cuja sede sob a paz se conserva, cuja barba pela 
  argentina mo da paz foi benta, que  paz deveis a cincia e as belas-letras, 
  que refletis nas vestes a inocncia, a pomba e o santo esprito da paz, por 
  que to mal vos traduzis da lngua da paz, que tanta graa nos sugere, na da 
  guerra to spera e violenta, transformando em perneiras vossos livros, em 
  sangue vossa tinta, em lana a pena, e a linguagem divina da trombeta 
  barulhenta que soa para a guerra?
       ARCEBISPO - Por que fao isso? E fcil responder-vos  questo. Todos ns 
  estamos doentes; a lascvia e os excessos nos causaram febre ressecadora, que 
  reclama sangria muito urgente. Dessa doena foi que morreu Ricardo. Mas meu 
  nobre Lorde de Westmoreland, eu no pretendo que me tomeis por mdico nesta 
  hora, nem  na qualidade de inimigo da paz que a homens armados me incorporo; 
  se assumo esta aparncia por instantes,  com o fim de cuidar de almas que 
  sofrem e remover as obstrues que as veias da vida nos ameaam. Serei claro: 
  em balana imparcial pesei os males que podemos causar e os sofrimentos que 
  vimos suportando, e achamos que estes pesam mais do que tudo o que fizermos. 
  Vemos a direo que o tempo toma:  a rude correnteza da ocasio que nos tira 
  de nossa esfera quieta. J se acham sumariadas nossas queixas; no momento 
  oportuno esses artigos sero apresentados, o que, h muito, pudramos ter 
  feito, se o monarca no se houvesse esquivado de escutar-nos. Se injustia 
  sofremos e queremos expor-lhe as nossas mgoas, vemos logo vedado o acesso  
  sua pessoa, pelos mesmos que mais prejuzos nos causaram. Os perigos dos dias 
  mais chegados - cuja memria a terra ainda conserva com sangue bem visvel - e 
  os exemplos de todos os minutos, casos de hoje, a estas armas imprprias nos 
  levaram, no para a paz romper ou um de seus ramos, mas para que uma paz aqui 
  fundemos em que concorra o nome e a qualidade.
       WESTMORELAND - Quando vos foi negada, acaso, audincia? Em que vos tem 
  magoado o soberano? Que par foi subornado em vossa perda, para o selo divino 
  colocardes neste livro ilegal de uma sangrenta rebelio, consagrando o fio 
  amargo da arma das comoes e das revoltas?
       ARCEBISPO - Dos malfeitos ao Estado e das crueldades infligidas ao meu 
  irmo de sangue fao o assunto de minhas prprias queixas.
       WESTMORELAND - No cabe desagravo algum; mas mesmo que fosse o caso, a 
  vs tal no compete.
       MOWBRAY - Por que a ele no, em parte, e aos outros todos que sentimos os 
  golpes do passado e mais ainda sofremos no presente, cuja mo grave e injusta 
  calca sobre nossa honra postergada?
       WESTMORELAND -  meu bom Lorde Mowbray, julgai o tempo pelos fatos e 
  concluireis, sem dvida, que  o tempo, no o rei, que vos faz tais 
  injustias. Contudo, enquanto a vs, quer parecer-me que nem o tempo, nem o 
  rei vos deram um nada de terreno em que pudsseis construir alguma queixa. No 
  vos vistes reintegrado na posse dos domnios do Duque de Norfolk, vosso mui 
  digno genitor, de colenda e alta memria?
       MOWBRAY - Em que meu pai perdera na honra, para que fosse necessrio eu 
  reanim-la? Por injunes do Estado, o rei, que o amava, a expatri-lo se viu, 
  ento, forado. E isso quando? Quando ele e Bolingbroke, montados ambos, ambos 
  j nas selas, os cavalos nitrindo sob a espora, no riste as lanas, as 
  vizeiras cadas, faiscando os olhos pelas fendas de ao, e a sonora trombeta o 
  estimul-los... Nessa hora, quando nada mais podia desviar de Bolingbroke a 
  lana aguda de meu pai, deixou o rei cair por terra seu basto de comando. A 
  prpria vida, com o basto, de si mesmo ele arrojava; condenava-se, assim, e a 
  todos quantos,  espada ou por sentena, sob o peso de Bolingbroke, at hoje 
  pereceram.
       WESTMORELAND - Falais, Lorde Mowbray, do que ignorais. O Conde de 
  Hereford era ento tido como o par mais valente da Inglaterra. Como saber a 
  quem teria a sorte sorrido ento? Mas, ainda que a vitria vosso pai 
  alcanasse, chegaria de Coventry a sair ele com vida? De modo unnime o pas o 
  odiava; todas as preces dele e todo o afeto objetivavam Hereford, que o povo 
  abenoava e endeusava sobre tudo, muito mais do que o prprio soberano. Mas 
  com isso me afasto do meu ponto. Venho em nome do prncipe somente para ouvir 
  vossas queixas e dizer-vos que Sua Graa vos concede audincia. Se vossas 
  exigncias forem justas, sero logo atendidas, esquecendo-se quanto possa 
  inquinar-vos de inimigos.
       MOWBRAY - Essa oferta, ns mesmos lha impusemos; no o move o amor, 
  apenas a poltica.
       WESTMORELAND - Mowbray, muita arrogncia isso revela; vem da demncia a 
  oferta, no do medo. Vede que, perto, nossos homens se acham, e, por minha 
  honra! todos mui confiantes para darem guarida ao pensamento, sequer, do medo. 
  Nomes mais ilustres se vem em nossas filas; nossos homens no manejo das armas 
  so mais destros; so como as vossas, nossas armaduras; nossa causa, melhor. 
  Temos, portanto, razo de estar deveras animados. No digais que  forada a 
  nossa oferta.
       MOWBRAY - No deve haver acordo,  o que eu proponho.
       WESTMORELAND - Isso prova a conscincia da injustia; uma causa ruim no 
  sofre exame.
       HASTINGS - Tem o Prncipe Joo plenos poderes de seu pai, e irrestrita 
  autoridade para ouvir-nos e, aps, apresentar-nos as condies que o caso lhe 
  sugira?
       WESTMORELAND - Isso est compreendido no seu ttulo de general; admira 
  tal pergunta.
       ARCEBISPO - Nesse caso, milorde Westmoreland, recebei esta cdula, em que 
  se acham expostas nossas queixas. Seus artigos devem ser atendidos 
  pontualmente; todos os implicados nesta causa, daqui ou de alhures, devem ser 
  perdoados por maneira sincera e insofismvel. E que logo nos seja assegurada a 
  execuo de quanto objetivamos. Ento reingressaremos nos limites venerveis 
  da lei, para nos braos da paz nossos poderes enlaarmos.
       WESTMORELAND - Mostrarei tudo ao general. Milordes, se concordardes, 
  falaremos, ainda,  vista dos dois campos. Praza a Deus que paz firmemos; do 
  contrrio, as armas decidiro l mesmo a diferena.
       ARCEBISPO - Milorde, assim faremos.
       (Sai Westmoreland.)
       MOWBRAY - Algo na alma me diz que as condies apresentadas no podem ser 
  durveis.
       HASTINGS - No o temais; se pudermos concluir a paz em termos to amplos 
  e absolutos como o exigem as nossas condies, h de ser firme nossa paz como 
  a rocha da montanha.
       MOWBRAY - Sim; mas de tal maneira ho de julgar-nos, que o mais leve 
  pretexto e o mais fortuito, o motivo mais vo, trivial e ftil, ao rei faro 
  lembrar nossa revolta. Embora como mrtires provssemos nossa lealdade, com 
  to rude vento seramos joeirados, que at mesmo nosso gro subiria como 
  palha, sem que o bom do ruim se distinguisse.
       ARCEBISPO - No, no, milorde; ouvi-me; o rei est farto de tantas 
  queixas vs e complicadas; j viu que sufocar uma com a morte,  despertar 
  duas outras mais pujantes nos herdeiros da vida. Esse o motivo de agora ele 
  querer limpar as telas da memria, expungindo a as lembranas que lhe possam 
  mostrar a todo instante seus desastres passados, pois bem sabe que  
  impossvel carpir todo o terreno de quanto lhe sugere a suspiccia. De tal 
  maneira amigos e inimigos se encontram vinculados, que tentando um destes 
  arrancar, abala aqueles. Desta arte a terra toda  como esposa provocadora que 
  o irritasse ao mximo e que, ao ser castigada, lhe mostrasse seu prprio 
  filho, a pena suspendendo do brao que devia execut-la.
       HASTINGS - Alm do mais, o rei gastou suas varas nos ltimos culpados, o 
  que implica no ter mais instrumentos de castigo. Seu poder, como leo sem 
  garras, pode apenas ameaar, atacar, no.
       ARCEBISPO -  verdade; por isso, meu bom Lorde Marechal, ficai certo de 
  que se hoje resolvermos o caso, a paz firmada h de ser como um membro 
  fraturado que se mostra mais forte aps a cura.
       MOWBRAY - Antes assim. Mas eis que vem de volta Lorde de Westmoreland.
       (Torna a entrar Westmoreland.)
       WESTMORELAND - O prncipe est  mo; fora do agrado de Vossa Senhoria a 
  igual distncia de nossas foras entender-se com ele?
       MOWBRAY - Que Vossa Graa de York, ento, em nome de Deus tome a 
  dianteira.
       ARCEBISPO - Antes, milorde, cumprimentai Sua Graa; j chegamos.
       (Saem.)



  CENA II
  Outra parte da floresta. Entram, por um lado, Mowbray, o arcebispo, Hastings e 
  outros; pelo outro lado, Joo de Lencastre, Westmoreland, oficiais e squito.
   
       LENCASTRE - Primo Mowbray, sois mui bem-vindo aqui; bom dia, meu gentil 
  Lorde Arcebispo, e a vs tambm, Lorde Hastings, e a vs todos. Milorde de 
  York, tnheis melhor vista, quando vosso rebanho, ao som dos sinos, vos 
  circundava, para, reverentes, ouvir-vos comentar o texto sacro, de que nessa 
  armadura que vos cinge, a animar multido de rebelados, ao rufo dos tambores, 
  transmudando em morte a vida, em armas a palavra. Quem reside no peito de um 
  monarca e  luz do seu favor amadurece, quando chega a abusar dessa confiana, 
  que de estragos no causa, acobertado por tamanha grandeza! O mesmo, Lorde 
  Bispo, se d convosco. Quem no sabe que nos livros de Deus sois mui profundo? 
  Como orador de seu congresso sempre vos tivemos, a voz do prprio Deus, o 
  intrprete, o acatado intermedirio entre a graa do cu, com seus favores, e 
  os nossos rudes feitos. Quem previra que ireis abusar da reverncia de vossa 
  posio; a ajuda e a graa do cu malbaratando, como um falso corteso que usa 
  o nome do monarca para atos pouco honrosos? Sublevastes, sabendo aparentar o 
  amor de Deus, os sditos de seu representante, meu pai;  contra a paz do cu, 
  contra ele, que ora os amotinais.
       ARCEBISPO - Meu caro Lorde de Lencastre, no vim como inimigo da paz de 
  vosso pai; mas, como disse a Lorde Westmoreland, foi a desordem simplesmente 
  do tempo, em sentido amplo, que nos reuniu, sob esta forma inslita, em defesa 
  de nossa liberdade. J enviei a Vossa Graa a relao minuciosa de todos os 
  agravos - com desdm pela corte repelidos - causa de haver nascido a hidra da 
  guerra. Mas  possvel encantar-lhe os olhos ameaadores, com satisfazerdes 
  nossas reclamaes legais e justas; a obedincia sincera, ento, curada, vir, 
  mansa, curvar-se ante a realeza.
       MOWBRAY - Caso contrrio, a sorte tentaremos at o ltimo soldado.
       HASTINGS - E se tombarmos, teremos quem nos leve adiante a empresa, como 
  outros o tero, se fracassarem, o que far nascer uma seqncia de 
  insurreies, que de um para outro herdeiro far passar a luta, enquanto 
  houver geraes sobre o solo da Inglaterra.
       LENCASTRE - Sois bem pouco profundo, Hastings, bem pouco, para a sonda 
  lanardes no futuro.
       WESTMORELAND - Dir-nos- Vossa Graa, sem rebuos, o que pensais de 
  nossas pretenses?
       LENCASTRE - Aceito todas elas e as aprovo; e juro aqui, pela honra de meu 
  sangue, que meu pai no tem sido compreendido; muitos dos seus validos lhe 
  adulteram, com freqncia, a opinio e a autoridade. Vossas queixas, milorde, 
  por minha alma, sero sanadas. Se isso vos agrada, reenviai para suas terras 
  vossas foras, como vamos fazer tambm com as nossas. E aqui, entre os 
  exrcitos, bebamos cordialmente e abracemo-nos, a fim de que todos os olhos 
  levar possam para casa o penhor de nosso afeto renovado e do amor que aqui se 
  afirma.
       ARCEBISPO - A palavra de um prncipe me basta.
       LENCASTRE - Dou-vos minha palavra e hei de mant-la. E ora bebo  sade 
  de vs todos.
       HASTINGS (a um oficial) - Transmiti, capito, a nossos homens essas novas 
  de paz; que sejam pagos e se dispersem. Sei que a nova a todos agradar. 
  Depressa, capito!
       (Sai o oficial.)
       ARCEBISPO - A vs, meu nobre Lorde Westmoreland!
       WESTMORELAND - Tambm  Vossa Graa. Se soubsseis que de esforo esta 
  paz me vem custando, bebereis  larga; mas espero que o meu amor se vos 
  revele em pouco mais claramente.
       ARCEBISPO - No me inspirais dvida.
       WESTMORELAND - Alegro-me sab-lo; e ora  sade de milorde Mowbray, meu 
  gentil primo.
       MOWBRAY - Desejais-me sade em tempo azado, porque me sinto agora algo 
  indisposto.
       ARCEBISPO - Na vspera de um mal, fica-se alegre, mas a tristeza inculca 
  eventos gratos.
       WESTMORELAND - Alegrai-vos, portanto, primo, que essa tristeza apenas 
  diz: Boas notcias chegaro amanh.
       ARCEBISPO - Acreditai-me, hoje eu me sinto muito bem disposto.
       MOWBRAY - Tanto pior, se for certa a vossa mxima.
       (Ouvem-se aclamaes.)
       LENCASTRE - A paz foi anunciada; ouvem-se vivas.
       MOWBRAY - Mais ruidosos seriam, se tivssemos vencido.
       ARCEBISPO - A paz  como uma conquista: com nobreza as duas partes se 
  submetem; nenhuma delas perde.
       LENCASTRE - Ide, milorde, e dispersai tambm o nosso exrcito.
       (Sai Westmoreland.)
       E, meu bom lorde, se acordais, faamos desfilar ante ns ambas as tropas, 
  porque vejamos que homens ns teramos de combater.
       ARCEBISPO - Ide, meu bom Lorde Hastings, fazei-os desfilar antes de se 
  irem.
       (Sai Hastings.)
       LENCASTRE - Espero, lordes, que hoje  noite havemos de dormir juntos.
       (Volta Westmoreland.)
       Primo, por que causa ainda se acha parado o nosso exrcito?
       WESTMORELAND - Os chefes, aos quais destes outras ordens, no querem 
  dispersar sem vos ouvirem.
       LENCASTRE - Conhecem seu dever.
       (Volta Hastings.)
       HASTINGS - Milorde, nossas foras j se foram. Como novilhos livres, 
  debandaram para este, oeste, norte e sul; ou como crianas depois da escola, 
  correm todos em direo de casa ou dos folguedos.
       WESTMORELAND - Boas novas, Lorde Hastings. Como prmio, eu te prendo, 
  traidor de alta traio; e vs, Lorde Arcebispo, e vs, Mowbray, por traio 
  capital a ambos detenho.
       MOWBRAY - Semelhante conduta  justa e honrosa?
       WESTMORELAND - Vossa sublevao o , por acaso?
       ARCEBISPO - Faltareis, desse modo, ao juramento?
       LENCASTRE - No jurei coisa alguma; apenas disse que iria corrigir alguns 
  abusos de que vos lamentveis. Por minha honra! com conscincia crist hei de 
  faz-lo. Mas vs, rebeldes, heis de ter a paga que se deve  traio e a atos 
  quejandos. Com simpleza a esses homens aliciastes, e ora mais loucamente os 
  dispersastes. Persigamo-los, pois! Toca a rebate! No somos ns,  Deus que 
  hoje combate. Para o cepo os traidores sigam breve, que  o leito onde a 
  traio expirar deve.
       (Saem.)



  CENA III
  Outra parte da floresta. Rebate. Movimento de tropas. Entram Falstaff e 
  Colevile, e se encontram.
   
       FALSTAFF - Qual  o vosso nome, senhor? Qual a vossa condio? De que 
  lugar sois, por obsquio?
       COLEVILE - Sou um cavaleiro, senhor; chamo-me Colevile do Vale.
       FALSTAFF - Muito bem; Colevile  o vosso nome; cavaleiro, vosso ttulo e 
  o vale o vosso lugar. Pois Colevile ficar sendo o vosso nome para sempre, 
  traidor o vosso ttulo e o calabouo vosso lugar, alis, lugar bem fundo: 
  desse modo continuareis sendo Colevile do vale.
       COLEVILE - No sois Sir John Falstaff?
       FALSTAFF - To bom quanto ele, senhor, seja eu quem for. Ides render-vos, 
  senhor, ou ser que terei de suar por vossa causa? Mas se eu suar, ho de ser 
  lgrimas de teus amigos no pranto de tua morte. Por isso, desperta o medo e o 
  tremor e entrega-te  minha clemncia.
       COLEVILE - Penso que sois Sir John Falstaff; e nessa crena me entrego.
       FALSTAFF - Carrego nesta pana uma escola de lnguas, e nenhuma delas 
  sabe pronunciar outra palavra alm do meu nome. Se eu tivesse um ventre como 
  todo o mundo, seria o camarada mais ativo da Europa. Esta pana, esta pana  
  que me prejudica. A vem o nosso general.
       (Entram Joo de Lencastre, Westmoreland, Blunt e outros.)
       LENCASTRE - Passou o calor; mais longe no os sigamos; bom primo 
  Westmoreland, chamai as tropas.
       (Sai Westmoreland)
       Onde andastes, Falstaff, todo esse tempo? Quando tudo termina  que 
  chegais. Por minha vida, essas graolas ho de qualquer dia quebrar alguma 
  forca.
       FALSTAFF - Causar-me-ia grande pesar, milorde, se tal no acontecesse, 
  pois tenho observado que as censuras e reprimendas sempre foram a recompensa 
  do valor. Tomais-me por uma andorinha, uma flecha ou uma bala? Disponho, por 
  acaso, na minha pobre e velha mobilidade, da rapidez do pensamento? Corri at 
  aqui sem o atraso de uma polegada; estrompei cento e oitenta cavalos de posta, 
  e, apesar disso, ao chegar aqui, com todas estas pinturas do caminho, e com o 
  meu valor puro e imaculado aprisionei Sir John Colevile do Vale, cavaleiro 
  furiosssimo e inimigo dos mais bravos. Mas, para que insistir? Bastou ver-me, 
  para entregar-se, de forma que, com toda a justia, poderia dizer como o 
  Romano de nariz de gancho: cheguei, vi e venci.
       LENCASTRE - Isso foi mais cortesia dele do que valor vosso.
       FALSTAFF - No saberei diz-lo; aqui est ele e aqui vo-lo entrego. 
  Suplico a Vossa Graa que esta faanha seja devidamente anotada com os demais 
  feitos do dia; caso contrrio, por tudo o que h, mandarei compor uma balada 
  especial, com meu retrato no alto e Colevile beijando-me os ps. Se chegar a 
  esse ponto e todos vs no ficardes ao meu lado como moedas de dois pences, 
  enquanto eu brilhar no claro cu da fama, ofuscando-vos como faz a lua cheia 
  com as chispas do firmamento, que ao seu lado no passam de cabeas de 
  alfinete, podeis descrer da palavra de um fidalgo. Por isso, concedei-me o meu 
  direito e deixai subir o merecimento.
       LENCASTRE - O teu  pesado demais para subir.
       FALSTAFF - Ento, deixai-o brilhar.
       LENCASTRE -  demasiado espesso para isso.
       FALSTAFF - Fazei qualquer coisa, meu bom lorde, que me seja favorvel, e 
  dai-lhe o nome que vos aprouver.
       LENCASTRE - Teu nome  Colevile?
       COLEVILE - Sim, milorde.
       LENCASTRE - s um rebelde famoso, Colevile.
       FALSTAFF - E foi um sdito famosamente leal que o aprisionou.
       COLEVILE - Sou, senhor, o que so os superiores que aqui me conduziram. 
  Fossem eles por mim trazidos, e a vitria, certo, vos teria custado bem mais 
  caro.
       FALSTAFF - ignoro por quanto se venderam; mas o que  certo  que tu, 
  como bom camarada, te entregaste de graa; agradeo-te a pessoa.
       (Volta Westmoreland.)
       LENCASTRE - Mandastes recolher os nossos homens?
       WESTMORELAND - J se retiram; finda est a matana.
       LENCASTRE - Enviai logo para York a Colevile com os demais companheiros, 
  para serem executados sem detena. Blunt, fica ele a vosso cargo; sede atento.
       (Saem Blunt e outros, com Colevile.)
       Ora, milorde, vamos para a corte; soube que o rei meu pai se acha bem 
  doente. Devem antecipar-nos as notcias, cabendo a vs, meu primo, 
  transmiti-las a Sua Majestade; seguiremos com sbria rapidez em vosso encalo.
       FALSTAFF - Eu desejaria permisso, milorde, de ir por Gloucestershire e 
  que me fsseis na corte bom senhor, enaltecendo-me.
       LENCASTRE - Adeus, Falstaff; em minha qualidade direi mais do que cabe ao 
  vosso mrito.
       (Saem todos, menos Falstaff.)
       FALSTAFF - S desejara que tivesses esprito; valeria mais do que o teu 
  ducado. Por minha f, esse moo de sangue frio no me tem afeio. Nada o faz 
  sorrir; mas isso no admira; no bebe vinho. Os jovens de temperamento muito 
  sisudo jamais do coisa que preste; a sobriedade no beber e o excesso de peixe 
  na comida, de tal jeito lhes esfria o sangue, que caem em uma espcie de 
  anemia masculina, s gerando filhas, depois de casados. No mais das vezes so 
  estpidos e covardes, o que tambm seramos, se no nos inflamssemos. Um bom 
  copo de xerez  de duplo efeito; sobe-me ao crebro, seca-me ali todos os 
  vapores tontos, obtusos e speros que o envolvem, deixando-o sagaz, vivo, 
  imaginoso, cheio de formas leves, petulantes e deleitosas, que, entregues  
  voz, recebem vida da lngua e se convertem em excelente esprito. A segunda 
  propriedade do vosso excelente xerez  a de aquecer o sangue, que, por ser 
  naturalmente frio e pesado, deixa o fgado branco e plido, sinal certo de 
  pusilanimidade e covardia; mas o xerez o aquece e o faz correr do interior 
  para as partes extremas, ilumina o rosto, que, como farol que , chama s 
  armas a esse pequenino reino denominado homem. E ento todos os moradores e os 
  pequenos espritos da provncia se congregam em torno do seu chefe, o corao, 
  que, aumentado e envaidecido com o cortejo, se torna capaz de qualquer 
  empreendimento de valor. Todo esse valor vem do xerez, a tal ponto que a 
  habilidade no manejo das armas de nada vale sem o xerez, que  o que a pe em 
  movimento. O saber no  mais do que uma mina de ouro guardada por um demnio, 
  que s vale depois que o xerez a explora e a pe em obra e uso. E da que vem 
  a valentia do prncipe Harry, porque o sangue frio que ele herdou naturalmente 
  do pai, tal como terreno mesquinho, desnudo e estril, foi por ele lavrado, 
  adubado e cultivado com o excelente esforo de beber grandes e grandes 
  quantidades do frtil xerez, que deixou o prncipe ardente e valoroso. Se eu 
  tivesse mil filhos, o primeiro princpio humano que lhes inculcava, seria 
  absterem-se de bebidas fracas e entregarem-se ao xerez.
       (Entra Bardolfo.)
       Ento, Bardolfo?
       BARDOLFO - O exrcito foi licenciado e j se dispersou.
       FALSTAFF - Deixa-los. Irei por Gloucestershire, onde pretendo visitar 
  mestre Roberto Shallow, esquire. J o amolguei um tanto entre o polegar e o 
  indicador; dentro de pouco lhe porei o meu selo. Vamo-nos.
       (Saem.)



  CENA IV
  Westminster. Sala de Jerusalm. Entram o Rei Henrique, Clarence, Gloster, 
  Warwick e outros.
   
       REI HENRIQUE - Se Deus, milordes, permitir bom xito ao debate que sangra 
  em nossas portas, decidimos levar os nossos moos a mais altas campanhas e 
  somente fazer uso de espadas consagradas. A postos est a armada, as foras 
  prontas, investido quem deve substituir-nos, tudo, em suma, conforme o 
  desejamos. S de fora pessoal  que careo; assim, descansaremos at que 
  esses rebeldes ao governo se submetam.
       WARWICK - Coisas que, certo, a Vossa Majestade mui breve ho de alegrar.
       REI HENRIQUE - Humphrey, meu filho de Gloster, onde se acha o vosso 
irmo?
       GLOSTER - Penso que foi caar, milorde, a Windsor.
       REI HENRIQUE - E quem o acompanhou?
       GLOSTER - No sei, milorde.
       REI HENRIQUE - E Toms de Clarence, est com ele?
       GLOSTER - No, milorde; esse se acha aqui presente.
       CLARENCE - Que deseja de mim meu pai e senhor?
       REI HENRIQUE - Apenas o teu bem, Toms Clarence. Por que longe te 
  encontras de teu irmo? Ele te ama, e tu dele te deslembras; em seu afeto tens 
  mais alto posto do que os outros irmos; conserva-o, filho. Desta arte 
  preenchers o nobre ofcio de mediador, aps a minha morte, entre os outros 
  irmos e sua grandeza. No o evites, portanto; no embotes seu amor, nem 
  desprezes as vantagens de sua graa, por frio pareceres ou mesmo indiferente a 
  seus desejos, pois quando procurado, ele  atencioso; sempre tem uma lgrima 
  voltada para a piedade, e, aberta como o dia, sempre a sua mo  caridade  
  afeita. No obstante, irritado  como pedra, sombrio como o inverno e to 
  violento como no amanhecer rajada fria. Estuda-lhe o temperamento, 
  exprobra-lhe os defeitos, mas faze-o com cordura, quando o vires de humor 
  propenso  graa; irritado, porm, solta-lhe a linha, t que as paixes, como 
  baleia em seco, debatendo-se, parem. Aprende isso, Toms, para que possas 
  transformar-te em amparo eficaz de teus amigos, o lao de ouro que os irmos 
  te prenda, porque o vaso comum do vosso sangue com o veneno de estranha 
  sugesto - o que h de vir com o tempo - no se turve, ainda que tenha ao 
  to poderosa como o acnito e pronta como a plvora. CLARENCE - Cuidarei dele 
  com carinho e amor.
       REI HENRIQUE - Toms, por que no te achas com ele em Windsor?
       CLARENCE - Ora l no est; vai cear em Londres.
       REI HENRIQUE - E os companheiros, sabes quais so eles?
       CLARENCE - Os companheiros? Poins e os mais de sempre.
       REI HENRIQUE - Terra boa  sujeita a muita praga; ele, imagem mui nobre 
  de mim mesmo, por elas invadido ora se encontra. Eis porque muito alm da hora 
  da morte minha dor se prolonga. O sangue em lgrimas me sai do corao, quando 
  me esforo por figurar os dias de extravio e a corrupo que haveis de 
  presenciar, quando eu dormir com meus antepassados. Carecendo de freio os seus 
  excessos, quando a clera e o sangue ardente forem seus conselheiros nicos, e 
  os meios a prodigalidade estimularem, com que asas seus pendores ho de 
  alar-se para aos perigos atir-lo e  runa!
       WARWICK - Meu gracioso senhor, no o conheceis: o prncipe s estuda os 
  companheiros como lngua estrangeira, que nos fora, para ser aprendida, a 
  buscar todos os termos imodestos; mas, sabidos que sejam, Vossa Alteza no o 
  ignora, ficam  margem, sem nenhum emprego, em completo desdm. Como com os 
  termos grosseiros, far o prncipe no tempo de descortino com esses 
  companheiros, cuja memria servir somente de modelo, ou melhor, de exemplo 
  vivo, com que Sua Graa h de julgar os outros, aproveitando, assim, do seu 
  passado.
       REI HENRIQUE - Raro a abelha abandona o favo feito na carnia.
       (Entra Westmoreland)
       Quem chega? Westmoreland!
       WESTMORELAND - Sade a meu bom lorde, e que outras ditas s que ora vim 
  trazer-vos acrescentem. Oscula a mo de Vossa Graa o prncipe Joo, vosso 
  filho. O bispo Scroop, Mowbray, Hastings e os outros todos, sob o jugo 
  correcional de vossa lei j se acham. J no h uma espada de rebelde 
  desembainhada; a paz, por toda parte, faz brotar o seu ramo de oliveira. A 
  maneira por que isto conseguimos, com mais vagar ler Vossa Grandeza neste 
  relato certo e minucioso.
       REI HENRIQUE -  Westmoreland! s como o pssaro estival que canta sempre 
  na anca do inverno o nascimento do dia.
       (Entra Harcourt.)
       Olhai! Mais novas vm chegando.
       HARCOURT - De inimigos o cu proteja Vossa Majestade, e quando eles se 
  insurgirem, que caiam como aqueles de que venho nesta hora relatar. Lorde 
  Bardolfo, o Conde de Northumberland, com as foras inglesas e escocesas, o 
  xerife de Yorkshire os esmagou completamente. O modo e a ordem verdica da 
  luta neste despacho se acham consignados.
       REI HENRIQUE - Por que me fazem mal to boas novas? Nunca a Fortuna vem 
  de mos repletas, mas sempre escreve os termos mais bonitos com letras 
  repulsivas; d apetite, mas recusa a comida:  o que acontece com o pobre de 
  sade; ou dos banquetes a apetncia retira: assim so os ricos, que vivem na 
  fartura e no na gozam. Alegrar-me quisera com estas novas, mas a vista me 
  foge e o mundo oscila. Sinto-me muito mal; acorrei todos!
       (Desmaia.)
       GLOSTER - Coragem, Majestade!
       CLARENCE -  meu real pai!
       WESTMORELAND - Abri os olhos, senhor; tende coragem!
       WARWICK - Pacincia, prncipes; sabeis que acessos como este so comuns 
  em Sua Alteza. Afastai-vos; dai-lhe ar, que j melhora.
       CLARENCE - No, no; no poder por muito tempo suportar essas dores. As 
  idias sempre em luta, e os trabalhos incessantes de tal maneira o muro que os 
  envolve corroeram, que consegue espiar a vida atravs dele, ansiosa de 
escapar.
       GLOSTER - O povo me faz medo; j observaram filhos que no tm pai, 
  partos monstruosos da natureza. As estaes se alteram, como se o ano tivesse 
  achado meses a dormir e saltasse por sobre eles.
       CLARENCE - Trs mars teve o rio, sem refluxo; a gente velha, crnica dos 
  tempos, conta que o mesmo aconteceu pouco antes de cair doente o nosso av 
  Eduardo.
       WARWICK - Prncipes, falai baixo; o rei desperta.
       GLOSTER - O fim vir depois da apoplexia.
       REI HENRIQUE - Rogo-vos levantar-me e conduzir-me para outra sala. Por 
  favor, com jeito.
       (Saem.)



  CENA V
  Outro quarto. O Rei Henrique, no leito; Clarence, Gloster Warwick e outros, de 
  p.
   
       REI HENRIQUE - Que no faam barulho, meus amigos, a menos que mo lenta 
  e carinhosa msica me sussurre ao lasso esprito.
       WARWICK - Fiquem no quarto perto os tocadores.
       REI HENRIQUE - Ponde a coroa aqui nesta almofada.
       CLARENCE - Est com os olhos fundos; mudou muito.
       WARWICK - Silncio! Falai baixo.
       (Entra o prncipe.)
       PRNCIPE - Quem viu o Duque de Clarence?
       CLARENCE - Aqui me encontro, irmo, prostrado de tristeza.
       PRNCIPE - Como assim? Chuva dentro e nada fora? Como est o rei?
       GLOSTER - Bem mal.
       PRNCIPE - No soube as novas? Transmiti-as.
       GLOSTER - Piorou quando as contaram.
       PRNCIPE - Se  de alegria a doena, escusa mdicos.
       WARWICK - Menos rudo, milordes; baixo, prncipe; vosso pai se dispe ora 
  a dormir.
       CLARENCE - Retiremo-nos, pois, para o outro quarto.
       WARWICK - Querer Vossa Graa acompanhar-nos?
       PRNCIPE - No; fico aqui sentado, a cuidar dele.
       (Saem todos, menos o prncipe.)
       Por que se acha a coroa na almofada, se do leito  comparsa to molesto? 
   desordem brilhante, urea ansiedade, que escancaras as portas do repouso 
  para as noites insones! Dorme com ela, mas no to bem, nem to profundamente 
  como quem pe na fronte um simples gorro e fica a ressonar.  majestade! 
  oprimes quem te leva como rica armadura que, em dia muito quente, s protege 
  abrasando. Nos portes de seu hlito v-se uma peninha, que no se mexe; se 
  ele respirasse, essa pena, to leve, se movera. Meu gracioso senhor, meu pai 
  querido! Este sono  profundo, certo;  o sono que j fez divorciar-se deste 
  crculo de ouro a muitos monarcas da Inglaterra. Devo-te apenas lgrimas, 
  tristezas de meu sangue, que o amor, a natureza e a ternura filial, pai 
  extremoso, te pagaro sobejamente. Deves-me esta coroa real, que por direito 
  de sangue e sucesso a mim me toca. Ei-la aqui posta!
       (Coloca-a na cabea.)
       O cu que ma conserve; e ainda que o mundo inteiro toda a fora num s 
  brao gigante a reunir venha, jamais me privar desta honra avita. Como a 
  recebo, aos meus a deixarei.
       (Sai.)
       REI HENRIQUE (Despertando) - Gloster! Clarence! Warwick!
       (Voltam Warwick, Gloster, Clarence e outros.)
       CLARENCE - O rei chamou?
       WARWICK - Que manda Vossa Majestade? Como se encontra Vossa Graa?
       REI HENRIQUE - Por que causa, milordes, me deixastes to sozinho?
       CLARENCE - O prncipe ficara aqui, senhor, resolvido a velar Vossa 
  Grandeza.
       REI HENRIQUE - O Prncipe de Gales? Onde se acha? Chamai-o; no est 
aqui.
       WARWICK - Foi por aquela porta que se acha aberta.
       GLOSTER - No passou pelo quarto em que ns nos encontrvamos.
       REI HENRIQUE - Quem tirou a coroa da almofada?
       WARWICK - Estava aqui, senhor, quando samos.
       REI HENRIQUE - O prncipe a levou; ide cham-lo. To apressado se acha, 
  que com a morte confunde o meu repouso? Lorde de Warwick, chamai-o; 
  repreendei-o.
       (Sai Warwick.)
       Sua conduta alia-se  doena, para o fim me apressarem. Vede, filhos como 
  sois! Quo depressa a natureza se revolta, quando o ouro  o seu objetivo! E 
  por isso que os pais, em tanta insnia, com o pensamento o sono desfizeram, 
  com cuidados, a mente, e, com trabalhos, os prprios ossos; e to-s para isso 
  acumularam montes de ouro impuro, vindos de estranhos;  para isso que eles em 
  iniciar os filhos se afanaram nas artes e nas prticas da guerra. Enquanto, 
  como abelhas, ns tiramos de cada flor a seiva generosa, cheias de cera as 
  coxas, de doce mel a boca, que levamos para a colmeia, tal como a elas fazem, 
  nos matam como prmio. Esse gosto acre ao moribundo pai confere o ganho.
       (Volta Warwick.)
       Ento, onde se encontra o que no pode esperar que sua amiga me liquide?
       WARWICK - Milorde, eu fui achar no quarto prximo o prncipe a banhar o 
  gentil rosto com lgrimas sinceras, e tomado de to grande tristeza e to 
  profunda, que a prpria Tirania, que s bebe sangue, se o visse ali, lavara o 
  gldio nas gotas que dos olhos lhe corriam. Ei-lo que vem chegando.
       REI HENRIQUE - E por que carregou ele a coroa?
       (Volta o prncipe.)
       Ah! Aproxima-te, Harry. Retirai-vos do quarto. porque ss ambos fiquemos.
       (Saem Warwick e os demais.)
       PRNCIPE. - Pensei que no tornasse mais a ouvir-vos.
       REI HENRIQUE - Teu desejo era pai de tal idia. Minha demora, eu sei, te 
  cansa muito; tanta fome revelas de meu trono vazio, que envergaste minhas 
  honras pouco antes de tua hora? Ah moo insano! A grandeza a que aspiras vai 
  calcar-te. Espera apenas um momento; a nuvem de minha dignidade est sustida 
  por um vento to fraco, que no falta nada para fundir-se.  quase noite. 
  Roubaste o que seria teu sem crime dentro de poucas horas; em meu leito de 
  morte o selo pes em meus receios. Em vida demonstraste que no me amas, do 
  que queres que eu morra convencido; nos pensamentos mil punhais escondes, que 
  no teu ptreo corao afiaste para ferir-me no ltimo momento. Como! Nem meia 
  hora me concedes? Vai, pois, tu mesmo e cava-me o sepulcro; faze que os ledos 
  sinos te anunciem que ests coroado, no que eu me acho morto. Sejam todas as 
  lgrimas que o fretro me deveram banhar, gotas de blsamo para santificar-te 
  a fronte augusta; mistura-me no p do esquecimento; entrega aos vermes quanto 
  te deu vida; toca os meus criados, meus decretos rasga, que  chegado o 
  momento da desordem: Henrique quinto  rei! Viva a folia! Abaixo a real 
  grandeza! Fora, sbios conselheiros! A corte da Inglaterra vinde de toda parte 
  preguiosos macacos! Regies prximas livrai-vos de vossa escria! Se possus 
  rufies que saibam blasfemar, folgar  noite, roubar, beber, danar, cometer 
  toda sorte de crimes por processos novos, ficai felizes, que eles vo 
  deixar-vos! A Inglaterra vai dar duas mos de ouro em sua trplice infmia; 
  vai premi-los com poder, honra e postos, porque Henrique, quinto de nome, vai 
  tirar o aaimo da impudncia domada, para os dentes poder cravar impune na 
  inocncia a cadela selvagem. Pobre reino, que padeces de lutas intestinas! Se 
  meus cuidados no te libertaram de tais desordens, como hs de viver, quando 
  for a desordem quem te assista? Voltars  barbrie, a ser povoado de lobos, 
  teus antigos habitantes.
       PRNCIPE - Perdoai-me, meu senhor; mas se no fossem as lgrimas, esse 
  mido empecilho do meu discurso, houvera antecipado to cruel e to profunda 
  reprimenda, para que no falsseis to sentido, nem eu chegasse a ouvir-vos a 
  esse ponto. Eis a vossa coroa. Possa o que usa a coroa imortal guardar-vos 
  esta por muito tempo. Mas se outra valia nela descubro alm da vossa honra, 
  que no mais eu consiga levantar-me desta postura humilde, que me ensina meu 
  esprito leal e verdadeiro, mostra exterior de minha reverncia. Deus o sabe: 
  ao chegar e convencer-me de que faltava o alento a Vossa Graa, que frio me 
  transiu o ntimo peito! Se tudo for mentira, oh! desejara morrer agora, assim, 
  como um perdido, sem conseguir provar ao mundo incrdulo a troca radical que 
  me propunha. Ao ver-vos, presumindo-vos sem vida, quase morto tambm de assim 
  julgar-vos,  coroa falei, vituperando-a, como se me entendesse: "Os 
  sobressaltos que a ti se prendem se locupletaram no corpo de meu pai; por 
  isso, embora do melhor ouro, s ouro desprezvel; outro de menos lei  mais 
  precioso, porque como remdio  vida  grato. Tu, porm, to formosa, honrada 
  e clebre, devoraste o teu dono". Assim, meu muito real suserano, 
  amaldioando-a, pu-la na cabea com o fim de experiment-la, tal como a um 
  inimigo que, ante os olhos, me houvesse morto o pai, querela, certo, de um 
  muito leal herdeiro. Mas se o sangue me infeccionou de gozo ou o pensamento 
  fez inchar pela mcula do orgulho, se em mim esprito rebelde ou ftil fez 
  nascer um resqucio do desejo de acolhida ao poder que ali se encerra, que 
  Deus a tenha sempre distanciada de minha fronte e me converta agora no mais 
  pobre vassalo que se ajoelha diante dela, a tremer e reverente.
       REI HENRIQUE -  meu filho! Foi Deus quem te inspirou para lev-la, 
  porque o amor de teu pai acrescentasses advogando tua causa desse modo. 
  Chega-te, Henrique, assenta-te em meu leito e ouve - assim penso - os ltimos 
  conselhos que posso respirar. Deus  que sabe, meu filho, por que vielas e 
  caminhos tortuosos eu cheguei at  coroa, no ignorando eu prprio quo 
  pesada me foi sempre  cabea. Bem mais calma desce ela para ti, com mais 
  respeito da opinio, por estar ratificada, que as manchas da conquista iro 
  comigo para o sepulcro. Em mim, se afigurava somente honra pilhada com mo 
  forte; tive de suportar que muita gente me fizesse lembrado o hav-lo obtido 
  com a ajuda que me deram, causa sempre de contendas, de golpes sanguinosos, 
  numa paz ilusria. Esses temores arrogantes - tu o sabes - arrostei-os com 
  assaz perigo, pois o meu reinado no passou de uma cena em que essa idia 
  fosse desenvolvida. Minha morte vai mudar isso tudo, pois o que era compra, te 
  passa agora por maneira mais digna, por direito hereditrio. Contudo, embora 
  estejas mais seguro, no te achas ainda firme, pois as queixas no murcharam 
  de todo. Os meus amigos - que teus devero ser - somente h pouco se privaram 
  de dentes e de garras;  sua ajuda brutal devendo o trono, receava sempre vir 
  a ser deposto pela fora que tinham. Dividi-os, a fim de evitar isso, e era 
  meu plano conduzi-los agora  Terra Santa, para que o cio e o repouso no 
  lhes dessem vagar de examinar-me mui de perto. Toma por norma, Henrique, 
  ocupar esses espritos inquietos em contendas distantes, porque a ao longe 
  da ptria perder faa a memria do passado. Mais te diria; mas to gastos se 
  acham meus pulmes, que falar no me  possvel. A coroa... que Deus me perdoe 
   alma, e te conceda us-la com mais calma.
       PRNCIPE - Meu gracioso senhor, foi por vs ganha e usada; agora a 
  obtenho; legtimo direito nela eu tenho. A defend-la correrei primeiro, ainda 
  mesmo que a ataque o mundo inteiro.
       (Entra Joo de Lencastre.)
       REI HENRIQUE - Oh! Meu Joo de Lencastre vem chegando.
       LENCASTRE - Pai, sade e sossego, meu real pai!
       REI HENRIQUE - Sossego e paz me trazes, Joo, meu filho; a sade, ai de 
  mim! nas asas jovens j fugiu deste tronco dessangrado. Sob tua prpria vista 
  meus negcios no mundo o termo alcanam. Onde se acha milorde de Warwick?
       PRNCIPE - Milorde de Warwick!
       (Voltam Warwick e outros.)
       REI HENRIQUE - Tem algum nome especial o quarto em que eu fui atacado de 
  desmaio?
       WARWICK - Jerusalm lhe chamam, Majestade.
       REI HENRIQUE - Que Deus seja louvado!  ali que a minha vida deve acabar. 
  H muito fora profetizado que em Jerusalm viria eu a morrer, tendo eu suposto 
  vmente que seria a Terra Santa. Levai-me para l; que ali eu fique; nessa 
  Jerusalm fenea Henrique.
       (Saem.)



  ATO V
  CENA I
  Gloucestershire. Sala em casa de Shallow. Entram Shallow, Falstaff, Bardolfo e 
  o pajem.
   
       SHALLOW - Por tudo o que h, senhor, no partireis esta noite. Ol, Davy!
       FALSTAFF - Desculpar-me-eis, mestre Roberto Shallow.
       SHALLOW - No, no vos desculparei; no ficareis desculpado; no se 
  admitem desculpas; no h desculpa que sirva. Ol, Davy!
       (Entra Davy.)
       DAVY - Presente, senhor!
       SHALLOW - Davy, Davy, Davy, Davy, como direi? Davy... Como direi? Sim, 
  precisamente, William, o cozinheiro; dize-lhe que venha at aqui. No, Sir 
  John, no sereis desculpado.
       DAVY - Sim, senhor; aqueles mandatos no podem ser executados. E uma vez 
  mais, senhor, devemos semear trigo no alqueive?
       SHALLOW - Trigo vermelho, Davy. Quanto ao cozinheiro William, no h 
  pombos novos?
       DAVY - Sim, senhor. E agora aqui est a conta do ferreiro, relativa s 
  ferraduras e os ferros do arado.
       SHALLOW - Que seja conferida e paga. No, Sir John, no tereis desculpa, 
  Sir John.
       DAVY - Alm do mais, senhor,  preciso pr ala nova no balde.  verdade, 
  senhor, no pretendeis tirar um tanto do ordenado de William, para pagar o 
  saco que ele perdeu no outro dia na feira de Flinckley?
       SHALLOW - Responder por isso. Alguns pombos, Davy, duas galinhas 
  nanicas, um quarto de carneiro e algumas miudezas saborosas. Avisa William.
       DAVY - O homem de guerra vai ficar aqui a noite toda, senhor?
       SHALLOW - Sim, Davy; desejo trat-lo bem. Mais vale um amigo na corte do 
  que uma moeda na bolsa. Trata bem seus homens, Davy, porque so uns marotos de 
  marca, e podem sujar-nos pelas costas.
       DAVY - No nos podero sujar mais do que o fazem a si prprios, senhor, 
  porque a roupa branca de todos eles est maravilhosamente imunda.
       SHALLOW - Bem apanhado, Davy; e agora o teu servio, Davy.
       DAVY - Eu queria, senhor, que protegsseis William Visor de Wincot, 
  contra Clemente Perkes da Colina.
       SHALLOW - H muitas queixas, Davy, contra esse Visor; esse Visor, pelo 
  que eu sei,  um refinado tratante.
       DAVY - Concordo com Vossa Excelncia que ele seja tratante, senhor; 
  contudo, senhor, Deus no permita que um tratante no possa encontrar proteo 
  por pedido de um amigo. Um homem de bem, senhor, pode defender-se, o que no 
  se d com os velhacos. H oito anos que eu sirvo a Vossa Excelncia com 
  fidelidade; e se eu no puder, uma ou duas vezes em cada trimestre, interceder 
  a favor de um velhaco, contra um homem de bem,  sinal de que no gozo de 
  crdito junto de Vossa Excelncia. Esse tratante  um amigo honesto; por isso, 
  rogo a Vossa Excelncia que o favorea.
       SHALLOW - Podes ir; prometo que nada lhe acontecer. Cuida do servio, 
  Davy. (Sai Davy.) Onde estais, Sir John? Vinde para c; arrancai as botas. 
  Vossa mo, mestre Bardolfo.
       BARDOLFO - Alegra-me rever Vossa Excelncia.
       SHALLOW - Agradeo-te de corao, gentil mestre Bardolfo. (Ao pajem.) 
  Bem-vindo, grande amigo. Vamos, Sir John.
       FALSTAFF - J vos sigo, bom mestre Roberto Shallow. (Sai Shallow.) 
  Bardolfo, cuida dos cavalos (Saem Bardolfo e o pajem.) Se me serrassem em 
  pedaos, daria quatro dzias de bordes de eremitas barbados como mestre 
  Shallow.  coisa admirvel verificar a coerncia existente entre o esprito de 
  seus empregados e o seu: aqueles,  fora de observ-lo, comportam-se como 
  juizes tontos; ele, pelo trato com os seus homens, j se converteu em criado 
  de juiz. Os espritos deles todos de tal modo se casaram, pela convivncia, 
  que s andam em bandos, como patos silvestres. Se eu tivesse de fazer algum 
  pedido a mestre Shallow, adularia seus criados somente com dizer-lhes que 
  desfrutam da intimidade do patro; no caso de necessitar daqueles, faria 
  ccegas em mestre Shallow, afirmando no haver quem melhor dirija seus 
  prprios empregados. No h dvida: a sabedoria e a ignorncia se transmitem 
  como as doenas; da a necessidade de saber escolher as companhias. Este 
  mestre Shallow vai dar-me assunto de sobra para deixar o prncipe Harry em 
  contnua hilaridade, durante seis modas - que eqivalem a quatro termos ou 
  duas aes - a rir sem intervalo. Oh!  inconcebvel o que pode alcanar uma 
  mentira secundada por juramento leve, ou uma pilhria dita com semblante 
  sisudo a um rapaz que nunca sofreu de dor nas espduas. Oh! v-lo-eis rir at 
  que o rosto se lhe torne como capa molhada e vestida com descaso.
       SHALLOW (dentro) - Sir John!
       FALSTAFF - J vou, mestre Shallow! J vou, mestre Shallow!
       (Sai.)



  CENA II
  Westminster. Um quarto no palcio. Entram Warwick e o Lorde Juiz.
   
       WARWICK - Para onde ides, meu Grande Lorde Juiz?
       LORDE JUIZ - Como est o rei?
       WARWICK - Otimamente; as penas se acabaram.
       LORDE JUIZ - No morreu, quero crer.
       WARWICK - Fez o caminho da natureza; para ns, morreu.
       LORDE JUIZ - Desejara que Sua Majestade me tivesse levado; os leais 
  servios que em vida lhe prestei, ora me deixam exposto a toda sorte de 
  vexames.
       WARWICK - Penso que o jovem rei no vos tolera.
       LORDE JUIZ - No o ignoro, e j me acho armado para sofrer as 
  conseqncias; ningum pode olhar-me com mais fera catadura do que eu prprio 
  concebo em fantasia.
       (Entram Lencastre, Clarence, Gloster, Westmoreland e outros.)
       WARWICK - A vem a prole do defunto Henrique. Quem nos dera que o 
  Henrique vivo o gnio revelasse do pior destes trs nobres! Quantos nobres nos 
  postos ficariam, sem terem de arriar vela ante a gentalha!
       LORDE JUIZ - Prevejo uma completa viravolta.
       LENCASTRE - Bom dia, meu primo Warwick; mui bom dia.
       GLOSTER e CLARENCE - Bom dia, primo.
       LENCASTRE - Encontramos pessoas que perderam, parece, o uso da fala.
       WARWICK - Ainda falamos; mas nossos argumentos so pesados demais para 
  admitirem muita prtica.
       LENCASTRE - Que tenha paz quem nos deixou to tristes.
       GLOSTER -  meu bom lorde!  certo que perdestes um grande amigo. No 
  fingis, sem dvida; esse aspecto tristonho  vosso, mesmo.
       LENCASTRE - Conquanto ningum saiba at que ponto cair na graa a vossa 
  expectativa, parece muito fria. Isso me pesa; desejara que fosse de outro 
modo.
       CLARENCE - Ora deveis tratar Sir John Falstaff com toda a cortesia, o que 
   contrrio  corrente de vossa dignidade.
       LORDE JUIZ - Quanto fiz, caros prncipes, foi guiado pelos ditames da 
  honra, pela norma imparcial de minha alma. Jamais heis de ver-me solicitar 
  perdo indigno. Se a verdade e a inocncia me faltarem, irei para onde est 
  meu rei defunto e lhe direi quem me mandou aps ele.
       WARWICK - A vem vindo o prncipe.
       (Entra o Rei Henrique quinto.)
       LORDE JUIZ - Bom dia; salve Vossa Majestade!
       REI HENRIQUE V - Esse novo vesturio, majestade, no me assenta to bem 
  como o julgais. Irmos, revelais medo em vosso luto; isto  terra de ingleses, 
  no de turcos; Amurat no sucede a outro Amurat, mas Henrique a outro 
  Henrique. Alis,  justo que reveleis tristeza; isso vos orna. Tal realeza 
  revela o vosso luto, que eu vou adotar a moda e carreg-lo no imo do corao. 
  Sede, pois, tristes; mas considerai isso, irmos queridos, como um fardo comum 
  que nos oprime. Enquanto a mim, por Deus, ficai tranqilos, pai e irmo quero 
  ser para vs todos. Dai-me amor, que vos livro dos cuidados. Chorai a Henrique 
  morto, como o fao; mas vive o Henrique que vos troca as lgrimas em outras 
  tantas horas de alegria.
       LENCASTRE, etc. - Todos ns esperamos isso mesmo de Vossa Majestade.
       REI HENRIQUE V - Olhais-me todos estranhamente. (Ao Lorde Juiz.) 
  Sobretudo vs. Com certeza sabeis que eu no vos amo.
       LORDE JUIZ - Com toda a retido, no ter Vossa Majestade motivo para 
  odiar-me.
       REI HENRIQUE V - No! Concebe-se que um prncipe de tantas esperanas, 
  como eu, venha a esquecer-se de quanta indignidade lhe causastes? Como! 
  Descomposturas, reprimendas, prender to rudemente o herdeiro prximo da 
  Inglaterra!  isso pouco? Pode, acaso, ser lavado no Lete e no lembrado?
       LORDE JUIZ - Representava eu vosso pai, nessa poca; a imagem de sua 
  fora em mim se achava. E enquanto eu me afanava no bem pblico, a administrar 
  suas leis, Vossa Grandeza se comprazeu em esquecer meu posto, a majestade e a 
  fora da Justia, a figura do rei que em mim se via, chegando a esbofetear-me 
  em plena audincia. Vendo em vs o ofensor de vosso pai, foi que fiz uso 
  enrgico de toda a minha autoridade, a fim de enviar-vos para a priso. Se o 
  feito  condenvel, ora que estais coroado, imaginai um vosso filho a 
  desprezar os vossos decretos, a arrancar da sede augusta vossa justia, a lei 
  lanar por terra, ou a embotar a espada que assegura vossa paz e sossego. 
  Mais, ainda: a desdenhar a vossa real imagem e rir do que fizer vosso outro 
  corpo. Fazei vosso esse caso; aconselhai-vos com vossos reais conceitos; por 
  instantes sede pai, figurando-vos um filho: ouvi que vosso brio se enxovalha; 
  vede que vossas leis mais temerosas com escrnio so tratadas; contemplai-vos 
  desprezado a esse ponto por um filho, e imaginai-me, ento, de vosso lado, 
  para, com a vossa fora e sem violncia, impor a vosso filho que se cale. Ps 
  esse frio exame, sentenciai-me. J que sois rei, falai-me como rei: que fiz, 
  em desacordo com meu posto, minha pessoa, ou a prpria dignidade, e a nobreza 
  do meu real soberano?
       REI HENRIQUE V - Tendes razo, Juiz;  com eqidade que pesais isso tudo; 
  conservai, pois, a espada e a balana. S desejo que vossas honras cresam t 
  que a vida vos chegue, para verdes que meu filho vos ofende e obedece como o 
  fiz. Possa eu tambm viver para as palavras repetir de meu pai: "Feliz me 
  julgo por ter um servidor de tanta tmpera, que se atreve a julgar meu prprio 
  filho, e no menos feliz por ter um filho que assim entrega sua grandeza ao 
  brao da Justia". Pusestes-me em custdia; por isso, em mos vos ponho, 
  agora, a espada sem mancha que a levar-vos afizestes, com a recomendao de 
  que a useis sempre com o mesmo esprito imparcial e justo que usastes contra 
  mim. Eis minha mo; pai ides ser da minha mocidade; s dir minha voz o que 
  disserdes; sujeitarei, humilde, os meus intentos  vossa direo sbia e 
  sensata. Vs,  prncipes, crede no que eu digo: zangado foi meu pai para o 
  sepulcro; meus erros l com ele ora se encontram; seu esprito austero em mim 
  revive para burlar a expectao do mundo, zombar das profecias e o consenso 
  carcomido apagar que me condena pela aparncia. At hoje a mar cheia do meu 
  sangue derrama s vaidades; ora reflui e para o mar retorna, porque com as 
  ondas todas se misture, reassumindo a consueta majestade. Convoquemos agora o 
  Parlamento, e escolhamos tais membros do Conselho, que possa equiparar-se o 
  grande corpo do nosso Estado s mais bem governadas naes do mundo. A paz e a 
  guerra, ou ambas, daqui por diante devem ser-nos coisas familiares, (Ao Lorde 
  Juiz.) nas quais, pai, heis de sempre manter a preeminncia. Como o disse, 
  depois da coroao convocaremos nossos Estados todos; e no caso de ser-me Deus 
  propcio, jamais sdito lhe pedir, por falta de alegria, que encurte a feliz 
  vida de Harry um dia.
       (Saem.)



  CENA III
  Gloucestershire. Jardim da casa de Shallow. Entram Falstaff, Shallow, 
  Silncio, Bardolfo, o pajem e Davy.
   
       SHALLOW - No; ireis agora ver a minha horta, onde, debaixo do 
  caramancho, haveis de comer uma ma raineta do ltimo ano, enxertada por 
  mim, com um prato de doces e outras guloseimas. Vamos, primo Silncio; depois, 
  para o leito.
       FALSTAFF - Por Deus! Tendes uma tima residncia e terras ricas.
       SHALLOW - Estril, estril, estril; somos todos mendigos, Sir John; 
  somos mendigos. Realmente, os ares so bons. Pe a mesa, Davy; pe a mesa, 
  Davy; muito bem, Davy.
       FALSTAFF - Esse Davy vos presta bons servios;  criado e trabalhador do 
  campo ao mesmo tempo.
       SHALLOW - Um bom criado, bom criado, excelente criado, Sir John. Pela 
  Santa Missa! Bebi demasiado na ceia. Agora sentai-vos, agora sentai-vos. 
  Vinde, primo.
       SILNCIO - Caramba! Como se diz, s faremos, s faremos comer e viver 
  ledos, agradecendo a Deus os anos cheios; a carne est barata, as fmeas 
  caras, e os rapazes rondando em galanteios, alegremente, sim, muito 
  alegremente!
       FALSTAFF - Isso  que se chama corao alegre! Bom mestre Silncio, vou 
  beber desta vez  vossa sade.
       SHALLOW - Vinho .a mestre Bardolfo! Vamos, Davy!
       DAVY - Caro senhor, sentai-vos. Voltarei neste instante. Sentai-vos, 
  carssimo senhor. Mestre pajem, meu bom mestre pajem, sentai-vos. Toque! O que 
  vos falta em carne, teremos em bebida; mas haveis de desculpar; a boa inteno 
  vale tudo.
       (Sai.)
       SHALLOW - Alegria, mestre Bardolfo! E o meu pequeno soldado ali, alegria!
       SILNCIO - Alegria! A mulher que se amofine. Nenhuma escapa; todas fazem 
  mal; onde h s barba, encontra-se a alegria. Que venha o carnaval! Alegria! 
  alegria!
       FALSTAFF - No sabia que mestre Silncio era to folgazo.
       SILNCIO - Quem, eu? Em toda a vida, s fiquei alegre uma ou duas vezes.
       (Volta Davy.)
       DAVY - Aqui est um prato de mas de casca dura.
       (Pondo-as diante de Bardolfo.)
       SHALLOW - Davy!
       DAVY - Vossa Excelncia! (A Bardolfo.) Voltarei neste momento. Um copo de 
  vinho, senhor?
       SILNCIO - Bebida fina que manais da vinha, quero saudar a amada que 
  ainda  minha. E alegre a vida inteira!
       FALSTAFF - Muito bem, mestre Silncio. 
       SILNCIO - E preciso que nos alegremos; estamos no melhor trecho da 
noite.
       FALSTAFF - Sade e vida longa, mestre Silncio.
       SILNCIO - Ponde o copo at  borda; hei de esvazi-lo, muito embora a 
  uma milha esteja o fundo.
       SHALLOW - Bem-vindo, mestre Bardolfo; se precisares de alguma coisa e no 
  pedires, ento vai para os quintos. (Ao pajem.) Bem-vindo, garotinho, muito 
  bem-vindo. Bebo  sade de mestre Bardolfo e de todos os cavaleiros de 
Londres.
       DAVY - Espero ainda conhecer Londres antes de morrer.
       BARDOLFO - Se eu te pegasse l, Davy...
       SHALLOW - Pela Santa Missa! Ainda haveis de beber juntos um quartilho, 
  eh! No  verdade, mestre Bardolfo?
       BARDOLFO - Sim, senhor; um jarro de duas canadas.
       SHALLOW - Com a breca! Muito obrigado; o rapaz vai grudar-se em ti, posso 
  assever-lo; no te largar;  de bom sangue.
       BARDOLFO - Eu tambm grudarei nele, senhor.
       SHALLOW - Isso  que se chama falar como rei. Nada de cerimnias; 
  alegrai-vos. (Batem.) V quem est  porta.
       (Sai Davy.)
       FALSTAFF (a Silncio, que esvazia um copzio) - Agora, sim, jogais com as 
  minhas armas.
       SILNCIO - Dai-me essas armas, dai-me armadura... Samingo! No  assim?
       FALSTAFF - Isso mesmo.
       SILNCIO - Isso mesmo? Como vedes, os velhos ainda servem para alguma 
  coisa.
       (Volta Davy.)
       DAVY - Com licena de Vossa Senhoria, encontra-se a um tal Pistola, que 
  acaba de chegar da corte com novidades.
       FALSTAFF - Da corte? Manda-o entrar.
       (Entra Pistola.)
       Ento, Pistola?
       PISTOLA - Deus vos guarde, Sir John.
       FALSTAFF - Que vento vos trouxe para estes lados, Pistola?
       PISTOLA - No foi o vento mau que nunca sopra coisa boa. Meu doce 
  cavaleiro, presentemente s um dos maiores homens do reino.
       SILNCIO - Por Nossa Senhora! Tambm concordo, mas depois do compadre 
  Puff de Barson.
       PISTOLA - Puff! Puff em teu dente, baixo e vil covarde! Sir John, o teu 
  Pistola e amigo certo at aqui sem parar tem cavalgado, para trazer notcia 
  alvissareira, tempos ureos e novas de alto preo.
       FALSTAFF - Peo-te, ento, que mas contes, no estilo de gente deste 
mundo.
       PISTOLA - O diabo leve o mundo e a gente dele! Que o rei Coftua saiba o 
  que se passa.
       SILNCIO (canta) - E Robin Hood, Scarlet e Joo.
       PISTOLA - Os vira-latas contra os filhos de Hlicon? Zombadas as notcias 
  de tal monta? Nesse caso, Pistola, deita a fronte no regao das Frias.
       SHALLOW - Honesto gentil-homem, no entendo os vossos modos.
       PISTOLA - Ento, ide chorar.
       SHALLOW - Perdo, senhor; mas se trazeis novas da corte, penso que s h 
  dois caminhos: diz-las, ou calar. Desfruto de alguma autoridade, senhor, 
  junto ao rei.
       PISTOLA - De que rei, vagabundo? Fala ou morre!
       SHALLOW - Junto do rei Henrique.
       PISTOLA - Quarto ou quinto?
       SHALLOW - Henrique quarto.
       PISTOLA - Ao diabo o teu ofcio! Sir John, o teu cordeiro est coroado: 
  Henrique quinto  o homem! Falo certo. Se Pistola mentir, faze-lhe figa como o 
  orgulhoso hispano.
       FALSTAFF - Como! Morreu o velho rei?
       PISTOLA - Como prego na porta. Falo certo.
       FALSTAFF - Toca, Bardolfo! Encilha-me o cavalo. Mestre Roberto Shallow, 
  escolhe no reino o emprego que quiseres, que teu ser. Pistola, vou 
  carregar-te com dupla carga de dignidades.
       BARDOLFO -  dia alegre! No troco a minha sorte por um ttulo.
       PISTOLA - No so boas as novas?
       FALSTAFF - Levai mestre Silncio para a cama. Mestre Shallow, milorde 
  Shallow, s o que te aprouver, que eu me encontro agora no posto de mordomo da 
  Fortuna. Vai calar as botinas; teremos de galopar a noite toda. , doce 
  Pistola! Toca, Bardolfo! (Sai Bardolfo.) Vem para c, Pistola, conta-me mais 
  alguma coisa, enquanto pensas no que possa convir-te. As botas, as botas, 
  mestre Shallow; tenho certeza de que o moo rei est doente por ver-me. 
  Tomemos os cavalos sejam l de quem forem; as leis da Inglaterra agora se 
  encontram  minha disposio. Felizes dos que se mostraram meus amigos, e ai 
  do milorde Juiz! PISTOLA - Que os bofes lhe devorem vis abutres! "Onde est a 
  vida que eu levava?" dizem; pois bem: ela est aqui. Viva a folia!
       (Saem.)



  CENA IV
  Londres. Uma rua. Entram dois beleguins, arrastando a mistress Quickly e Doll 
  Team-sheet.
   
       ESTALAJADEIRA - No, velhaco de uma figa! Quisera que Deus me matasse, 
  para que fosses parar na forca; arrancaste-me do lugar o ombro.
       PRIMEIRO BELEGUIM - O oficial de paz ma entregou, e agora ela vai apanhar 
  uma sova de mestre,  s o que eu digo. Ultimamente mataram um ou dois homens 
  por causa dela.
       DOLL -  mentira, gancho de apanhar nozes! Eu s te digo uma coisa, 
  maldito velhaco com cara de tripa: se o filho que eu trago no ventre nascer 
  antes do tempo, fora melhor para ti bater em tua prpria me, vilo de cara de 
  papel.
       ESTALAJADEIRA - Oh, Senhor! Se Sir John aqui estivesse! Muita gente havia 
  de ter um dia cheio de sangue. S peo a Deus que o fruto de suas entranhas 
  nasa antes do tempo.
       PRIMEIRO BELEGUIM - Se tal acontecesse, tereis de usar novamente doze 
  almofadas, em lugar das onze que ora levais. Vamos! Ambas esto intimadas a 
  acompanhar-me, por ter morrido o homem em quem destes uma surra juntamente com 
  Pistola.
       DOLL - Vou dizer-te uma coisa, figura mirrada de braseiro: por causa 
  disto ainda hs de ser balouado em regra, mosca azul de uma figa! Se no 
  levares uma boa coa, deixarei de usar o meu saiote.
       PRIMEIRO BELEGUIM - Vamos, cavaleira errante; toca a andar!
       ESTALAJADEIRA - Oh! que o direito se sobreponha desse modo  fora! Est 
  bem; depois do sofrimento vir a alegria.
       DOLL - Vamos, vilo; vamos; leva-me  presena do juiz.
       ESTALAJADEIRA - Sim, vamos, sabujo faminto.
       DOLL - Compadre esqueleto!  ver a Morte!
       ESTALAJADEIRA - Tu, esqueleto! Tu!
       DOLL - Vamos, coisa fina! Vamos, velhaco!
       PRIMEIRO BELEGUIM - Muito bem.
       (Saem.)



  CENA V
  Praa pblica, perto da abadia de Westminster. Entram dois criados, espalhando 
  junco.
   
       PRIMEIRO CRIADO - Mais junco: mais junco.
       SEGUNDO CRIADO - As trombetas j soaram duas vezes.
       PRIMEIRO CRIADO - Eles no viro da coroao antes das duas; 
  despachemo-nos logo.
       (Entram Falstaff, Shallow, Pistola, Bardolfo e o pajem.)
       FALSTAFF - Ficai perto de mim, mestre Roberto Shallow; farei que o rei 
  vos distinga com a sua graa. Quando ele passar, hei de piscar-lhe deste 
  jeito; prestai ateno na cara que ele vai fazer-me.
       PISTOLA - Deus te abenoe os pulmes, bom cavaleiro.
       FALSTAFF - Vem para c, Pistola; fica por trs de mim. Oh! se eu tivesse 
  tido tempo de mandar fazer uma libr nova, teria gasto as mil libras que vos 
  pedi emprestado. Pouco importa;  melhor assim mesmo, com esta aparncia 
  pobre; desse modo dou provas da minha diligncia em rev-lo.
       SHALLOW - Realmente.
       FALSTAFF -  a prova da sinceridade de minha afeio.
       SHALLOW - Perfeitamente.
       FALSTAFF - Da devoo que lhe consagro.
       SHALLOW - Com efeito, com efeito, com efeito.
       FALSTAFF - Cavalgar, desse jeito, noite e dia, sem pensar em mais nada, 
  sem me lembrar de nada, sem pacincia at para trocar de roupa...
       SHALLOW -  muito certo.
       FALSTAFF - Postar-me aqui, ainda com as marcas da viagem, suando s de 
  impacincia de rev-lo; sem pensar em outra coisa, olvidando-me de todos os 
  outros assuntos, como se s importasse v-lo de novo.
       PISTOLA -  semper idem, porque absque hoc nihil est.  assim em toda 
  parte.
       SHALLOW - Assim , realmente.
       PISTOLA - Meu nobre cavaleiro, vou inflamar-te o peito generoso e 
  fazer-te raivar. A tua Doll, a Helena dos teus sonhos se acha num duro transe 
  e infecto crcere, lanada ali por desprezveis mos e em tudo imundas. 
  Desperta do antro de bano a serpente vingadora de Alecto, porque Doll se acha 
  no pau. Pistola nunca mente.
       FALSTAFF - Hei de libert-la.
       (Ouvem-se aclamaes e toques de trombeta.)
       PISTOLA - Muge o mar; a trombeta alegre soa!
       (Entra o Rei Henrique V com o sqito, no qual se v o Lorde juiz.)
       FALSTAFF - Deus salve tua graa, rei Hal, meu real Hal!
       PISTOLA - Os cus te guardem e te preservem, augusto garfo da Fama!
       FALSTAFF - Deus te proteja, meu doce menino.
       REI HENRIQUE V - Falai a esse homem vo, Lorde Juiz.
       LORDE JUIZ - Sabeis o que dizeis? Estais no juzo?
       FALSTAFF - Meu rei, meu Jove!  a ti que eu falo, amor!
       REI HENRIQUE V - No te conheo, velho; vai rezar. Como vo mal as cs 
  num galhofeiro! Muito tempo sonhei com um homem destes, profano e velho, 
  inchado pela orgia; mas, desperto, renego do meu sonho. Diminui o teu corpo, 
  aumenta a graa, deixa a gula; compreende que o sepulcro vai abrir para ti 
  boca trs vezes maior que para os outros. No repliques com uma dessas 
  chalaas de bufo; no presumas que eu seja o que j fui, pois Deus bem sabe - 
  e o mundo h de not-lo - que me livrei de minha antiga forma e outro tanto 
  farei com os companheiros. Quando ouvires dizer que eu sou o que fui, volta 
  para tornares-te o que foste: tutor e incitador dos meus excessos. Mas at l, 
  desterro-te, sob pena de morte, como fiz com os outros todos que me 
  descaminhavam, no deixando que a dez milhas de mim eles estejam. Quanto aos 
  meios de vida, vou prover-vos, porque ao mal a carncia no vos leve; e se 
  virmos que vos regenerastes, dar-vos-emos emprego na medida do vosso esforo e 
  mrito. Incumbi-vos, milorde de dar corpo a nossas ordens.
       (Saem o Rei Henrique e o squito.)
       FALSTAFF - Mestre Shallow, devo-vos mil libras.
       SHALLOW - Perfeitamente, Sir John; e eu vos peo que me deixeis lev-las 
  para casa.
       FALSTAFF - Ser muito difcil, mestre Shallow; mas no vos amofineis: hei 
  de ser chamado em particular para falar-lhe. Vede bem,  preciso que para o 
  mundo ele aparea assim. No temais pela quantia que me adiantastes; ainda hei 
  de ser o homem que vos tornar grande.
       SHALLOW - No atino como possa ser isso, a menos que me dsseis vosso 
  gibo e me enchsseis de palha. Meu bom Sir John, por compaixo, das mil 
  entregai-me quinhentas.
       FALSTAFF - Cavalheiro, hei de manter a minha palavra; tudo o que 
  ouvistes, no passa de simples cor.
       SHALLOW - S receio que venhais a morrer dessa cor, Sir John.
       FALSTAFF - No temais as cores; vinde cear comigo. Vamos, tenente 
  Pistola; vamos, Bardolfo; serei chamado antes da noite.
       (Voltam Joo de Lencastre e o Lorde juiz, com oficiais.)
       LORDE JUIZ - Vamos, conduzi logo para a armada Sir John Falstaff e seus 
  comparsas todos.
       FALSTAFF - Milorde, milorde!
       LORDE JUIZ - No posso agora; ouvir-vos-ei depois. Levai-os.
       PISTOLA - Si Fortuna me tormenta, espero contenta.
       (Saem Falstaff, Shallow, Pistola, Bardolfo, o pajem e oficiais.)
       LENCASTRE - Agrada-me esse gesto do monarca: deseja que os antigos 
  companheiros sejam mui bem tratados; mas desterra a eles todos, at que sua 
  conduta ante o mundo se mostre mais modesta.
       LORDE JUIZ -  certo; fez com todos.
       LENCASTRE - Milorde, o rei j convocou o Parlamento.
       LORDE JUIZ - De fato.
       LENCASTRE - Quanto apostais? Desejo dar-vos ansa: nosso brio nativo ir 
  at  Frana dentro de pouco. Um pssaro mo disse, e essa msica ao rei causa 
  ledice. Vamos; no quereis vir?
       (Saem.)



  EPLOGO
  (Dito por um danarino.)
   
       Primeiro, meu temor; depois minha cortesia; por ltimo, meu discurso. Meu 
  temor  vosso desagrado; minha cortesia, meu dever; e meu discurso, pedir-vos 
  perdo. Se estiverdes esperando um bom discurso, estou perdido, porque o que 
  vou dizer  de minha prpria inveno, receando eu muito que o que devo dizer 
  redunde em meu prejuzo. Mas, entremos logo no assunto, confiando na sorte. 
  Sabereis, pois - como bem o sabeis - que j estive aqui no final de uma pea 
  desagradvel, para pedir a vossa complacncia e prometer outra melhor. Era meu 
  intento, sem dvida, pagar-vos com esta; mas se for mal sucedida como uma 
  operao infeliz, irei  bancarrota e vs todos, gentis credores, perdereis. 
  Prometi que aqui estaria, e aqui entrego minha pessoa a vossa generosidade. Se 
  fizerdes algum abatimento, pagar-vos-ei alguma coisa, alm de apresentar-vos 
  promessas infinitas, no jeito da maioria dos devedores. Se minha lngua no 
  conseguir convencer-vos e obter quitao, mandareis que eu faa uso das 
  pernas? Seria isso um modo muito fcil de pagamento, liquidar a dvida com 
  danas. Mas uma boa conscincia deve dar todas as satisfaes imaginveis, que 
   o que eu vou fazer agora. As senhoras aqui presentes j me perdoaram; e se 
  os cavalheiros o no fizerem,  porque no esto de acordo com as senhoras, 
  coisa que nunca se viu em uma reunio como esta. Mais uma palavrinha, por 
  obsquio. Se ainda no estiverdes enjoados de carne gorda, o nosso humilde 
  autor continuar a histria, com Sir John dentro, e vos far rir com a bela 
  Catarina de Frana, na qual histria, tanto quanto posso saber, Falstaff 
  morrer de suor, a menos que j o tenha matado a vossa opinio severa, porque 
  Oldcastle morreu como mrtir, e esse no  nosso homem. Tenho a lngua 
  cansada; quando as pernas tambm o estiverem, dirvos-ei boa noite; e assim me 
  ajoelho diante de todos, mas, de fato para rogar pela rainha.

fim
